O grande comício de arranque da campanha de Carlos Moedas, com Isabel Díaz Ayuso como estrela convidada, já deveria ter começado há pelo menos quarenta minutos. É terça-feira, são quase 19 horas e a sala do Centro de Congresso de Lisboa continua muito despida. Ângelo Pereira, líder da distrital do PSD, está com um ar preocupado. Não larga o telefone. Os jotinhas que ajudam a dar colorido à campanha recebem instruções para orientar as pessoas que estão sentadas na fila que fica à direita do palco e nos lugares mais recuados. É preciso que se aproximem da zona central para disfarçar as clareiras que se abrem e evitar que os repórteres de imagem captem aquele cenário. Mas as coisas são o que são: alguma coisa na mobilização tinha falhado.
O arranque a meio-gás foi um primeiro grande aviso à navegação. E teve repercussões no interior da campanha de Carlos Moedas. Na quarta-feira, um dia depois do comício, houve uma reunião descrita como tendo sido muito tensa entre a direção de campanha do social-democrata e vários dos presidentes de Junta que concorrem pela coligação — nem todos apareceram no grande comício de arranque de Moedas, o que causou um enorme desconforto em toda a comitiva.
Nesse encontro, foram apontados dedos e a discussão chegou a subir uns quantos decibéis. Houve quem exigisse um maior espírito de compromisso dos autarcas e candidatos; e quem, por outro lado, dissesse que falta investimento, empenho e estratégia à campanha de Moedas em Lisboa. Nessa reunião, sabe o Observador, o presidente da Câmara de Lisboa chegou a deixar um recado bem sério: se lhe correr mal a eleição, será pior para todos. Fonte da campanha de Moedas desvaloriza e nega qualquer tipo de tensão ou que se tenha tratado de um toque a rebate. “Foi uma reunião normal de organização interna. Como temos regularmente.”
▲ Depois de um arranque tímido, a campanha de Moedas parece ter sofrido uma inflexão esta sexta-feira
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Uma campanha “preenchida” — mas reservada
Acontece que o social-democrata está a fazer uma campanha atípica à luz de qualquer critério. Mantém uma agenda paralela para a qual não convoca a comunicação social — são as candidaturas às juntas que acabam por dar conta da existência desses eventos nas redes sociais. Tudo o resto é minimal: na terça feira, primeiro dia de campanha, almoçou com Luís Montenegro e outros autarcas do distrito e organizou o tal comício de arranque. Na quarta-feira, participou num almoço-debate organizado pelo International Club. Quando os jornalistas pediram que respondesse a umas perguntas, recusou. Na quinta-feira, não houve qualquer ponto na agenda oficial — Moedas só foi visto à noite, no debate organizado pela RTP. Nada mais.
A equipa do social-democrata recusa falar em agenda paralela. “Só há uma agenda de campanha e é muito preenchida, com várias iniciativas”, nota a mesma fonte, sem explicar o porquê de a comunicação social não ser convocada para os tais eventos. Informalmente, no entanto, vai-se dizendo que as pessoas estão cansadas de bandeirinhas e de campanhas eleitorais, pelo que não faz sentido repetir modelos tradicionais. Jura-se a pés juntos que Moedas não tem medo da receção que pode ter na rua depois de quatro anos de poder. Aliás, o próprio disse-o esta sexta-feira. “Estou na rua há quatro anos.”
Há quem aponte outros motivos. A verdade é que a relação do autarca com as estruturas de PSD e CDS, essenciais para garantir um bom desempenho nas ruas, já conheceu melhores dias. Ao contrário do que aconteceu há quatro anos, Moedas teve uma intervenção muito mais direta na escolha de candidatos a vereadores e de candidatos, o que causou alguns amargos de boca. Mais a mais, Ângelo Pereira, líder da distrital, e sobretudo Luís Newton, presidente da concelhia, viram-se formalmente acusados na Operação Tutti-Frutti, o que também implicou mudanças na dinâmica do PSD em Lisboa e na própria relação com o autarca.
A campanha de 2021 foi, de facto, muito diferente. Moedas partiu muito cedo para a estrada e fez uma pré-campanha exigente. Oficialmente, arrancou a 14 de setembro, com um grande comício. Por dia, e logo na primeira semana, tinha pelo menos duas a três ações. Arruadas, apresentações de candidaturas, incursões à noite pelo Bairro Alto, viagens nos transportes públicos e almoços com apoiantes. E fê-lo muitas vezes pouco acompanhado, com apenas alguns apoiantes e membros do núcleo duro de campanha. Quase sem televisão — que era (e continua a ser) o meio de comunicação social dominante — mas sempre com convocatória formal para o efeito.
