As batalhas ideológicas ficaram bem vincadas, mas também houve espaço para concordâncias. João Cotrim Figueiredo e António Filipe aproveitaram o facto de ambos estarem colados aos respetivos partidos para se atacarem, mas o ex-presidente da IL também fez questão de mostrar que não vai para o Palácio de Belém “defender que as políticas devem ser liberais” e que “surpreendentemente” até concorda com o adversário numa coisa ou outra. O candidato apoiado pelo PCP classificou de “bafientas” as ideias neoliberais. No fundo, nenhum dos dois estava ali para roubar eleitorado ao outro.

Depois de ouvir António Filipe realçar que os portugueses querem um Presidente que “faça cumprir a Constituição” e que “aumente a sua magistratura de influência e intervenha junto do Governo”, Cotrim deu início à jogada que trazia na manga, lembrando que o PCP apoiou os governos da geringonça e descrevendo o cenário que deixou: “A imigração era um tema e passou a ser um problema, a habitação era problema passou a ser uma crise a a saúde que era uma crise passou a ser um caos.” E acrescentou ainda que o PCP “ainda há poucos anos ponderou referendo para sair do euro e UE”. António Filipe explicou que o que fez foi defender a “ratificação dos tratados deviam ter sido por referendo” e devolveu a bola ao acusar Cotrim de ter apoiado “mais governos” do que o PCP, desde logo o atual.

O debate aqueceu na Saúde, quando Cotrim anotou que este é “o período da história em que mais cresceram os privados” porque o SNS funciona mal. António Filipe aproveitou para assegurar que esse é o “resultado de políticas neoliberais” — “Ora essa!”, atirou Cotrim —, alertando que o SNS “se vai degradando” e que já há “mais hospitais privados do que públicos”. A receita do comunista é conhecida e repetiu-a: “É preciso que haja investimento claro no dever de fortalecer o SNS e dar condições aos profissionais de saúde para que trabalhem no SNS.” Cotrim interrompeu para dizer que é o país onde mais se gasta em Saúde, enquanto Filipe notava que “grande parte” desse dinheiro é “canalizado, por via de convenções, para o privado”.

“É o resultado das políticas neoliberais“, voltaria a frisar o comunista. “O que é que nisto é neoliberal?”, contestou o liberal, que defendeu uma “escolha livre” das pessoas e disse mesmo que se a maioria escolhesse os servidores públicos ficaria “encantado”.

Nova ronda, novo confronto. O candidato apoiado pelo PCP considerou que o que a proposta de lei laboral do Governo servirá para “tornar precarização eterna” e é um “ataque às mães trabalhadoras”, mas também disse que “é por via da representação sindical que os trabalhadores conseguem valer os seus direitos”. Com Cotrim à frente, não havia como deixar escapar a possibilidade: “Os neoliberais estão a querer vender ideias bafientas do século XIX como se fossem modernidades.”

Cotrim não gostou, até disse ser “ofensivo” ouvir a acusação de “bafiento” vinda de um comunista, mas realçou que “surpreendentemente” até estão de “acordo em algumas coisas”. “É preciso mais emprego, melhores salários.” E acrescentou: “Pessoalmente, acho lindamente que haja muito mais contratação coletiva”. A afirmação quase deixou António Filipe sem reação, questionando que, se assim era, como é que apoiava a proposta do Governo. Cotrim continuou para atacar uma visão do PCP, relembrando que Paulo Raimundo “disse que os salários aumentam-se aumentando os salários”. “É por decreto? Qualquer empresa que se preze faz dos trabalhadores o seu principal ativo”, justificou Cotrim.

