“A decisão do meu pai, tal como a do meu irmão e a minha, foi inequivocamente a de vender, pois todos percebemos que esta é uma oportunidade única para pôr a Frulact no próximo patamar”. Foi assim que, em 2020, João Miranda, até então presidente executivo da Frulact, explicava ao Jornal de Negócios a venda da empresa fundada pelo seu pai em 1987 ao fundo de investimento francês Adrian. O valor do negócio nunca foi confirmado. Falou-se em 200 milhões de euros (com dívida), mas João Miranda, nessa mesma entrevista, negou-o.
Cinco anos após essa operação que entregou o grupo maiato em outras mãos a Frulact volta a ser protagonista de um negócio milionário. Os franceses da Adrian venderam a empresa aos italianos da Nexture, que está no mercado onde a companhia portuguesa atua, de ingredientes para a indústria alimentar. A Frulact é conhecida pelos ingredientes de fruta nomeadamente para a indústria de lacticínios. Hoje em dia a empresa está no negócio designado de sistemas alimentares como “nos aromas líquidos especializados e nos ingredientes especiais à base de plantas para produtos lácteos, gelados, sobremesas, bebidas, entre outras utilizações”.
A Nexture e a Adrian já confirmaram, em comunicados respetivos, o negócio, não indicando o valor. O jornal espanhol Expansión indica que a operação avaliou a Frulact em 600 milhões de euros. O valor não foi confirmado por nenhuma das partes, ambas contactadas pelo Observador. A empresa holding adquirida, Oferta Genuína (segundo o comunicado da Nexture), registou, no exercício de 2024, um ativo total de 239 milhões de euros, segundo dados compilados pela Insight View.
A Nexture integra a capital de risco Investindustrial, ligada à família italiana Bonomi, conhecida pela batalha que travou com a Fosun para a compra do Club Med em 2015. E três anos antes investiu na Aston Martin, marca de carros que nos filmes de James Bond apareciam como o seu automóvel de eleição. Andrea Bonomi, hoje com 60 anos e ele próprio apelidado de James Bond italiano, vendeu a participação na Aston Martin em 2020, quando a família do piloto de Fórmula 1 Lance Stroll entrou em grande na empresa. Bonomi esteve, ainda, ligado à revitalização da companhia de motos Ducati e à Banca Popolare de Milano.
Agora fica com a Frulact. “Tudo começou em 1987. A Frulact era apenas um sonho até que o conhecimento, a experiência e a paixão por produtos lácteos do nosso fundador, Arménio Miranda, juntamente com a visão e o espírito empreendedor dos seus dois filhos, Francisco e João, transformaram-no em realidade”. É assim que a empresa portuguesa começa a contar, no site, a sua história. Uma história que levou à primeira venda em 2020. João Miranda que foi o CEO mais mediático da Frulact dizia também ao Negócios, em 2020, que “a Frulact nunca esteve à venda. A primeira proposta que recebemos para compra da Frulact foi em 1998, faturávamos pouco mais de cinco milhões de euros. Desde aí, as propostas têm surgido praticamente todos os anos, e sempre declinámos”. Até que nesse ano foi decidido aceitar uma proposta.
“Os projetos têm momentos que devem ser ultrapassados de forma consistente, sob pena de não resistirem. A determinado momento da vida da Frulact, entendemos que deveríamos projetar a Frulact no mundo, e essa era a única hipótese que tínhamos de lhe dar perenidade. Foi aí necessário ultrapassar o chamado ‘síndrome de Peter Pan’, e penso que o fizemos muito bem”, explicou João Miranda a estratégia de internacional, que depois da venda ainda se manteve como presidente do conselho de administração mas que, passado um ano, saiu.
A Frulact tem sede na Maia e opera 11 unidades fabris e nove centros de investigação e desenvolvimento. Na Europa está em Portugal, França, Suíça e Alemanha; em África em Marrocos e África do Sul; na América do Norte no Canadá e EUA, mas vende para mais de 50 países. Tem mais de 850 colaboradores e gera receitas de cerca 265 milhões de euros. Em comunicado, a Adrian indica que sob sua gestão o grupo “expandiu-se de forma significativa, através da combinação entre crescimento orgânico e inorgânico, estando no top 3 dos principais players no mercado de soluções para o Sistema Alimentar com uma presença transatlântica”. Neste período, a Frulact “concluiu duas aquisições na Europa e nos EUA, e expandiu a sua capacidade de produção nas duas regiões, incluindo a inauguração de uma nova instalação de última geração nos Estados Unidos. Isso permitiu à empresa multiplicar por aproximadamente 2,5 vezes as suas receitas”.
A transação está ainda dependente de aprovações regulatórias em vários países, pelo que se aponta para a sua conclusão no primeiro trimestre de 2026.
Em comunicado, a Nexture garante que a equipa de gestão da Frulact, liderada por Dinorah Mandic, será mantida.
A Nexture acredita que esta aquisição é “outro marco na sua estratégia ambiciosa de comprar-e-construir”. Desde que a Investindustrial entrou na Nexture, esta empresa evoluiu para um grupo multinacional com receitas de 1,1 mil milhões de euros, já incluindo o valor da Frulact. Tem 2.700 empregados.
Segundo o jornal Expansíon, a Nexture bateu, na corrida pela Frulact, o grupo português José de Mello — que não quis comentar o desfecho — e a gestora escandinava IK Partners. A DCP Capital também mostrou interesse, mas não chegou a fazer oferta.