Esta sexta-feira, no entanto, parece ter existido uma ligeira inflexão na campanha de Carlos Moedas. Na véspera, a equipa do candidato social-democrata informou a comunicação social de que iria existir a primeira arruada em período oficial de campanha, um passeio entre o Campo Pequeno e o Saldanha. Houve muita gente convocada para o efeito — a presença de Mariana Leitão, presidente da Iniciativa Liberal, ajudou a arrastar os liberais — e o grupo de apoiantes era bem composto. As televisões apareceram, ainda que tenha faltado ‘povo’ — contam-se pelos dedos as interações que o presidente da Câmara Municipal teve com as (poucas) pessoas que estavam por aquelas bandas.
Ao final tarde, Moedas juntou-se ainda à “Festa da Juventude“, para os lados das Docas de Santo Amaro. Pormenor: este evento já tinha sido anunciado pelas redes sociais da Iniciativa Liberal; só na quinta-feira, 2 de outubro, a equipa de Carlos Moedas comunicou formalmente aos meios de comunicação social que estaria presente naquele evento. Amanhã, sábado, o candidato tem prevista uma única ação de campanha: às nove da manhã, fará uma arruada na Avenida da Igreja, junto ao Mercado de Alvalade.
Os próximos eventos dirão se vai ou não existir uma real intensificação da campanha ou se esta sexta-feira foi uma exceção à regra. A equipa que organiza a campanha do atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa garante que sim, que vai haver. “Como em todas as campanhas a última semana é sempre a mais intensa.”
Sondagens são desvalorizadas
A verdade é que esta pequena demonstração de força surge depois de três sondagens bastante modestas para o social-democrata, sempre em empate técnico com Alexandra Leitão. Sendo que o estudo de opinião da SIC/Expresso mostra Moedas à frente mas a descer; e a sondagem da RTP dá mesmo a socialista à frente do atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Números que não parecem alinhados com a grande confiança com que Moedas partiu para esta campanha. Só a sondagem da TVI/CNN dá uma vantagem mais confortável ao social-democrata, mas ainda dentro da margem de erro.
Os homens do social-democrata desvalorizam. “É o previsto“, ironiza fonte da candidatura de Moedas, insistindo que esta ação (só comunicada na véspera) estava prevista há muito tempo. “O evento desta sexta-feira estava definido há muito tempo, assim como as próximas iniciativas. Independente das sondagens. A agenda de campanha foi definida há vários meses e naturalmente foi feita tendo em conta o calendário até ao dia 12 de outubro”, esclarece a mesma fonte.
Aos jornalistas, à margem da ação de campanha no Saldanha, Moedas chutou para canto. “O que a rua diz é que as pessoas estão contentes com o projeto. As sondagens não me dizem muito. Sinto a confiança das pessoas.” No círculo de confiança do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, há quem aponte duas razões: as sondagens não conseguem (como não conseguiram há quatro anos) medir o nível de adesão à figura de Carlos Moedas; e, em segundo lugar, acredita-se que haverá pragmatismo na hora de votar que não é refletido pelos estudos de opinião — entre o seguro e o inseguro, os eleitores escolherão Moedas.
Apesar de tudo, as sondagens podem produzir um efeito negativo para Moedas: instalando-se a ideia de que Alexandra Leitão pode mesmo disputar esta eleição, haveria uma tendência de voto útil à esquerda e uma transferência de votos de João Ferreira para a socialista. Ao contrário, à direita, parece haver uma consolidação dos votos no Chega, o que coloca limites ao crescimento eleitoral do social-democrata nesse espaço político. A chave é, por isso, o centro — o que explica a insistência de Moedas em pintar a adversária como uma perigosa radical de esquerda.
Neste momento, por tudo isto e apesar da confiança assumida na vitória do social-democrata, ninguém se atravessa por um número mágico. Os mais próximos de Carlos Moedas acreditam convictamente que será possível crescer face ao resultado conseguido há quatro anos e ficar perto da maioria — ganhá-la parece difícil, mas não impossível. Nas (poucas) ações de campanha que teve, o social-democrata tem lembrado insistentemente que governou em minoria, apelando à mobilização dos eleitores da coligação e tentando forçar a nota de dramatismo que quer imprimir.
“Os lisboetas têm uma escolha muito importante: entre nós, que estivemos quatro anos em minoria, ou então uma coligação liderada pelo Bloco de Esquerda. Precisamos de votos para conseguir ter condições de governabilidade. Quem tem mais um voto, que é o que eu peço aos lisboetas, é presidente da Câmara, mas, obviamente, quantos mais votos melhor”, assinalou o social-democrata. Os próximos dias dirão se conseguirá ou não forçar esta mensagem.
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