O tema continuou, desta vez com foco nas greves e com António Filipe a argumentar que “não são as greves que prejudicam o país” e que “há serviços mínimos que, em muitos casos, já são serviços máximos”. O adversário interrompeu para desafiar o comunista a dizer se defende serviços mínimos, mas António Filipe preferiu afirmar que o que a reforma laboral pretende “transformar esses serviços mínimos em máximos” e que isso serve para “transformar esses serviços mínimos em máximos”. Questionado sobre a possibilidade de a greve estar a ser instrumentalizada, Cotrim explicou que “tem sido prática da CGTP alinhar-se com PCP”, mas deixou claro que “isso não retira legitimidade da greve”.

Com Cotrim a mostrar-se preocupado com os portugueses que abandonam o país para trabalhar no estrangeiro e a garantir que “não há ninguém que emigre para países comunistas“, António Filipe não poupou o adversário, acusando-o de estar “do lado do 1% mais ricos, dos acionistas das empresas” e o PCP do lado “dos outros 99%, das pessoas que se sentem injustiçadas porque as suas carreiras são ignoradas” e que “pensam emigrar”. Cotrim não gostou: é um argumento “à Ventura”, atirou.

Na reta final, questionado sobre o serviço militar obrigatório e o aumento de estruturas de reservas, Cotrim considerou que “não faz enorme sentido”, lembrando que tudo está a evoluir demasiado depressa e que isso “não se compadece com serviços militares voluntários e pessoas com pouca experiência e pouca competência”. Já António Filipe considera que o que falta é “atratividade das Forças Armadas para os mais jovens porque as carreiras são um contrato que os condena ao desemprego quando acabar”.

Já sobre a eventualidade de a NATO evocar o artigo 5.º, da defesa colectiva dos aliados, e o que deve fazer se for Presidente da República, António Filipe remeteu o assunto para o Governo: “A política externa é competência governamental”, defendendo que a questão seja “analisada em concreto”. Cotrim concordou que as “obrigações internacionais [são] para respeitar”, esclarecendo que “nenhum Presidente da República irá levianamente enviar tropas”.

Diálogo revelador

António Filipe: Portanto, eu creio que temos que afastar estas políticas neoliberais na área da saúde…

João Cotrim Figueiredo: Mas onde é que estão as políticas neoliberais?

AF: Na falta de investimento no Serviço Nacional de Saúde.

JCF: Falta de investimento? Cresceu 70% do orçamento…

AF: Eu não falo em investimento no Serviço Nacional de Saúde, porque esse investimento público na área da saúde, em grande parte, é canalizado por via de convenções para os hospitais privados. Sabemos isso, não estou a dizer nada de novidade nenhuma a ninguém. E, entretanto, faltam profissionais do Serviço Nacional de Saúde, porque as carreiras não são compensadoras.

JCF: O que estamos a dizer é que investe 70% mais e o serviço está pior, e ainda vai mais dinheiro para os privados, para além daquela estatística, que a mim me transtorna mais que todas, Portugal continua a ser o país da OCDE onde mais dinheiro se gasta do próprio bolso da saúde, em termos percentuais. Está satisfeito com isto?

AF: Não, não estou. Agora, acho que este é o resultado das políticas neoliberais.

JCF: Onde é que é neoliberal isto?

AF: Claro que é.

JCF: Não é, zero. Zero, zero, lamento, lamento.

AF: Porque os hospitais privados aparecem porque o negócio está garantido. Se o negócio não estivesse garantido, não cresciam como cogumelos.

JCF: Não, por isso é que se estivéssemos a falar de aplicar uma reforma como aquela que eu defini em tempos, o maior opositor serão os grupos privados de saúde, não tenho dúvidas. Porque o centro de qualquer sistema, e aqui não estou a falar só de saúde, estou a falar de educação, os utentes do Serviço Nacional de Saúde, na educação, os pais ou os alunos, depois de terem dado o suficiente, a sua escolha deve ser livre e devem poder optar pelo prestador de serviço de educação ou de saúde que mais querem. Se não houver essa postura, que nunca houve no SNS, as pessoas têm que ir ao hospital da sua área de residência ou têm que ir para a escola da sua área de residência, impede que o sistema tenha em si as capacidades de se auto-regenerar e melhorar.