Nos anos 90, era relativamente fácil topar um blockbuster incontornável, daqueles que iriam marcar o zeitgeist. Tinha quase sempre o nome de um realizador conhecido em destaque no cartaz; um naipe de atores jovens, mas já populares qb; um guião a tender para o inspirador com algumas frases facilmente citáveis; uma história de ação à superfície que pode ser uma metáfora para as angústias humanas se quisermos escavar mais um bocadinho. Em pleno 2025, altura em que as salas de cinema estão quase sempre às moscas (com a exceção de filmes de desenhos animados, nem sempre feitos com brio) e as plataformas de streaming já se assumiram como ruído de fundo enquanto mexemos no telemóvel, há um tipo de filmes que se perderam. Para sempre? Bom, não no que depender de Guillermo del Toro, o homem que há muitos anos queria dar o seu cunho a uma personagem pelo qual é obcecado desde a infância: Frankenstein.
Dizer que Frankenstein parece um filme dos anos 90, numa quase ode aos filmes que monopolizavam aquele cartaz do Fora de Casa que dava na RTP ao som de Dire Straits, está longe de ser uma crítica negativa: é talvez, até, o melhor elogio que se pode fazer à adaptação do livro de Mary Shelley que recentemente chegou à Netflix. É cinema à antiga e é uma pena que não o estejamos a ver em sala. É um labour of love do seu criador (palavra com várias camadas neste contexto), que é imperfeito, muitas vezes exagerado. Mas tal como Victor conseguiu trazer uma nova vida a uma amalgama de cadáveres, também Del Toro tenta trazer uma nova vida ao cinema. Não é cem por cento bem-sucedido, mas não se pode também considerar que falhe.
[o trailer de “Frankenstein”:]
Guillermo del Toro tem tantos fãs como detratores. Veja-se A Forma da Água, de 2018, que lhe garantiu o Óscar de Melhor Filme e também de Melhor Realizador, que está longe de ser unânime e que só não é um dos vencedores mais esquecíveis dos últimos anos porque a Academia tem colecionado tiros ao lado. Daí chegarmos a Frankenstein com um pé atrás — uma história já muitas vezes contada pela lente de um realizador que já nos mostrou todo o género de monstros e criaturas. E o que convence é a obsessão pelos detalhes, pela técnica e pela habilidade. Cenários construídos de raiz (como o laboratório ou o barco, evitando CGI quando possível), realização cuidada, guarda roupa e direção de arte impecáveis, aos quais se junta uma história bem contada e atores que não vieram só picar o ponto e ver se há rissóis no catering. Se isto resultou para clássicos da nossa infância, porque é que não há de resultar agora?
Frankenstein divide-se em duas partes: o ponto de vista de Victor (Oscar Isaac), o inventor; e a ponto de vista da Criatura (Jacob Elordi) quando é deixada à sua sorte e começa a tornar-se mais sensível e articulada. À medida que o filme avança, a Criatura começa a andar cada vez mais ereta, como um homem, enquanto o Victor se torna mais curvado, como uma besta, refletindo o tema de quem é o verdadeiro monstro na história. Acabamos com uma espécie de Disney grotesco, simultaneamente esteticamente belo e com musiquinha a condizer, mas com tripas à vista e mortes macabras (o filme é para maiores de 16 anos).
▲ O Victor de Oscar Isaac é menos cientista e mais estrela rock, segundo indicações do próprio realizador, que citou David Bowie, Mick Jagger e Prince como influências para a interpretação
Nas suas várias adaptações, a obra de Mary Shelley tem servido de pretexto para falar sobre a relação do homem com a ciência e sobre uma tentativa de suplantar Deus. Apesar desse ângulo acabar por transparecer também nesta versão para a Netflix (há uma cena em que o inventor chama Deus de inepto, clamando para os humanos a última palavra sobre a vida e a morte), Del Toro já admitiu que considera que o grande tema de Frankenstein é a parentalidade falhada, e não o mau uso da ciência. “Para mim, não é um conto de alerta. É sobre o espírito humano: é sobre perdão, compreensão e a importância de nos ouvirmos uns aos outros.” Ver o filme desta perspetiva torna-o mais claro e estimulante, nomeadamente no modo em como Victor, repudiado pelo pai, não consegue evitar fazer o mesmo ao fruto do seu trabalho.
O Victor de Oscar Isaac é menos cientista e mais estrela rock, segundo indicações do próprio realizador, que citou David Bowie, Mick Jagger e Prince como influências para a interpretação. É por isso mais vaidoso, autocentrado, mais preocupado com a validação por si e pelos outros do que com a ciência. Aborrece-se facilmente com a Criatura quando a consegue por fim concretizar, como um miúdo mimado que depressa deixa de ligar à prenda que exigiu pelo Natal. Isaac fá-lo com o magnetismo necessário, sem deixar de ser também um pouco irritante.
Já a Criatura é outra história, que exige uma pergunta que necessita da linguagem pouco requintada para ser exacta: pode um gajo giro ser monstro mais famoso do mundo? Jacob Elordi, tornado sex symbol pela série Euphoria e pelo filme Saltburn, foi a escolha polémica. Se resulta? É complicado. Del Toro queria afastar-se o mais possível da iconografia celebrizada por Boris Karloff, com a a cabeça quadrada alongada e os parafusos salientes no pescoço (a aplicação destes últimos terá deixado cicatrizes permanentes no pescoço de Karloff). “Não queríamos que esta criatura fosse demasiado berrante, não queríamos que parecesse uma vítima de um acidente de viação”, disse em entrevista Mike Hill, responsável pelas complexas próteses que tornavam uma carinha laroca num monstro.
▲ O que convence é a obsessão pelos detalhes, pela técnica e pela habilidade
Em vez de costuras visíveis, Del Toro queria linhas contínuas, argumentando que a beleza foi sempre o objetivo de Victor ao construir a criatura. Na obra de Shelley de 1818, o cientista escolhe a dedo entre vários cadáveres em busca de harmonia visual, mas falha, criando algo “sobrenatural na sua fealdade”. Em 2025, porém, Del Toro queria que conseguisse. A Criatura de Elordi não é grotesca mas, na verdade, ficam a parecer desnecessárias as 10 horas de tortura que o ator tinha de passar na maquilhagem, pois fica ali sempre entre “o puto do Euphoria com uns riscos na cara” e uma espécie de Highlander do Duelo Imortal. Tanta coisa para ficar a parecer o Christopher Lambert, credo.
Outro ponto positivo de Frankenstein é o enorme pirete que faz à moda da Inteligência Artificial. Del Toro disse: “Não quero digital, não quero IA, não quero simulação. Quero artesanato à moda antiga: pessoas a pintar, construir, martelar, aplicar gesso”. Tal como Rosalia tem dito na promoção do novo disco, Lux, ou Vince Gilligan fez questão de evidenciar na ficha técnica da série Pluribus. Se este ato de rebeldia artística vingar, Frankenstein vai lá estar como parte da revolução para manter tudo como sempre foi. Desde os anos 90.