A Agenda Nacional da Inteligência Artificial (IA), que já teve diversos prazos ao longo de 2025, continua a estar nos planos do Governo para este ano. Foi pelo menos essa a informação que Gonçalo Matias, ministro da Reforma do Estado, avançou aos jornalistas à margem do discurso na Web Summit. A cimeira tecnológica arrancou esta segunda-feira em Lisboa e coube a Gonçalo Matias substituir Luís Montenegro na cerimónia de abertura. O primeiro-ministro está nestes dias numa cimeira na Colômbia.

No palco da Web Summit, Gonçalo Matias declarou que a estratégia será apresentada “nas próximas semanas”. A apresentação “será ainda este ano”, concretizou o ministro, sem mais detalhes. Questionado sobre se há algum atraso na apresentação, depois de duas ocasiões em que a apresentação foi prometida para “muito em em breve”, Gonçalo Matias justifica com a “complexidade”.

“Não há nenhum atraso, é uma estratégia que tem complexidade, que tem que ter em conta que a IA muda todos os dias. Há procura todos os dias por novas realidades, os GPU [unidades de processamento gráfico] mudam todos os dias. Estamos em contacto com o melhor que se faz no mundo para garantir que esta agenda vai estar ao nível do que Portugal quer ser: que é um dos países na Europa líder na digitalização”, explicou após o discurso na cerimónia de abertura.

A 14 de outubro, no final da audição na comissão de Reforma do Estado e Poder no parlamento, Bernardo Correia, secretário de Estado para a Digitalização, declarou que a Agenda seria lançada “muito em breve”. Na altura, não concretizou uma data para a apresentação, mas admitiu que “há uma altura muito importante para lançamentos no digital”. Questionado pelos jornalistas sobre se poderia ser na Web Summit, respondeu apenas com um “vamos ver”. Já na semana passada, na audição no âmbito da proposta do Orçamento do Estado, o secretário de Estado afirmou que a agenda estava a ser “finalizada”, prometendo outra vez um “anúncio para muito em breve”.

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A apresentação da agenda chegou a estar prometida para o primeiro trimestre de 2025, mas o prazo resvalou devido às eleições legislativas. Ao longo dos meses, o Governo passou a apontar a apresentação para o quarto trimestre de 2025. Só recentemente é que o discurso passou a ser pautado por “muito em breve”.

A Agenda Nacional de IA é vista como um “passo decisivo para a criação de um ecossistema robusto e inovador de inteligência artificial em Portugal”, declarou o Governo na página dedicada ao tema. Divide-se em três eixos de atuação: inovação, talento e infraestrutura.

Estratégia Nacional para os Data Centers “pronta” entre “final do ano e início do próximo ano”

No parlamento, Gonçalo Matias revelou na semana passada que o Governo está a trabalhar noutra estratégia nacional, esta dedicada aos centros de dados. “Estamos também a trabalhar nela, contamos entre o final do ano e o início do próximo ter essa estratégia pronta.”

“Posso dizer e adiantar que nós neste momento temos um interesse enorme de grandes investidores internacionais, de fabricantes de chips, das maiores tecnológicas mundiais nos centros de dados e, mais do que nos data centers, nas chamadas Gigafactory de Inteligência Artificial, que são data centers com alto valor acrescentado, que produzem IA”. Uma afirmação que já tinha feito no parlamento, falando no “interesse” de players estrangeiros.

“Temos os maiores operadores do mundo interessados em Portugal neste momento”, repetiu, usando argumentos já proferidos no discurso, como “os  cabos submarinos com a interconexão aos vários continentes”.

“Portugal oferece condições únicas e portanto estamos neste momento a pensar numa estratégia integrada, num Hub de Gigafactories de Inteligência Artificial e de Data Centers que possam tornar Portugal um dos países mais desenvolvidos do mundo e um dos países, deste ponto de vista tecnológico, um dos países que atrai o melhor que há na tecnologia mundial.”

Em relação ao tema dos GPU, os ‘chips’ que são alvo de elevada procura já que permitem o desenvolvimento e treino de modelos de IA, Gonçalo Matias refere que o “Governo português tem estado a apoiar os vários projetos, as várias empresas”. “Temos uma candidatura para uma gigafactory de IA e Portugal tem estado a acompanhar muito de perto esta realidade”, referindo que a candidatura única de Portugal “já está a ser formalizada”.

A guerra contra a burocracia, “que em parte, justifica o aumento dos preços da habitação”

Em Lisboa desde 2016, a Web Summit há muito que é vista como uma “montra” para atrair talento (e investimento). Questionado sobre a saída de jovens do país, o ministro declarou que “é muito importante atrair os jovens de regresso a Portugal”, argumentando que a “saída dos jovens tem três explicações: burocracia, salários e habitação”. “A verdade é que a guerra à burocracia resolve os três.”

“Por um lado, simplificar a vida às pessoas, simplificar a vida às empresas, tornar mais fácil a vida de quem vive em Portugal — e os jovens são os primeiros a sentir isso. Em segundo lugar, habitação: é a burocracia que, em parte, justifica o aumento dos preços da habitação.”

O ministro argumentou que Portugal construiu “muito menos na última década”, explicando que uma “boa razão para isso tem a ver com a demora que há no procedimento de licenciamento, com a complexidade que têm os procedimentos de licenciamento”.

Na última esfera, a dos salários, afirmou que “os melhores salários só se pagam com mais empresas, com mais investimento, com melhor ambiente de negócio.” Declarou que, “com a guerra à burocracia”, o Executivo “está a criar condições para mais investimento nacional, mais investimento estrangeiro, mais empresas”.

Num evento como a Web Summit, o ministro referiu que há “investidores de todo o mundo dispostos a trazer investimento para Portugal”. “Tenho falado com muitos deles e a pergunta é ‘como ultrapassamos esta burocracia’. E estamos cá nós para simplificar a vida”, concluiu.