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ModaLisboa. O que acontece quando os lenços pró-Palestina encontram Béhen, Gonçalo Peixoto e Carlos Gil?

Este artigo tem mais de 6 meses

Este sábado, a ModaLisboa ficou entre as transparências de Gonçalo Peixoto, a alfaiataria urbana de Carlos Gil, o artesanato de Béhen e os lenços pró-Palestina que desceram a Rua Augusta.

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Pelas 18h30 uma multidão aglomera-se no final da Rua Augusta. As portas do MUDE abrem-se para algumas poucas pessoas entrarem, lentamente. São encaminhadas em grupos de oito para não ultrapassar a lotação do elevador. Lá dentro, jornalistas internacionais comentam que “vai levar horas para levar toda a gente para cima”. Seis andares. Espera no terraço, ao pôr do sol, com vista para o Castelo de São Jorge. “Great place for drinks”, diz outra estrangeira. Alguns quilómetros acima decorre uma manifestação pró-Palestina, com um jovem de 22 anos a subir a uma carruagem na estação do Rossio e a ser eletrocutado. Mas aqui vive-se um mundo paralelo, não fosse pelos convidados a usarem keffiyehs, os lenços que representam a luta palestiniana.

A Béhen trouxe a ModaLisboa para o MUDE num desfile intimista. Numa sala na antiga cozinha, diante do painel de azulejos Viúva Lamego “Interpretação da Iluminura Quinhentista da Crónica de Duarte Galvão, existente no Museu Castro Guimarães, 1960”, com poucos lugares sentados, o ruído do exterior ficou para trás. Aqui dentro prevalece o som do piano a tocar e uma voz a narrar os tecidos e técnicas de produção de cada coordenado. Vestidos com efeito balão, saias estruturadas, camisas e calças bordadas ou rendadas à mão, com artesanato regional e referências da Madeira ou Viana do Castelo, em seda, algodão ou organza. Looks que poderiam ir para um baile — ou até para uma noiva num casamento.

▲ Carlos Ferra e Isabela Valadeiro à espera do desfile intimista de Béhen

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

De volta ao Pátio da Galé, o vestido criado por Luís Carvalho para Marisa Liz, com os tradicionais lenços palestinianos, não deixa o público da ModaLisboa esquecer o que se passa no mundo. Mas dentro da sala de desfiles, é como se parasse de girar: um espaço para cada designer dar voz àquilo que entender. No início da tarde Luís Onofre trouxe a sua coleção com as clássicas e elegantes sandálias, em tons de bege e castanho e com saltos altos — com a exceção de uma única sandália rasa com pedraria e um par com saltos mais baixos com tiras verdes. Mais tarde, com Lidja Kolovrat, a natureza volta a ser o foco. “Já tentou ouvir uma rocha?”, questiona a designer, no manifesto que antecede o desfile. A primeira modelo entra a caminhar como se carregasse uma pedra envolvida pela cauda do vestido — tem a testa escrita com a frase” I am here”. O ritmo torna-se tão lento que os outros manequins acabam por a ultrapassar. “Às vezes gostava de ser uma rocha, para parar de tentar entender tudo”, escreve Kolovrat. Nas peças as pedras aparecem através dos padrões, em tons de cinza, preto e bege; nas texturas, em tecidos rígidos e que parecem quase papel; e nas formas, com volumes exagerados e silhuetas retas. O contraste vem com a fluidez das franjas ou a transparência do tule. Uma coleção com o ADN da criadora, conhecida pelos desfiles performáticos e peças carregadas de um tom conceptual.

