O trânsito lisboeta alterou os planos da cerimónia de abertura da Web Summit. Depois dos discursos iniciais da praxe, o primeiro cabeça de cartaz a subir ao palco deveria ter sido Khaby Lame, o Tiktoker mais popular do mundo. Mas um dos oradores do painel não conseguiu chegar a horas e foi Maria Sharapova, antiga tenista russa apresentada na cimeira tecnológica como “lenda do ténis” (e empresária, CEO, investidora, autora de bestsellers do New York Times, etc), que fez as honras. “Esta sala é incrível, a última vez que vi uma multidão deste tamanho foi no Open dos EUA. Foi talvez também a última vez que estive tão nervosa”, disse a tenista.
A desportista russa participou numa conversa com Sarah Meron, responsável de assuntos corporativos da IBM, e com a CEO da Time, Jessica Sibley, sobre como a tecnologia, nomeadamente a inteligência artificial (IA), está a contribuir para a evolução da indústria do desporto e a melhorar o desempenho dos atletas.
Numa sessão que arrancou com um vídeo comercial da IBM, Maria Sharapova falou sobre como a IA está a mudar a forma como os atletas se preparam para os jogos e como recuperam do esforço. “Deixei o desporto há cinco anos, e tem sido incrível ver essa transição. Lembro-me de como passava horas com o meu treinador, e de como ele perdia horas a ver vídeos para fazer uma compilação de dois minutos dos adversários para eu ver antes dos jogos. Hoje é possível fazer isso em minutos. Também é possível criar padrões preditivos com base nas estatísticas” dos movimentos dos jogadores ou “aprender como é que o corpo recupera através de modelos de IA”, detalhou a antiga estrela do ténis.
▲ A antiga tenista Maria Sharapova na Web Summit
Sportsfile
Para Sharapova, o mais “entusiasmante” na tecnologia será a possibilidade de “prolongar a carreira dos atletas” e torná-los mais “eficientes”. Na conversa com a responsável da IBM, a antiga número um do ténis mundial falou ainda sobre como a IA aproxima os fãs dos atletas. “Quanto maior é o conhecimento que um fã tem sobre um atleta, melhor é para o atleta. Porque continuam a beber a sua cerveja e a passar tempo com os amigos, mas percebem o jogo e sabem o que estão a ver, têm mais conhecimento, o que faz com que o jogo tenha mais qualidade”, defendeu. Na mesma sessão, Sarah Meron, da IBM, revelou que a gigante tecnológica está à procura de startups na área do desporto para participarem numa competição, e que o vencedor será anunciado no próximo ano, também na Web Summit, em Lisboa.
“Pensavam que eu não falava, mas aqui estou”
“O novo negócio da criatividade” foi o mote para a conversa entre o influenciador e criador de conteúdos Khaby Lame e o responsável global de produtos de consumo da Visa, Mark Nelsen. A sessão surge a propósito de a Visa considerar, desde o ano passado, que os criadores de conteúdos gerem pequenos negócios, e que passado um ano a “economia dos criadores” continua a acelerar, com a IA a oferecer “novas possibilidades”.
Lame, nascido no Senegal e naturalizado italiano, construiu um império de 161 milhões de seguidores no TikTok sem nunca abrir a boca e com um característico encolher de ombros. Após os aplausos de receção, o tiktoker que foi descrito como o “Charlie Chaplin da nova geração” brincou com o facto de estar sempre em silêncio. “Olá a todos, não estou habituado a falar à frente de tanta gente. Na verdade nem falo”, gracejou. “Pensavam que eu não falava, mas aqui estou”, arrancando mais algumas gargalhadas à plateia da Web Summit.
▲ Khaby Lame, o criador de conteúdos e influenciador mais popular do Tik Tok
Sportsfile
Deixou conselhos e, num palco onde as palavras ‘inteligência artificial’ são usadas com frequência, pediu autenticidade. “A IA não é tudo neste mundo”, admitiu. “É altura para os criadores fazerem conteúdos originais, porque as pessoas não querem só ver IA” nas redes sociais. “A IA está a encobrir muito as redes sociais, às vezes nem sequer sei distinguir o que é real de IA.”
Mas, em muitas das questões, Lame preferiu recorrer às expressões que o tornaram famoso na internet para evitar temas complexos. Por exemplo, sobre como é que lidou com a detenção feita em junho pelos serviços de imigração dos EUA (ICE), por ter excedido o tempo de permanência em território norte-americano. “Estou muito bem. (…) Viajo muito, vim da Arábia Saudita”, respondeu apenas.
Também evitou responder a questões sobre como é que prevê que seja o futuro para os criadores de conteúdo online. “O futuro é de alguma forma brilhante para toda a gente”, começou por dizer, rematando que “depende de vocês”. “Toda a gente tem a sua vida, toda a gente comete erros, isso é normal.”
Aos 25 anos, o criador de conteúdos já fechou contratos com a Hugo Boss e até tem direito a uma skin no popular jogo Fortnite. No palco da Web Summit, aproveitou a oportunidade para revelar que está “a trabalhar num novo filme”. “Mas não posso falar muito. Vai sair em breve, espero ver toda a gente no cinema.”
Lovable e os 99% que não sabem programar. “É um movimento”
Para o final da noite de abertura ficou guardada a apresentação de Anton Osika, CEO e fundador da Lovable, a startup que ganhou o estatuto de ‘unicórnio’ (avaliada em mil milhões de dólares) em apenas oito meses e chega à Web Summit como a tecnológica que mais rapidamente está a crescer em todo o mundo. A Lovable é uma plataforma de inteligência artificial (IA) que cria sites e aplicações, bastando para tal dar-lhe instruções em linguagem natural, sem a necessidade de usar código. Osika diz que quer tornar 99% da população do planeta em “programadores”.
▲ Anton Osika, CEO e fundador da Lovable
Sportsfile
No palco da Web Summit, o executivo explicou que, inicialmente, a ideia da empresa passava por quem já sabia programar. Mas, pouco depois, o ex-físico do CERN percebeu onde estava o seu mercado. Decidiu “focar-se nas pessoas que querem muito criar alguma coisa, os fundadores — pessoas que querem avançar depressa.”
Para Osika, a Lovable tem beneficiado “do passa a palavra”, acrescentando que “é mais do que um produto, é um movimento, uma comunidade”. O líder da startup sueca, que em agosto atingiu uma avaliação de quatro mil milhões de dólares, afastou incómodos ou rivalidades com empresas como a OpenAI ou a Anthropic, que também têm opções para escrita de código e desenvolvimento. “Focamo-nos em construir o produto mais intuitivo para humanos. Temos uma visão a longo prazo para perceber como é que o software vai ser no futuro”, explicando que a empresa quer “falar com os utilizadores para resolver problemas da melhor maneira.”
O bê-á-bá para não perder o norte na décima edição da Web Summit em Lisboa