Há jogadores, há antigos jogadores. Há treinadores no ativo, há treinadores que procuram estar ativos. Há dirigentes de uma modalidade, há dirigentes que falam por todas as modalidades. Há também os treinadores que pensam como diretores e acabam como dirigentes – e basta recordar as passagens de André Villas-Boas pela Web Summit, primeiro no período entre treinar na China e assumir o Marselha (2018) e depois quando estava num período de antecâmara eleitoral antes de assumir a presidência do FC Porto (2023). No caso de Tim Krul, é complicado fechar essa “gaveta” onde entra. Podia ser pelo tamanho, tendo em conta que é uma pessoa que dá nas vistas mal chegue a qualquer espaço, é sobretudo pela forma de pensar. Deixou de jogar há apenas dois meses, já pensa como dirigente, tem ideias de treinador, quer ser dirigente. Entre tudo isso, voltou novamente a ser uma boa conversa no palco 7 do Sports Summit, na Web Summit.

“Quando comecei a jogar com apenas cinco anos não estava na baliza, só mesmo quando tinha dez é que me escolheram para ser guarda-redes porque houve um jogador que foi para outro clube. Porquê? Olha, porque era o mais alto de todos… Tinha o Van der Sar como herói, queria ser uma estrela como ele era. Quando és mais novo não sentes essa coisa da pressão, só mesmo quando já tinha 21 ou 22 anos é que comecei a ficar nervoso com os jogos. Afinal, os guarda-redes têm sempre essa fama de serem um bocado malucos e eu era assim, atirava-me a tudo”, começou por recordar o antigo guarda-redes neerlandês de 37 anos.

“Quando tinha 17 anos e quando os Países Baixos foram à final do Europeu de Sub-17 é que começou tudo mais a sério porque o Newcastle viu-me e ofereceu-me quatro dias de treinos à experiência. Fui e passados 20 minutos ofereceram-me um contrato de três anos. Era muito menino da mamã, tinha a oportunidade de ir para outro país… Falei com os meus pais, vimos que se não desse podia sempre voltar porque teria 20 ou 21 anos, fiquei o tempo todo que se sabe. Quando cheguei tínhamos o Shay Given, outro grande modelo. Foi uma sorte para mim ter um exemplo como ele no início. Ainda me lembro do primeiro dia de estágio com eles: deixaram um lugar desocupado entre os mais velhos, quando olhei para o lado estava entre o Alan Shearer e o Shay Given e só quando me sentei é que vi que me tinha enganado e metido molho do pudim em cima da carne. Acharam que eu era maluco, claro, mas a partir daí fiquei integrado na equipa”, recordou depois de uma transferência do Den Haag para Inglaterra que passou pelo Tribunal Arbitral do Desporto para no final terminar com uma compensação para o clube neerlandês de… 220 mil euros.

“O Newcastle era um grande desafio mas quando és mais novo, não tens medos. Fiz a minha estreia aos 18 contra o Palermo. Achei que tinha ganho o lugar, que os meus companheiros nunca mais me tiravam da baliza, mas sofri uma lesão e recomecei tudo, tive um ano de empréstimo a um clube escocês da League One [Falkirk]. Ser suplente? É uma situação complicada porque todos querem ajudar os companheiros mas ao mesmo tempo todos queremos o mesmo lugar”, contou, antes de recordar Steven Taylor e Andy Carroll como as pessoas mais próximas e Alan Pardew como o treinador que mais acreditou em si no conjunto do norte de Inglaterra apesar de ter sido contratado por Graeme Souness. “Na minha primeira época como titular ficámos em quinto. Entretanto conheci também a minha mulher quando tinha 19 anos, prendeu-me em casa e fez muito bem porque Newcastle é conhecida por ser uma cidade sempre em festa. 18 anos depois, está lá. Depois quando chegam os filhos tudo começa também a mudar…”, destacou.