▲ O vestido de lenços palestinianos feito por Luís Carvalho para Marisa Liz exposto no Pátio da Galé. Do lado de fora, manifestações que juntam moda e política

Rita Lourenço

Uma hora antes, entretanto, não havia uma pessoa dentro da sala da ModaLisboa que não soubesse estar a ver um desfile de Gonçalo Peixoto. A coleção transborda o estilo do designer, com as suas cores vivas, transparências, brilhos, decotes e os famosos micro tops. Ao Observador, o criador diz que a inspiração surgiu num museu.”Vejo uma pintura e penso: ‘O que é que Marie Antoinette usaria se vivesse no século XXI? Como é que ela usaria Gonçalo Peixoto?‘”. Na releitura do estilo icónico da Rainha francesa, o designer retira as amarras e os tecidos que cobrem e substitui pelas rendas que mostram. “É este contraste de Gonçalo Peixoto, que é zero esconder o corpo. Este meu lema de vida. Marcar a liberdade da mulher, em que as mulheres fazem o que querem. E é isso que eu tento fazer enquanto criador, é tornar a mulher ainda mais independente e ainda mais feliz a vestir uma peça de roupa.”

Gonçalo Peixoto continua confiante no seu estilo próprio, validado pelas muitas amigas e clientes célebres que o aplaudiram de pé. “Dizem-me que sou conhecido como o designer das transparências. E sinto-me feliz com isto, não te vou mentir, porque isto quer dizer que continuo a trabalhar. Porque se continuo aqui é porque continuo a ter clientes, que aceitam estas transparências, que aceitam que, efetivamente, o corpo da mulher não tem defeitos. E por isso, foi feito para se mostrar, foi feito para trazer o melhor que há, a liberdade, o empowerment feminino.” O criador nunca escondeu as ambições, e ao mesmo tempo em que apresenta a coleção primavera-verão em Lisboa tem as peças expostas no showroom na Semana da Moda de Paris. “Acho que (a internacionalização) está a acontecer, não pode ser também um too big step, tem que ser baby steps, sabes?”

O dia terminou com a elegância urbana de Carlos Gil. A abrir com uma performance de Brutos Diamantes, do cantor Syro, e enquanto artistas desenhavam em colunas em branco o padrão tema da coleção, as modelos desfilaram visuais da alfaiataria tradicional do designer combinadas com peças que puxam para um streetstyle — seja com as calças mais largas, os casacos com capuz ou os bonés. “Foi uma coleção onde eu saí da minha zona de conforto. Claro, eu tento sempre fazer coleções diferentes, nunca perdendo o meu ADN, que é também o das minhas clientes. E aplicar sempre o meu saber técnico cada vez mais evolutivo. Eu acho que isso é que é muito importante”, diz o designer, que criou peças focado em chegar a “vários tipos de faixas etárias”. “Este ano, ao ter um crew de grafitis em passarelle, para mim foi qualquer coisa de espetacular. Nunca tinha feito nada do género e ainda por cima com alguém que cantava algo que muito tem a ver com as nossas vidas, que é os diamantes. Todos nós somos bonitos, todos nós temos muito saber. Às vezes só temos é que ser polidos e cá estou eu para poder polir alguma coisa e pensar em algo.”

▲ No desfile de Carlos Gil, Moedas sentou-se ao lado de Abbondanza e o cantor Syro abriu os trabalhos

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

No final do desfile, Carlos Gil fez questão de dar um abraço a um convidado especial: Carlos Moedas. O candidato à Câmara Municipal de Lisboa ocupou parte do tempo da sua campanha discreta sentado ao lado de Eduarda Abbondanza. Em mangas de camisa e calças descontraídas, com as já conhecidas meias laranjas e ténis, deixou claro que respostas a perguntas “só sobre ModaLisboa”. “A ModaLisboa representa aquilo que a nossa cidade é, que é no fundo a inovação, a criatividade, a diversidade. É as nossas diferenças todas juntas através da moda”, diz o responsável, que preferiu não comentar diretamente os protestos pró-Palestina da tarde. “Penso que a moda representa no fundo também aquilo que é a adaptação social a cada momento, a cada ponto da história. E portanto, representa também aquilo que são as lutas de um contexto. E isso é muito importante porque isso é a nossa liberdade. E Lisboa representa também isso.”

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