A fila estava ligeiramente maior às 8h15 do que se tinha visto há duas semanas, Fernando não quis esperar. Ou melhor, assumiu esperar mas saber que teria uma hora mais ou menos certa para sair e aproveitar o resto do fim de semana, já com dever cumprido e ainda com os ponteiros do relógio a marcar 8h32. Para isso, este associado do Benfica foi o primeiro a chegar à zona final de barreiras no Pavilhão da Luz, naquela espécie de gincana final até entrar pelo Pavilhão número 2 e sair pelo Pavilhão número 1. Não quis dizer em quem iria votar, sempre adiantou que “na primeira volta foi num e agora teria de ser no outro” como quem diz “na primeira volta foi Vieira e agora teria de ser Rui Costa”. Era por Fernando que começava mais um dia para a história, a história de um clube que se faz de títulos – mesmo que esse título não traga um troféu.
Eleições Benfica. Urnas fecharam com recorde, votos já estão a ser contados
O caminho a partir do túnel do lado do Colombo era mais largo do que há duas semanas, também porque à noite não haveria jogo na Luz como aconteceu no dia do Benfica-Arouca, a cadência de pessoas a entrar nos Pavilhões também aumentou em relação à primeira volta nessas primeiras horas. O que mudava? A fila antes do Museu era menor, sem que isso mudasse a média de 220/225 sócios por cada cinco minutos a entrar no Pavilhão, os números iniciais divulgados que duplicavam às 10h (15.766) o que tinha acontecido há duas semanas reforçavam essa ideia de que era mesmo possível bater os mais de 86 mil votantes. E para que nada faltasse, além da rapidez de processos que começava na Luz e era transversal a todas as secções de voto (a Quinta do Conde foi a única a fazer mais fila mas o problema foi resolvido), todos os sócios com mais de 65 anos podiam entrar pela porta 2, tendo mesmo transporte num carro de golfe em caso de necessidade.
César Boaventura foi uma das primeiras figuras a passar pelo Pavilhão da Luz ainda bem cedo, seguindo-se outras como Ana Garcia Martins, Pedro Ribeiro, Daniel Leitão ou Ricardo Araújo Pereira, que não falou na zona onde estavam concentrados os jornalistas mas que acabou depois por ter algumas palavras quando ia deixando a zona da Luz. “Não escondi a minha inclinação de voto, hoje é o dia de eleições, há de novo uma grande afluências urnas… Mas o que dizer… Não sei se sabe mas nos últimos 12 jogos… Não são dois, são 12 jogos o Benfica em casa ganhou um na Liga dos Campeões, nos últimos seis anos ganhou um Campeonato, nos últimos 25 anos ganhou três Taças de Portugal… O Benfica não foi criado para isto, para este tipo de palmarés, e apostar no mesmo modelo e esperar um resultado diferente é aquela definição do Einstein sobre insanidade…”, comentou o humorista à CMTV ainda na primeira hora de votação.
Nessa altura, nenhum dos candidatos tinha ainda votado mas o primeiro “caso” do dia, aquele que acabaria por marcar todas as longas horas até começarem a ser contados os votos, já começava a ganhar tração. Em resumo, a lista F de João Noronha Lopes apresentou uma queixa junto da Mesa porque a lista G, neste caso o próprio Rui Costa, tinha enviado uma mensagem por vídeo para todos os presidentes das Casas a justificar o porquê de não ter visitado tantos pontos quanto queria ao longo do mandato e a apelar ao voto… em si. Com um acrescento: a lista F utilizava o exemplo que tinha acontecido há duas semanas, quando o Benfica fez uma queixa por vários sócios terem sido contactos por telefone ou por email quando a candidatura de Noronha Lopes alegava ser uma base de dados de apoiantes e não de sócios, dizendo que isto tinha sido mais grave.
