Apenas cinco meses se passaram desde que Rita Santos se despediu daquele lugar que, ao longo de sete anos, tanto valorizou o património gastronómico de Portugal. “Preciso de descansar”, dizia ela na altura, confessando ao Observador que já estava a pensar nos planos para o futuro. A mercearia Comida Independente fechava assim portas sem uma abertura à vista até que, no passado sábado, dia 8 de novembro, aquela esquina da Rua do Cais do Tojo voltava a ganhar vida. É agora Salón, uma casa de “bem comer e bom beber” pelas mãos do chef argentino Segundo Farrell.
Em Lisboa há dois anos, foi no ano passado que o jovem chef abriu junto com dois amigos a La Joya Cantina, uma tradicional cantina argentina — “é como se fosse uma tasca, mais tradicional e com pratos clássicos”, explicaram-nos — que continua a receber os amantes de milanesas lá perto da Praça das Flores. No Salón, Segundo junta-se a Márcio Duarte e a Natalia Violet Sly para abrirem um “restaurante com pratos para beber vinhos”, descreve o chef. “Eu gostava muito da Comida Independente. E antes era uma loja para beber vinho e agora é um restaurante para beber vinho”, completa.
▲ Segundo, Nat e Márcio tomaram conta do antigo espaço da mercearia Comida Independente para dar vida ao Salón
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
A oportunidade para ficarem com o espaço chegou quando Rita avançou a Nat — como lhe chamam — que ia pô-lo à venda. Já conhecida de Segundo, Nat fez-lhe a proposta adicionando à mistura Márcio que, com experiência na restauração, não tinha ainda nenhum espaço com chef executivo. Com o conceito inicial de “comida portuguesa divertida”, a ideia evoluiu face à falta de “wine bars que pensem na comida”. O chef meteu mãos à obra e começou a pensar naquilo que é que ele próprio gosta de comer enquanto bebe um copo de vinho. Os pratos de partilha vieram à tona, criados de forma simples, com poucos ingredientes e sempre com foco no respeito pelo produto. Este é bastante português, com uma carta que lista uma variedade de peixes do nosso mar — “boa sardinha, pargo, robalo, dourada”, enumera —, acompanhados por um mínimo de 80 referências de vinho nacionais e internacionais.
“Eu estou cá há dois anos e estou maravilhado com a variedade e quantidade de vinhos que há em Portugal. É impressionante”, afirma Segundo. O vinho é assim o centro desta casa que, com uma station no meio da sala, espera ser um ponto de encontro para os amantes de boa comida e bebida. “A gente está aqui para se divertir. Há que haver barulho, há que haver vida. Queremos levar isto a um nível de cerveja na mão, malta à espera aqui na station, lá fora, tudo a beber, descontraído, lively”, acrescenta Márcio, explicando ainda que a ideia não é manter o legado da Comida Independente mas sim seguir uma narrativa com o tipo de público pelo qual também Rita se rodeava. “Este sítio já tinha um charme anterior, já tinha uma curadoria a nível da atmosfera”, afirma.
O charme mantém-se face também à pouca intervenção que fizeram: o chão é o mesmo que recebia os tantos clientes de Rita, as quadriculadas paredes em azulejo branco também, assim como a zona onde já antes vivia o balcão. Abriram apenas o espaço, fazendo do Salón uma grande sala para sentar 58 pessoas, espalhadas entre as mesas e o balcão, sem grandes “coisas fancy”, mantendo um ambiente acolhedor — saltando à vista aquelas típicas cadeiras de escola. Já lá fora, há 30 lugares na esplanada. “Acho que há demasiados restaurantes para expatriados com coisas sofisticadas que cobram muito pelos pratos. Aqui não é assim. E quando se colocam coisas sofisticadas, às vezes o lugar perde a sua alma”, explica Segundo, acrescentando que procura sempre criar restaurantes que ele próprio goste de frequentar. “E, para ser sincero, não frequento restaurantes caros”, afirma.
▲ O carpaccio de novilho, a empanada de camarão e o gelado caseiro do Salón
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Como é então este menu feito para acompanhar todas aquelas referências de vinho, do branco ao tinto, passando pelo champanhe e espumante, rosé e fortificado? Pelas entradas, há umas gordas e bem verdes azeitonas espanholas recheadas com queijo de cabra, anchovas e malagueta (4 euros), queijo cabra com uvas verdes e pão massa mãe (7 euros), tostas de sardinha flameada com paté de azeitona caseiro (7 euros), ostras frescas do Algarve com limão, tabasco e rábano (2,50 euros) ou carpaccio de novilho com molho cipriani, alcaparras e queijo parmesão (14 euros). Se o copo de vinho continuar cheio, há ainda tempo para os principais. Estes não promovem indecisões, compondo uma lista de apenas cinco: couve com béarnaise e pão ralado tostado (12 euros), porco com molho de pimenta (14 euros), meio frango assado (14 euros), peixe com água de lourdes e batata (16 euros) e arroz de marisco tostado (14 euros).
A combinar muito bem com vinho, garante-nos o chef, o Salón que ainda ser reconhecido pelo gelado. Com uma máquina de soft ice cream que no futuro vai servir umas belas taças, o restaurante apresenta agora o gelado caseiro de amêndoa com o pão de banana e toffee (6 euros). Já a outra sobremesa da carta é um merengue com natas e ruibarbo/ framboesas (6 euros).
Aberto todos os dias das 18h00 às 00h30, a partir do final de novembro o Salón vai passar a estar aberto desde as 12h00 com uma opção de menu executivo para almoço. Ainda em preparação, vai rondar os 16 euros e incluir entrada, prato principal e café.