Se é certo que a rivalidade entre PSG e Marselha existe sem que seja necessário que uma bola esteja a rolar num relvado, também é verdade que o primeiro Clássico da temporada trouxe uma dose adicional de ansiedade ainda antes do apito inicial. O mau tempo impediu que houvesse jogo ao domingo: os parisienses queriam um adiamento de semanas, os marselheses queriam um adiamento de horas.

No fim, graças aos regulamentos, a equipa da casa ganhou o primeiro braço de ferro e o jogo foi adiado para daí a 24 horas, a noite desta segunda-feira — impedindo que o PSG marcasse presença na gala da Bola de Ouro, mas também que os lesionados Dembélé, João Neves ou Désiré Doué pudessem eventualmente estar disponíveis para uma nova data em outubro ou novembro. Dentro de campo, a correlação de forças seguiu o mesmo caminho.

Tinham passado praticamente 14 anos desde a última vez em que o Marselha tinha vencido o PSG em casa. Era mesmo preciso recuar a novembro de 2011 para encontrar o último triunfo dos marselheses contra o principal rival no Vélodrome, seguindo-se mais de uma década em que os parisienses conquistaram dez Campeonatos e uma Liga dos Campeões, igualando o feito europeu do Marselha que ainda era único em França e superando a hegemonia do azul celeste nos anos 90 com o polémico Bernard Tapie ao leme. O 14 anos, contudo, terminaram esta segunda-feira.

Um golo solitário de Nayef Aguerd que para alguns até foi autogolo de Marquinhos, logo nos instantes iniciais do Clássico, foi o suficiente para afundar o porta-aviões de Luis Enrique. O Marselha venceu o PSG no Vélodrome pela primeira vez desde 2011, impôs a primeira derrota da temporada aos campeões europeus e deu uma alegria aos adeptos que nas bancadas vestiam camisolas onde se lia “anti-PSG” com frequência. A rivalidade entre Marselha e PSG, entre Marselha e Paris, é muito mais do que desportiva ou clubística — é societal e antropológica, numa espécie de luta de classes entre uma das cidades mais perigosas da Europa e a principal capital europeia da arte, do luxo e da elite.

Algo que é totalmente assumido pelo próprio PSG em cada deslocação a Marselha, já que deixa o autocarro descaracterizado em casa e atravessa a cidade com um autocarro comum e sem qualquer identificação, uma atitude justificada com o apedrejamento de 2015 que estilhaçou o vidro da frente do veículo. Orientada por Roberto De Zerbi desde junho do ano passado, a equipa do sul de França que ficou no segundo lugar da Ligue 1 na temporada anterior quer claramente colocar em causa a hegemonia do PSG e deu o primeiro passo para lá chegar com a vitória desta semana no Clássico.

Em De Zerbi, de forma notória, encontrou um timoneiro que parece identificar-se com as dores de uma população que vive quase por inteiro para o Marselha. E não precisou de muito tempo na cidade para perceber que um dos principais traços de personalidade que une os adeptos do clube é a total antipatia pela capital do país, pelo principal clube da capital do país e pelos apoiantes do principal clube da capital do país.

“Disse logo ao Pablo Longoria [presidente do Marselha] que uma das razões que me fez assinar foi ganhar ao PSG, porque são os melhores. É um dos melhores dias desde que cheguei aqui, claro. O PSG representa o poder e eu não gosto do poder. Ganham há anos sem que seja possível, ou sendo quase impossível, que os outros possam competir. Não aceito isso”, explicou o italiano depois da vitória desta segunda-feira, em declarações que colaram na perfeição com a euforia que demonstrou ainda em campo na sequência do apito final, sendo que foi expulso durante o jogo por protestos.