“Caro presidente,
Em primeiro lugar gostava de reforçar aquilo que eu próprio e que a minha candidatura tem transmitido. Em nenhuma circunstância as minhas funções enquanto presidente ficaram para trás ou foram adiadas pela minha agenda como candidato. Vencer a Supertaça, garantir o acesso à Liga dos Campeões e tratar do mercado de transferências do futebol e das modalidades para ficarmos com plantéis mais aptos para ganhar. Essa foi a minha prioridade. Com isso, iniciámos a campanha mais tarde. Gostaria de ter mais tempo para visitar cada uma das Casas e estar com gentes locais. Daí querer transmitir este lamento (…)
Como sabem e sentem, este não foi um mandato fácil. Queremos acrescentar muito mais às seis Casas que abrimos. Neste mandato, estarei mais presente. Precisamos organizar o Congresso das Casas já em março, instalar em rede a ligação das Casas do Benfica que foi testada com enorme sucesso. Iremos apresentar a renovação da imagem das Casas do Benfica e avançar com novas medidas de apoio do clube e dos nossos parceiros (…) Temos um longo caminho pela frente. Contem comigo para ajudar no dia a dia de cada uma das Casas a partir de dia 8 de novembro. Até lá, é tempo de nova mobilização, de uma nova ambição (…)
O Benfica é sempre maior do que qualquer circunstância. Pela sua história, pela sua força, pelo nosso potencial desportivo e como instituição. O que está em causa é o futuro do clube que amamos. Quando o Benfica chama, nós respondemos sempre. No dia 8 de novembro, votem lista G, de ganhar, de Glorioso. Porque Só o Benfica Importa, vivam as Casas do Benfica, viva o Sport Lisboa e Benfica.”
“Nas primeiras horas da madrugada de hoje a candidatura encabeçada pelo presidente Rui Costa enviou aos presidentes das Casas do Benfica uma mensagem com teor claramente de propaganda eleitoral. Foi com estupefação que vimos isso, porque nem há 24 horas o presidente da Mesa fez apelo às duas listas pedindo que se abstivessem de fazer comunicados desse género e nem 24 horas depois, a lista G, que é a lista do presidente da Mesa, viola esse pedido de forma que não estávamos à espera. Recordo que há duas semanas se rasgaram as vestes por causa de uma comunicação que foi dirigida a sócios que subscreveram essa comunicação. Hoje isto não acontece. Foram enviadas aos presidentes das Casas do Benfica que, relembro, têm papel importante a cumprir no dia de hoje. O ato eleitoral decorre nas Casas do Benfica, que são lideradas pelos seus presidentes, que lideram a secção de voto em alguns casos. Enviar uma mensagem no dia da eleições a pessoas que estão a cumprir a integridade do ato eleitoral é particularmente grave”, explicaria mais tarde João Marecos, candidato a vice da Assembleia Geral de João Noronha Lopes.
“Mensagem enviada antes? A indicação que temos é que essa mensagem foi recebida durante a madrugada. Os presidentes das Casas do Benfica, apesar de poderem legitimamente apoiar candidatos, têm um papel a cumprir de garante da integridade das eleições. Conhecem os sócios que frequentam as Casas, estão numa posição invejável para apelar ao voto. Ficaria muito surpreendido que o Benfica, que há duas semanas promoveu queixas relativamente à nossa campanha, não mantivesse a mesma bitola perante algo que consideramos muito mais grave. Se o Benfica não der nenhuma explicação fica demonstrado que há um critério para uma lista diferente da outra lista. Isto ilustra o que estamos a dizer há muito tempo: a montanha que é preciso escalar para ganhar umas eleições a um incumbente do Benfica é muito alta, espinhosa e difícil. O assunto não nasce por ter sido enviado esta madrugada mas sim ao destinatário dos vídeos. Foram enviados para quem tem de manter a integridade do ato eleitoral”, frisou.
“Face às especulações e ao desadequado ruído gerado sobre a mensagem enviada pelo candidato Rui Costa aos presidentes das Casas do Benfica, num dia que está a ser mais um enorme exemplo de benfiquismo, a candidatura ‘Só o Benfica importa’ esclarece: 1) o vídeo do candidato Rui Costa enviado aos presidentes das Casas do Benfica é um conteúdo de campanha eleitoral, como se poderá comprovar pela semelhança de cenário com o vídeo do último apelo ao voto dos sócios realizado pela candidatura; 2) o vídeo do candidato foi enviado durante o período oficial de campanha eleitoral (quinta e sexta-feira até às 24 horas); 3) o vídeo do candidato foi enviado de um número de telemóvel da candidatura para contactos que são conhecidos de quem vive o Benfica, não tendo suporte em nenhuma base de dados”, respondeu a lista G, numa ideia que ao final de manhã foi confirmada ao Observador por elementos de duas Casas do clube.
“Houve quem fizesse contactos telefónicos, o candidato Rui Costa enviou um vídeo de campanha, em que fala do que foi feito e do que pretende fazer, se merecer a confiança dos sócios do clube. Não há confusão nenhuma, aliás nunca houve. O importante, hoje como sempre, é que os sócios participem, como estão a fazer de forma empenhada para bater de novo recordes de participação num clube desportivo. É um orgulho registar a normalidade da votação dos benfiquistas numa enorme organização, em que votar nas mesas de voto espalhadas pelo país e pelo mundo está a ser mais fácil e fluído”, acrescentou o comunicado.