“A minha estreia pela seleção foi num jogo com o Brasil, fora. Um ano e tal depois de termos ido à final do Mundial, que estava a ver com a família na TV, era eu que estava ali. Estive no Europeu de 2012, que foram cinco ou seis das piores semanas da minha vida na Polónia porque não havia ligação na equipa, sempre com fricções… Dois anos depois, no Mundial do Brasil de 2014, tive as melhores seis semanas da minha vida. O Louis van Gaal conseguiu criar uma ligação entre todos nós como nunca voltei a ter. Depois, claro, a decisão nos penáltis dos quartos com a Costa Rica… Tinha de entrar no final do prolongamento para poder depois defender no desempate. Sentia-me nervoso, só queria que a bola não chegasse à nossa área ou que não viesse para ao pé de mim. Depois quando vi a minha imagem no ecrã, quando pensei que a minha família toda iria estar a ver, foi o clique. Defendi dois penáltis, ganhámos. Durante um jogo é mais complicado porque é só um penálti e o melhor marcador do outro lado, ali sabia que podia sempre defender um ou dois”, frisou sobre as convocatórias pela seleção dos Países Baixos com 15 internacionalizações.

“Entre os 28 ou 29 anos tive uma série de lesões, numa delas no joelho estive sem jogar durante 12 meses. Foi a pior altura da minha carreira mas agora, com a devia distância, percebo que foram esses os momentos que melhor me prepararam para a nova vida. Os estudos, o meu papel na direção da Associação de Futebolistas Profissionais de Inglaterra. Vi muitos antigos companheiros que demoraram na transição depois da carreira e quis preparar-me, estudei. Acabei de jogar apenas há dois meses mas sinto que tenho aprendido muito para o próximo passo. Como já ouvi aqui, ‘O limite de uma pessoa não tem de ser o nosso limite’. Para já, o meu objetivo era ter um projeto como diretor desportivo”, concluiu, antes de apontar Alisson como o melhor “e mais completo” guarda-redes da atualidade, Agüero e Haaland como aqueles que lhe criaram mais dores de cabeça e o desempate por grandes penalidades no Mundial de 2014 como o melhor momento.

Antes, no palco 10, Krul tinha falado de outros temas como o Mundial de 2026… e Ronaldo. “O Mundial é um daqueles torneios que mal posso esperar. Em 2026, vai ser um evento incrível. Os Países Baixos sentem falta de um jogador chave nesta altura, apesar de haver muito talento. Portugal também tem muito talento mas para se ganhar um Mundial, acho que é preciso um fator extra. Ronaldo? É um daqueles jogadores de topo. É fantástico jogar contra os melhores do mundo mas é também muito complicado. Lembro-me de estar no Norwich e, num jogo, fiz muitas defesas, mas ele teve um momento em que mostrou o seu brilhantismo. É por isso que continua a jogar e foi tão influente para a modalidade durante imenso tempo”, comentou.

Em paralelo, e neste caso mais a propósito do carregado calendário internacional no futebol, Tim Krul falou mais como membro da direção da Associação de Futebolistas Profissionais de Inglaterra. “Há cada vez mais competições e os atletas precisam de combater isso. Toda a gente quer ver mais jogos mas necessita de ser de forma controlada. Há muitas lesões e todos querem ver os melhores talentos dentro de campo. É inevitável quando se tem apenas duas semanas de descanso por ano. É fundamental que os jogadores estejam sentados na mesa onde as decisões são tomadas”, salientou. “Quando as pequenas lesões surgem, ficas mais velho, tens uma família, começas a pensar sobre coisas fora do campo. Aparecem as dúvidas e isso foi muito difícil”, apontou também, neste aspeto dando o seu exemplo para explicar a decisão que tomou este verão de terminar uma carreira que passou ainda por Brighton, Norwich e Luton Town, entre os empréstimos ao Falkirk, ao Carlisle United, ao Ajax e ao AZ quando tinha ligação ao Newcastle.