Fechado o capítulo “Remco contra o mundo”, chegou a vez de virar a página para a fase “Remco contra a Europa”. Pouco dias depois de ter conquistado mais um título mundial no contrarrelógio em Kigali, no Ruanda, o terceiro objetivo de Evenepoel para esta fase final da temporada passava por repetir, mas agora nos Campeonatos da Europa de Drôme-Ardèche, em França. Pelo meio, a prova de fundo dos Mundiais não correu bem ao belga que, apesar de ter ficado no segundo lugar, atrás do bicampeão Tadej Pogacar, viveu múltiplas emoções ao longo da corrida, enfrentando problemas mecânicos que o levaram a “culpar” a bicicleta. Contudo, a polémica foi rapidamente desmentida por Serge Pauwels, selecionador belga, e Dario Kloeck, mecânico e primo do ciclista da Soudal Quick-Step, que garantiram que a bicicleta se encontrava com as medidas exigidas pelo atleta.

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Depois de deixar para trás o que aconteceu nos primeiros Mundiais em solo africano, Remco Evenepoel partia para o contrarrelógio dos Europeus como o principal favorito a revalidar o título que conquistou em 2019 e que deixou fugir em 2021, quando foi terceiro, atrás de Stefan Küng. “Já venci todos os que estão aqui em diversos percursos. É um pouco difícil depois de uma viagem como esta, mas depois de uma volta e alguns blocos de ativação, as minhas pernas relaxaram um pouco. O vento já soprava forte contra nós e estão a prever rajadas ainda mais fortes amanhã [quarta-feira]. Vou poder aproveitar a minha posição, porque o percurso não é nada técnico. Normalmente, teria uma vantagem sobre ciclistas maiores como Filippo Ganna e Joshua Tarling. Título europeu? É o meu maior objetivo neste outono. Talvez até maior que o Campeonato do Mundo”, explicou o belga em conferência de imprensa, referindo que, dos grandes títulos internacionais, apenas lhe falta conquistar a prova de fundo dos Europeus.

Portugal contou com a representação do especialista Nelson Oliveira e de João Almeida que, em cima da hora, renunciou e não esteve presente na partida. “São 24 quilómetros, num percurso que não é muito longo e termina em subida. Num contrarrelógio, cada um tem de dar tudo o que pode e vamos ver até onde conseguimos chegar. O Nelson Oliveira e o João Almeida são dois bons contrarrelogistas, mas a concorrência é muito forte. Se a distância fosse maior seria mais favorável, sobretudo para o Nelson, que ainda vem de uma lesão na mão e não teve a preparação ideal. Vamos dar o nosso melhor e procurar o melhor resultado possível”, explicou o selecionador José Poeira à Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC). Pela manhã, Beatriz Roxo foi 31.ª no escalão de sub-23, com Gonçalo Rodrigues a terminar no 41.º lugar e Gonçalo Costa no 48.º nos juniores. Nas elites femininas, Daniela Campos, que abriu a prova, terminou na 25.ª posição.

Com partida em Loriol-sur-Drôme, o percurso até Étoile-sur-Rhône possuía 24 quilómetros, num percurso bastante diferente do que aconteceu no Ruanda, embora estivesse longe de ser totalmente plano. Perto do quilómetro oito, na chegada à cidade de Grane, os ciclistas tinham que enfrentar uma subida de 400 metros a 6,6% de inclinação, seguindo-se nova rampa no final, com o último quilómetro a ser feito a 5,2%, com destaque para um setor com 300 metros a 8%. Sem Pogacar e para lá de Evenepoel, Ganna, que não esteve no Ruanda, era o principal rival do belga, Stefan Küng, Stefan Bissegger, Bruno Armirail, Rémi Cavagna, Ethan Hayter, Tarling e Vacek a surgirem numa segunda linha. Mads Pedersen tinha em França a sua “última oportunidade”, como o próprio referiu.

Sem o campeão de 2024 Edoardo Affini, Remco Evenepoel foi o último a partir para a estrada e começou a sentir problemas nos primeiros quilómetros, queixando-se de não escutar as mensagens passadas via rádio. No primeiro ponto intermédio, Filippo Ganna começou por se impor face a Joshua Tarling e Mads Pedersen, retirando dois segundos ao tempo do britânico, mas o belga vinha bastante mais rápido e rubricou o melhor tempo, com quase 14 segundos de vantagem. Stefan Küng perdia 25 segundos e, por outro lado, a organização não tinha qualquer informação de tempo do português. Só na chegada se percebeu, na mesma altura, que Nelson Oliveira tinha feito uma prestação longe de outros tempos, terminando com 31.06,91 minutos. A meio da prova, Evenepoel seguia com 25 segundos de vantagem para Ganna e 36 para Tarling, que arriscava tudo nas trajetórias mais apertadas.

Pouco depois, o belga acabou por ultrapassar Küng, que partira um minuto antes e teve uma prestação bastante aquém do esperado. Quem também dobrou o corredor da frente foi Ganna, que deixou para trás Jakob Söderqvist. À entrada para a subida final, Niklas Larsen, que tinha surpreendido nos pontos anteriores e foi o primeiro a baixar dos 30 minutos na meta, fez melhor do que Tarling, mas Evenepoel e Ganna voltaram à dianteira. No final imperou a mesma lógica, com Remco Evenepoel a sagrar-se campeão europeu pela segunda vez com o tempo de 28.26,36 minutos, à frente de Filippo Ganna (+43,37 segundos) e Niklas Larsen (+1.08,56), que bateu Ethan Hayter (+1.09,26) e Joshua Tarling (+1.10,61) no limite e alcançou o bronze. Nelson Oliveira terminou no 19.º lugar, a 2.40,55, imediatamente à frente do vencedor da Volta a Portugal, Artem Nych (+2.43,73), da Anicolor-Tien 21

No final do contrarrelógio, Nelson Oliveira deu uma entrevista ao portal Cycling Pro Net em que confirmou que João Almeida falhou a prova porque, durante a manhã, “não se sentiu bem” e “tentará recuperar para domingo”. “Acho que a única dificuldade foi o vento, que estava muito forte. Precisas de manter o foco. Estive seis semanas sem treinar como gosto. Estou bem e estou de olho no final da temporada”, acrescentou o ciclista de 36 anos.

Atualizada às 16h09 com as declarações de Nelson Oliveira no final da prova.

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