O ex-diretor do FBI James B. Comey foi indiciado na quinta-feira por alegadamente prestar declarações falsas e obstrução, crimes puníveis com pena de prisão de até cinco anos. O processo criminal foi aberto dias depois de o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) ter deixado um apelo à procuradora-geral para que tomasse medidas contra Comey e outros opositores políticos, noticiou a imprensa norte-americana. “Enfrentar Donald Trump tem um preço”, respondeu o antigo líder da polícia federal, numa altura em que o chefe de Estado, que jurou vingar-se dos seus adversários políticos, tem sido acusado de instrumentalizar o Departamento da Justiça para perseguir os seus inimigos.

A Associated Press escreveu que Comey é o primeiro antigo alto-funcionário do Governo a enfrentar acusações relacionadas com o caso que tem sido uma preocupação de Trump desde o seu primeiro mandato na Casa Branca: a investigação do FBI sobre a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016, que venceu. O líder dos EUA tem descrito que não passa de uma “farsa” e de uma “caça às bruxas”.

O caso contra o ex-diretor está precisamente relacionado com um depoimento, em setembro de 2020, perante o Comité Judiciário do Senado, centrado na forma como a polícia federal lidou com a investigação sobre a interferência russa. Um grande júri federal (comissão de cidadãos com poderes de investigação) em Alexandria, no estado de Virgínia, considerou que existiam motivos para indiciar James Comey por declarações falsas e obstrução.

Trump reagiu às notícias através da rede social que fundou, a Truth Social. “Justiça na América [em letras maiúsculas]! Um dos piores seres humanos a que este País já foi exposto é James Comey, o antigo líder corrupto do FBI. Hoje ele foi indiciado por um grande júri por duas acusações de crimes graves por vários atos ilegais”, escreveu. “Ele foi tão mau para este País, por tanto tempo, e está prestes a ser responsabilizado pelos seus crimes contra a nossa Nação”, defendeu, anunciando a nomeação de Lindsey Halligan, sua conselheira na Casa Branca, para exercer as funções de procuradora no Distrito Leste da Virgínia e “fazer as coisas avançarem”.

No sábado o líder norte-americano tinha apelado para que a procuradora-geral agisse. “Pam, analisei mais de 30 declarações e posts que diziam, essencialmente, “é a mesma velha história da última vez, só conversa, nenhuma ação”, referia, apontando Comey como um dos “culpados” na investigação. “Não podemos adiar mais, está a matar a nossa reputação e credibilidade. Eles acusaram-me duas vezes e indiciaram-me (5 vezes!), por nada”, escreveu. “Deve ser feita justiça”.

Na quinta-feira o atual diretor do FBI e a procuradora-geral dos EUA emitiram um comunicado conjunto sobre o caso. “Por muito tempo, a anterior liderança corrupta e os seus facilitadores usaram a aplicação da lei federal como arma, prejudicando instituições outrora orgulhosas e minando severamente a confiança pública”, sublinhou Kash Patel. “Ninguém está acima da lei“, assegurou por sua vez Pam Bondi.

James B. Comey também já reagiu à abertura do processo criminal, através de um vídeo publicado na rede social Bluesky em que garante estar inocente e responsabiliza o Presidente norte-americano. “A minha família e eu sabemos há anos que enfrentar Donald Trump tem um preço, mas não nos imaginamos a viver de outra forma. Não vamos viver de joelhos e vocês também não deveriam”, afirmou. “Não tenho medo. O medo é a arma dos tiranos”, acrescentou. Mostrou-se ainda preocupado com a forma como o Departamento da Justiça está a ser utilizado, mas garantiu ter confiança no sistema judicial. “Tenho confiança no sistema judicial federal e sou inocente. Por isso, vamos a julgamento”.

Na semana passada Erik S. Siebert, o procurador que estava responsável pelo caso de Comey e outras figuras críticas de Trump demitiu-se. Horas antes, o Presidente disse aos jornalistas na Casa Branca que o queria “fora”. Segundo a ABC, a decisão de Trump estava relacionada com o facto de o gabinete de Siebert ter concluído que não existiam evidências para acusar a rival política Letitia James.

Siebert foi substituído por uma ex-advogada pessoal de Trump. Duas fontes revelaram ao Washington Post, sob a condição de anonimato, que Lindsey Halligan, que até agora não tinha qualquer experiência enquanto procuradora, apresentou pessoalmente o caso ao grande júri. “É uma advogada muito boa”, tinha elogiado Trump numa publicação na Truth Social no sábado. A Associated Press acrescenta que Halligan agiu com rapidez porque os procuradores tinham até esta quinta-feira para apresentar as acusações antes que o limite de cinco anos prescrevesse.