Antes de tudo isso, os candidatos já tinham passado pela Luz. Rui Costa votou já depois das 9h30, surgindo de novo acompanhado pela família, João Noronha Lopes exerceu o seu direito mais perto da hora de almoço, também com a família ao lado. Nenhum quis falar sobre o “caso”, ambos voltaram a apelar ao voto e a uma necessidade de unir a família benfiquista qualquer que fosse o vencedor. Entre um e outro, o antigo líder Manuel Damásio e o ex-capitão Álvaro Magalhães foram aqueles que mais se posicionaram em termos de voto entre outras figuras que foram passando como Shéu, Bruno Batista, Abel Xavier, Braz Frade, António Figueiredo, Rui Gomes da Silva, Nuno Gomes, José Eduardo Moniz ou João Moreira Rato. Ainda na parte da manhã, Cristóvão Carvalho foi o primeiro dos quatro candidatos derrotados no dia 25 a votar.
Martim Mayer e João Diogo Manteigas passariam também pela Luz à tarde tal como Luís Filipe Vieira, que ao contrário do que aconteceu na primeira volta não foi ao Seixal mas sim ao Pavilhão número 1 numa fase em que a cadência de votantes voltava a aumentar depois de uma quebra durante a hora de almoço. “Toda a gente deve saber em quem vou votar, não vale a pena estar a dizer. O meu diretor de campanha disse que votava no Rui Costa? Problema dele, não meu… Ele é que sabe o que diz. O Benfica agora deve unir-se à volta do presidente. Precisamos é de ganhar rapidamente a ver se nos unimos todos. Acho que o presidente da Mesa da Assembleia Geral vai ter uma importância muito grande nas futuras Assembleias Gerais. O presidente vai ser eleito para os próximos quatro anos, não é para amanhã estarem a fazer a campanha ao contrário… Falar com Rui Costa? Há sempre um timing para fazer as coisas. Se admito essa possibilidade? Admito. Voltar a ir a votos? Só Deus sabe, não sou eu…”, comentou o antigo líder.
Entretanto, o ato continuava sem grandes incidências a não ser a queixa da lista F contra Rui Costa. Houve alguns casos mais pontuais de dúvidas, um deles protagonizado por Margarida Prieto, mulher do ex-líder Manuel Damásio que votou mesmo não tendo consigo um cartão de identificação. “Todos os sócios votaram com o cartão de sócio. Há um grupo muito restrito que apareceu com a fotografia do cartão de cidadão legível no telemóvel. E três ou quatro sócios votaram nessas condições, porque não conseguiram ir buscar. Já nenhum sócio votará sem isso. A questão está resolvida”, assumiu a esse propósito José Pereira da Costa.
Caras conhecidas, dois candidatos e a vontade de bater um recorde: as imagens da votação na Luz
O presidente da Mesa da Assembleia Geral voltou a fazer atualizações de duas em duas horas, numa romaria que voltou a ter vários pontos em comum com o que tinha acontecido há duas semanas incluindo o sócio que veio vestido como a célebre figura do Super Mario (que agora além de jogo também deu filme), muitos outros com camisolas e cachecóis do Benfica e três cães que acompanharam os donos até à entrada do Pavilhão, um deles um labrador castanho claro com um cachecol dos encarnados ao pescoço que não passava ao lado de ninguém que se cruzasse com ele a caminho da entrada. Entretanto, foram também chegando ao Pavilhão as máquinas de contar notas, uma das medidas tomadas para acelerar a contagem dos votos à noite.
Tudo tinha sido preparado para um número que pudesse aproximar-se ou superar mesmo os mais de 86.000 votantes do passado dia 25 de outubro e a cadência por hora apontava nesse sentido. De forma natural, o tal recorde mundial do Guinness que não tinha sido homologado na anterior corrida porque não elegeu nenhum presidente estava batido às 16h, quando os 57.088 do Barcelona em 2010 com Sandro Rosell foram batidos, sendo que por volta das 19h esse registo da primeira volta estava superado. E apesar de ter havido uma imagem a circular de um sócio que votava com uma t-shirt que dizia “Que se f*** o Guinness, eu quero é o Benfica a ganhar” enquanto colocava os quatro boletins na urna (vermelho para a Direção, rosa para a Mesa da Assembleia Geral, amarelo para o Conselho Fiscal e creme para a Comissão de Remunerações), essa foi a primeira “vitória”: 93.081 votantes depois dos 85.710 da primeira volta. Só faltava saber o vencedor – ou, neste caso, aquele que será o eleito para colocar “o Benfica a ganhar” depois do recorde do Guinness.