Cartas com imagens sexualmente explícitas mas falsas da dissidente e ex-vereadora distrital de Hong Kong Carmen Lau e posters igualmente de cariz sexual da mulher do ex-legislador Ted Hui chegaram às caixas de correio dos vizinhos de ambos no Reino Unido, no caso da ativista, e na Austrália, no caso do casal. Uma ação que, segundo o The Guardian, representa uma escalada no assédio transnacional enfrentado por críticos do regime.

As cartas recebidas pelos antigos vizinhos de Carmen, avança o jornal britânico, sobrepunham o rosto da ativista em corpos de outras mulheres nuas ou em roupa interior. Uma imagem igualmente fabricada mostra Lau a realizar um ato sexual, pixelizado.

O jornal britânico revela também que as cartas continham as supostas medidas do corpo de Carmen Lau e o endereço completo da sua antiga residência. “Esteja à vontade para me visitar! Tem o direito de me escolher e eu também tenho o direito de não o aceitar. Só quero que o processo seja gentil. Podemos tornar-nos amigos íntimos no futuro!”, lia-se nas missivas.

Já na Austrália, um poster com um “menu” dos supostos serviços sexuais prestados pela mulher de Ted Hui e a legenda “dona de casa solitária de Hong Kong” foi enviado por e-mail ao chefe do antigo governante e afixado nas ruas de Adelaide, endereço que consta do documento.

No caso do ex-legislador, a polícia conseguiu rastrear o endereço IP a partir do qual o e-mail foi enviado e chegou a Hong Kong. O remetente das cartas de Carmen não é, para já, conhecido.

A ativista de 30 anos estava na lista de alvos da polícia de Hong Kong, procurada por alegadas ofensas à segurança nacional. Em março deste ano, na rede social X, Carmen Lau escrevia que os seus vizinhos haviam recebido cartas anónimas que os “encorajavam” a levar a ativista à embaixada da China.

O exílio é a realidade de vários ativistas naturais de Hong Kong após a entrada em vigor da legislação relativa à Lei de Segurança Nacional, imposta por Pequim, em 2020. O documento criminalizou vários tipos de atos de dissidência e levou à prisão de políticos da oposição e ativistas pró-democracia.

Mas esta é a primeira vez que alguém procurado pelas autoridades de Hong Kong se torna alvo de uma campanha com material sexualmente explícito. À BBC, Lau afirmou que, quando estava em Hong Kong, “agentes pró-Pequim foram treinados para usar assédio de género contra ativistas pró-democracia”.

O deputado em Mainhead Joshua Reynolds disse ao The Guardian que este se tratava “sem dúvida” de um ato de repressão transnacional e pediu ao governo britânico medidas como a imposição de sanções aos funcionários envolvidos na oferta de recompensas por ativistas que vivem em Inglaterra.

*Texto editado por Cátia Andrea Costa