Pelo menos uma pessoa morreu e mais de 100 ficaram feridas durante confrontos ocorridos nas manifestações de quarta-feira organizadas por jovens em várias cidades do Peru.
Segundo a agência espanhola EFE, a vítima mortal não resistiu a um ferimento provocado pelo disparo de uma arma de fogo, durante a manifestação de decorria em Lima. De acordo com as autoridades peruanas, mais de uma centena de pessoas ficaram feridas, entre as quais, 78 polícias e 24 manifestantes, em vários pontos do país. Pelo menos 10 pessoas foram detidas.
Esta quarta-feira, milhares de pessoas, sobretudo jovens, em várias cidades do Peru, manifestaram-se contra o governo e o Parlamento num protesto contra a corrupção e o aumento da insegurança e do crime organizado.
Os manifestantes contestaram também a tomada de posse do presidente do Parlamento, José Jerí, ao cargo de chefe de Estado interino, após a destituição da Presidente Dina Boluarte ocorrida na semana passada.
O novo ministro do Interior (correspondente à Administração Interna), Vicente Tiburcio, lamentou a morte do manifestante e indicou que ordenou uma investigação, acrescentando que a força policial destacada para o protesto não se encontrava na zona de Lima onde o jovem morreu.
“Algumas pessoas disfarçaram-se com capacetes e cobriram-se, carregando mochilas e objetos contundentes”, acrescentou o ministro. Tiburcio é membro do governo de transição nomeado na quarta-feira pelo Presidente interino.
A constituição do Executivo inclui figuras consideradas controversas aumentando o descontentamento público. De acordo com os manifestantes, o Governo interino é a continuação do Executivo da ex-Presidente Dina Boluarte.
Protestos causaram vários bloqueios em Lima e em outras cidades
Esta quarta-feira, os jovens começaram a marchar de diferentes pontos da capital em direção ao centro histórico para se reunirem na Praça San Martín e seguirem em direção à sede do Congresso, fortemente vigiada por centenas de polícias.
Em várias partes de Lima, a mobilização dos manifestantes causou bloqueios de estradas e os transportes públicos foram temporariamente suspensos, disse a Autoridade de Transportes Urbanos de Lima e Callao nas redes sociais.
Os manifestantes transportavam bandeiras e cartazes a rejeitar o Congresso e Jerí, de 38 anos, que assumiu o cargo em 10 de outubro, após o parlamento peruano destituir Dina Boluarte.
Os participantes na marcha lembraram as denúncias de alegados abusos sexuais cometidos por Jerí e denunciaram medidas aprovadas por Boluarte, como iniciativas que podem favorecer grupos criminosos e a reforma do sistema privado de pensões.
Noutras cidades do país, como Huancayo, nos Andes, os manifestantes marcharam com cartazes a pedir a dissolução do Congresso, chamando “violador” a Jerí e declarando: “Este Governo não me representa”.
Em Lima, os manifestantes criticaram os partidos com presença parlamentar por terem apoiado Boluarte, apesar de denúncias apresentadas contra a governante após mortes nos protestos de 2022 e 2023, bem como alegadas acusações de corrupção.
Polícia tentou dispersar manifestantes com gás lacrimogéneo
A Polícia Nacional do Peru usou gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes que chegaram junto ao Congresso, tentaram derrubar vedações de segurança e atearam fogo perto de centenas de agentes da polícia.
Confrontos ocorreram também em Arequipa, no sul, entre polícias e manifestantes que tentavam entrar na praça principal da cidade, que acolhe o 10.º Congresso Internacional da Língua Espanhola, com a participação do rei Felipe VI de Espanha.
Boluarte, a primeira mulher a liderar o país andino, foi destituída pelo Congresso por “incapacidade moral permanente”, após uma série de protestos sociais e a perda de apoio dos partidos de direita. A destituição foi aprovada com 122 votos a favor, 16 contra e quatro abstenções, de acordo com o relatório parlamentar.
Jerí era presidente do parlamento há poucos meses, depois de ter chegado ao órgão legislativo como deputado suplente nas eleições de 2021, em substituição do ex-presidente Martín Vizcarra (2018-2020), que tinha sido o deputado mais votado, mas não pôde assumir o lugar por ter sido desqualificado pelo parlamento.
A destituição de Boluarte gerou várias reações na comunidade internacional, nomeadamente da Organização dos Estados Americanos, que expressou preocupação com a crise institucional no Peru e apelou ao respeito pelo Estado de Direito e à manutenção da estabilidade democrática.