Esta segunda-feira, a Football Association (FA) revelou que, de 2023 para cá, existiu um aumento de 17% em queixas de discriminação e 13% em queixas de abuso no futebol amador inglês, acrescentando que vai passar a oferecer aconselhamento psicológico gratuito a todas as vítimas. Num curto comunicado, o organismo que regula o futebol no país confirmou que os comportamentos agressivos verbais contra jogadores, árbitros, treinadores e adeptos existem e estão a crescer — e não apenas a um nível profissional.

Curiosamente, foi também esta segunda-feira que um jogador profissional de futebol a atuar em Inglaterra encarou de frente um assunto que se cruza com esse tipo de comportamentos. Horas depois de ajudar a Seleção Nacional a garantir a qualificação para o Campeonato do Mundo de 2026, no Estádio do Dragão, Rúben Dias marcou presença no Hospital CUF Tejo, em Lisboa, numa sessão de sensibilização com o tema “O respeito na adolescência”.

Organizações da sociedade civil pedem resposta a violência nas escolas

O central do Manchester City, que é patrono e embaixador da Anti-Bullying Alliance, falou durante mais de uma hora com cerca de 30 jovens entre 15 e 16 anos, membros das Associações de Estudantes das escolas públicas à volta do hospital, e em conjunto com o psicólogo Vasco Oliveira discutiu as diferentes formas de manifestação do bullying, as consequências na saúde dos jovens e as distintas estratégias para prevenir e agir perante situações deste tipo.

Em declarações aos jornalistas já depois da conversa — e também depois de responder aos naturais pedidos de fotografias com cada um dos jovens, mas também com alguns funcionários da CUF que iam passando pela porta do auditório –, Rúben Dias sublinhou a importância de manhãs como esta para oferecer “um testemunho verdadeiro”.

“Aquilo de que os jovens e os pais precisam é de verdade, de bons exemplos. E eu espero ser um dos bons exemplos. Precisam de pessoas a contar a sua história, exemplos reais para poderem sacar informação, ganhar perspetiva sobre todo o assunto. E acima de tudo, para mim a grande questão é educação. É educar quem está agora a passar por essas situações a ser melhor”, começou por dizer o central.

Victor Machado

Rúben Dias está ligado à Anti-Bullying Alliance desde o ano passado

Sobre se existem muitas diferenças entre os problemas dos jovens portugueses e os problemas dos jovens ingleses, Rúben Dias reconhece “ter noção dessa realidade é difícil”. “Tenho um bocado, mas não tanto pelas ativações em que estive. Creio que é um problema aqui, lá e em qualquer outro lado. E há espaço para fazer melhor em todo o lado também. E essa é a minha fonte de influência, é partilhar a minha história, partilhar a minha verdade e tentarmos fazer melhor, todos”, atirou.

Quanto a conselhos para jovens, pais ou famílias que estejam a lidar com situações de bullying, o internacional português destacou a importância de “falar sobre o assunto”. “E isso pode ser com os pais, com os irmãos, com os vizinhos, com outro familiar, com um amigo, com alguém na escola. Ajuda ter alguém com quem partilhar qualquer tipo de emoções. Às vezes até pode ser algo que nós pensamos que foi abusivo e nem foi assim tanto. Ou então é uma coisa boa ao invés de ser uma coisa má, porque uma pessoa pode estar eventualmente a tentar chamar a atenção porque nos quer por perto. É um mundo de possibilidades. Mas o facto de se falar sobre isso, de se refletir sobre o assunto, acho que são fatores importantes a ter em conta antes de tomar uma eventual decisão precipitada”, sublinhou.

Depois de se escusar a comentar a potencialidade de bullying no discurso atual no futebol português, principalmente no que diz respeito aos presidentes de Sporting, Benfica e FC Porto, o jogador abordou a agressividade verbal no futebol de um ponto de vista genérico. “Estamos a falar de um mundo mais complexo, um mundo adulto. Um mundo com muitas intenções e muitas segundas intenções. Como é óbvio, há sempre espaço para fazer melhor no mundo do futebol, tal como no mundo dos advogados, dos psicólogos, dos contabilistas. O futebol não é exceção. É sempre bom caminhar para melhor ao invés de regredir”, lembrou.

Victor Machado

A sessão foi moderada pela apresentadora Rita Ferro Rodrigues e também contou com a presença de um psicólogo da CUF Tejo

Com o Manchester City a voltar aos relvados apenas no sábado, contra o Newcastle, Rúben Dias vai estar em Lisboa até quarta-feira à noite. Aos jornalistas, explicou que também é vítima de algum discurso menos polido nas redes sociais, mas aprendeu a lidar com a situação com o passar dos anos. “Tenho milhares de pessoas que não faço ideia quem são e muitas outras que se escondem atrás de páginas para fazerem comentários. Pessoalmente, e nessa situação mais específica, escolho ignorar. Mas não deixo de ler, é bom para me rir de vez em quando. Não leio tudo, como é óbvio, mas de vez em quando é engraçado ir lá espreitar. Acho que temos de ter a capacidade de relativizar muitos comentários que são feitos atrás ou por detrás de uma rede social. E sermos muito seguros de nós mesmos. Afinal de contas, podemos fazer o que quisermos. Isso vai sempre ter maior ou menor reação por parte das outras pessoas, mas o facto de nos sentirmos verdadeiros e honestos com as nossas atitudes é algo que, no final do dia, ajuda a que nos sintamos melhor. E com isto não digo que não possamos estar errados. Acontece, faz parte e faz parte do crescimento estar errado, apercebermo-nos disso e tentarmos ser melhores”, afirmou, antes de explicar como é que acabou por se aproximar tanto do tema do bullying na adolescência.

“Partiu do tema da educação. É algo muito importante para mim e para a maneira como vejo o meu futuro, tudo o que vou querer fazer daqui para a frente. O ‘bullying’ aparece como uma das diferentes variantes da educação. Na altura, a palavra “respeito” até era mesmo o título da campanha da Anti-Bullying Alliance e por si só tudo fez sentido. Neste momento é uma relação que faz todo o sentido continuar. Mas sempre com os olhos postos na educação e nessa ideia de sermos melhores. Especificamente, em Portugal, o nosso futuro vai ser o que os nossos jovens forem. E quanto mais conseguirem aprender, quantos mais exemplos e armas tiverem ao dispor deles, mais chances o nosso país vai ter de progredir no melhor sentido possível. Dentro do que for a minha influência e também a minha vontade, como é óbvio, terei sempre muito prazer em dedicar-me ao tema da educação”, acrescentou.

O jogador de 28 anos está ligado à Anti-Bullying Alliance desde 2024, sendo que na altura a organização indicou que abordou Rúben Dias devido à “liderança e compromisso com o respeito tanto dentro como fora de campo”, características que o tornam “um inspirador exemplo a seguir. Em novembro do ano passado, há um ano, o internacional português marcou presença num evento da Semana Anti-Bullying na Câmara dos Lordes, no Parlamento britânico, e tem protagonizado diversas iniciativas de sensibilização.