Julia Wandelt, uma jovem polaca de 24 anos acusada de perseguir os pais de Maddie McCann, chorou durante a sessão desta segunda-feira do seu julgamento em Leicester, no Reino Unido, ao ouvir o procurador afirmar perante o júri que ela “não é Madeleine McCann”, mas sim uma “manipuladora emocional e teórica da conspiração”. A arguida, que diz acreditar ser a menina desaparecida em 2007 na Praia da Luz, é acusada de realizar uma campanha de assédio contra Kate e Gerry McCann que incluiu “chamadas, mensagens e deslocações à casa dos McCann”, noticia a BBC.
Mal ouviu as palavras do procurador Michael Duck KC, Wandelt começou a chorar compulsivamente, levantou-se e tentou sair pela porta que dá acesso às celas. Foi amparada pela coarguida Karen Spragg, de 61 anos, que a abraçou e tentou acalmá-la. Spragg é acusada de ter colaborado na perseguição ao casal McCann e ambas negam as acusações de assédio que lhes são imputadas. Julia culpa, aliás, a “grande corrupção” e a comunicação social pelas acusações de que é alvo, garantindo: “Não sou mentirosa e não sou louca”.
A polaca foi detida em fevereiro deste ano no aeroporto de Bristol, quando chegava da Polónia e enfrenta agora quatro tipos de acusação ligadas à perseguição dos pais de Maddie. Michael Duck sublinhou, perante o tribunal, que “não existe qualquer ligação familiar” entre Wandelt e os McCann, adiantando que o júri irá ser confrontado com provas científicas detalhadas que o comprovam. O procurador recordou, ainda, que a arguida é “quase dois anos mais velha do que Madeleine seria hoje”, um dado que esta “tentou justificar dizendo que aparentava ser mais jovem”. “Perante factos inconvenientes, tentava sempre encontrar uma desculpa, mas não há escapatória possível quando confrontada com a evidência científica”, sublinhou o procurador.
Polaca de 23 anos que disse ser Maddie McCann comparece esta sexta-feira em tribunal
Nesta sessão, o júri do tribunal ouviu que Wandelt já se tinha feito passar por outras crianças desaparecidas, nomeadamente Inga Gehricke, da Alemanha, nascida oito anos depois dela, e Acacia Bishop, dos Estados Unidos, desaparecida em circunstâncias trágicas em 2003. Nos dois casos, as alegações foram desmentidas.
A acusação sustenta que, entre 1 de junho de 2022 e 21 de fevereiro deste ano, Wandelt enviou várias mensagens, e-mails, cartas e mensagens de voz a Kate e Gerry McCann, além de ter visitado a aldeia de Rothley, em Leicestershire, onde o casal reside. No tribunal foram reproduzidas várias das cerca de 60 mensagens de voz deixadas pela jovem de 24 anos no telemóvel de Kate McCann. Numa delas, dizia: “Se eu for a Maddie, tudo ficará bem, e se não for, como provavelmente pensam, deixá-los-ei em paz”. Noutra gravação, afirmava: “Sei que pareço gorda e sei que não sou bonita, mas sei o que sei e lembro-me do que lembro”.
Nas mensagens, descritas por Duck KC como “manipulação emocional do mais alto grau”, Wandelt apresentou-se como “a rapariga que se tornou viral por dizer que acredita ser Madeleine McCann”, alegando ter sido submetida a hipnose e ter tido “muitas recordações” da infância com a família McCann.
“Posso ser a vossa filha, é possível que eu seja”, pode ler-se num dos e-mails enviados. Wandelt alegava que havia “semelhanças físicas e cicatrizes idênticas” entre as duas e quando não obteve resposta por parte dos pais de Maddie, passou a contactar Amelie McCann, irmã da menina desaparecida, através das redes sociais, dizendo ser a sua “única esperança“.
Foi também revelado que Wandelt utilizou a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT para criar fotografias falsas que enviou a Amelie nas quais apareciam as duas como crianças. Segundo a acusação, estas fotografias pretendiam provar uma ligação familiar.
A acusação argumentou, também, que, em 2023, Wandelt contactou uma fundação polaca de apoio a casos de desaparecimentos históricos, primeiro dizendo ser Inga Gehricke e depois Acacia Bishop, antes de insistir ser Madeleine McCann. Chegou mesmo a tentar telefonar ao hospital onde Kate e Gerry trabalhavam, numa chamada de 20 minutos que levou o departamento de comunicações da instituição a alertar a equipa britânica que investiga o desaparecimento de Maddie McCann.
Em mensagens posteriores, Wandelt afirmava recordar momentos da vida familiar, dizendo que se lembra de “alimentar Sean”, o irmão mais novo de Maddie, de “brincar às rodas” no jardim de Rothley e até da “noite do rapto”. Numa das mensagens dirigidas a Kate McCann, chegou a escrever: “Lembro-me de vires ao meu quarto antes do rapto, de me fazeres uma festa na cabeça e dizeres ‘amo-te e vou encontrar-te'”.
Por fim, o procurador recordou que o desaparecimento de Madeleine McCann “continua a ser um dos casos de crianças desaparecidas mais mediáticos e dolorosos do mundo”, sublinhando que a atenção pública constante foi “um dos muitos trágicos efeitos colaterais para Kate e Gerry McCann”. “A exposição pública que se seguiu a esta tragédia nunca foi algo de que pudessem escapar. E nem toda essa atenção foi compassiva. Pelo contrário, houve quem perpetuasse teorias da conspiração. Infelizmente, estas duas arguidas pertencem a esse grupo”, concluiu Duck.