Apesar de ter dito que não anda “a reboque de ninguém”, Jorge Pinto não conseguiu escapar ao pingue-pongue de acusações pessoais em que acabam muitos debates de André Ventura, tal como aconteceu com Catarina Martins. Se o líder do Chega acusava o adversário de ser um “pirralho da política” ou um “ditador igual a Fidel Castro e a Maduro”, Jorge Pinto respondia que o líder do Chega “não conhece o país”, nomeadamente porque vive num “condomínio fechado”.
Para abrir o debate, Ventura mostrou uma posição compreensiva em relação greve geral, após ter dito anteriormente que esta seria um “erro”. “Avisei o Governo de que estávamos no mau caminho e a criar um bar aberto para despedimentos”, nomeadamente por considerar uma “burrice” que o Governo queira acabar com a proibição de se recorrer ao outsourcing após despedimentos coletivos. Ventura clarificou que considerou a greve “um erro” porque “podia ter-se evitado chegar aqui”, frisando que o “descontentamento” dos trabalhadores é legítimo.
Não acabou a sua intervenção sem comentar os incidentes na porta da Assembleia da República, onde manifestantes queimaram caixotes do lixo e atiraram garrafas de vidro contra a polícia. “O que aconteceu há pouco na Assembleia da República é lamentável e mancha muito o dia”, declarou Ventura. Desafiado a condenar o sucedido pelo líder do Chega, Jorge Pinto acabaria por dizer, mais à frente no debate, que o fazia “sem problema nenhum”. Porém, começou por se mostrar surpreendido com a posição do adversário ser favorável à greve. “Tenho pena de não ter trazido uma ficha de um qualquer sindicato para se poder juntar já hoje.”
Jorge Pinto acusou então Ventura de ser um “catavento e troca-tintas permanente”, considerando que o Chega “já mostrou muita abertura” para aprovar o pacote laboral anteriormente. O deputado do Livre alertou ainda que o Governo “nunca vai conseguir aprovar esta reforma sozinho” e que o Chega “está sempre contra os trabalhadores”. Para justificar essa negociação com o Governo, Ventura fez a distinção entre os dois partidos: “Nós podemos fazer a diferença e o Livre não pode”. Por fim, explicou que o seu partido deu “três ou quatro meses ao Governo para recuar” em determinadas medidas e tal não aconteceu.
Começava a troca de tiros entre as partes. Ventura disse que o Livre “anda aos abraços com ditadores da América do Sul” e acrescentou que a candidatura de Jorge Pinto “conta para pouco”, porque as sondagens lhe dão menos de 1%. O outro rejeitava que o seu oponente fosse o candidato anti-sistema, mas antes o “queridinho do sistema”, porque liderou os políticos em entrevistas dadas à televisão em novembro. Para contrastar com Ventura, o deputado do Livre dizia ser um “candidato do regime” por acreditar que “a nossa Constituição tem a distribuição ideal dos poderes”.
Por sua vez, André Ventura defendia que o Presidente da República “não deve ser uma jarra de enfeitar”, questionando o facto de ser o primeiro-ministro a indicar o Procurador-Geral da República. “O Jorge Pinto quer o sistema de corrupção dos 50 anos. Eu quero mudar Constituição para garantir que a Justiça tem independência, que quem é nomeado não depende de partidos”. Depois, desvalorizou a candidatura do dirigente do Livre, prevendo que este vai desistir em nome de Seguro “nos próximos dias”.
Jorge Pinto vinha preparado para o embate no tema da corrupção e contou novamente que, quando era socialista, enviou uma carta ao PS a criticar recandidatura de Sócrates a líder do partido, “muito antes de todos os escândalos”. Isto tudo para desafiar Ventura a falar sobre os seus tempos no PSD: “Onde é que está o email de André Ventura relativo a Duarte Lima, às polémicas com Miguel Relvas, ao calote que Luís Filipe Vieira deixou a este país?”
O líder do Chega respondeu que “ser do PS é um cadastro”, acusando Jorge Pinto de ter ficado “caladinho que nem um rato” em casos envolvendo Armando Vara, José Sócrates e Jorge Coelho — ainda que o deputado do Livre tenha dito que não era militante na altura. Ventura esclareceu ainda que deixou de ser social-democrata porque “disse que ciganos tinham de trabalhar e que imigração e corrupção estava descontrolada e o PSD achou que não”. Mas Jorge Pinto não se ficava: “Há cinco anos, enviou uma carta a pedinchar a Miguel Albuquerque para ser o pilar da sua candidatura presidencial.” Ventura assegurou que era falso.
Foi então que Ventura trouxe para a discussão uma das bandeiras do seu adversário, que admite dissolver o Parlamento se uma maioria parlamentar fizer uma revisão drástica da Constituição se esta não tiver sido tema de campanha. “O senhor é um ditador que não aceita a vontade do povo”, atirou contra Jorge Pinto. Este contra-atacou dizendo que o líder do Chega “odeia” e “não conhece Portugal”, sendo que “vive num condomínio fechado” e só fala com os portugueses “com dois ou três seguranças pelo meio”.
Para responder, Ventura lembrou que é natural do “subúrbio” e “não andou em escola privadas”, rejeitando as “lições de moral” de Jorge Pinto. “Tenho de ter segurança porque escumalha do vosso partido e de outros andam a atacar-me. Já me tentaram matar, apedrejar, há ameaças de bomba sob a minha casa. Não sabe o que é isso porque nunca enfrentou o sistema”, justificou, chamando “pirralho na política” ao adversário.
Para terminar o debate, Jorge Pinto trazia uma novidade: já tem as 7.500 assinaturas necessárias para concorrer à Presidência e vai entregá-las no dia 17 deste mês. Além dessa, dava mais uma notícia especial para a ocasião: Leonor Caldeira, a advogada que defendeu a família Coxi no processo contra Ventura, será a sua mandatária nacional. “Foi quem garantiu que Ventura fosse condenado”, disse o deputado do Livre. “Ainda bem que escolheu essa advogada como mandatária porque mostra bem o país que representa, o país da bandidagem”, respondeu o líder do Chega.
O diálogo mais revelador
Jorge Pinto: Não só tenho as assinaturas como as vou entregar dia 17 de dezembro, convido todos a lá estar e anuncio também a minha mandatária: a advogada Leonor Caldeira, vencedora do prémio Nelson Mandela, ainda mais jovem do que eu, que é um reflexo daquele país ao qual quero dar visibilidade e uma advogada que André Ventura deve conhecer muito bem porque foi quem garantiu que fosse condenado.
André Ventura: É mesmo verdade.
Jorge Pinto: Não só tenho as assinaturas, como tenho muito orgulho de ter uma mandatária que representa o Portugal do futuro a que quero dar visibilidade.
André Ventura: Isso era o ideal para o fim do debate. A sua advogada é aquela que esteve contra eu chamar bandido a pessoas do bairro da Jamaica, que tinham atacado polícias…
Jorge Pinto: A que o condenou. Há apenas um condenado nesta mesa e não sou eu.
André Ventura: Pode ter a certeza [que] enquanto for para dizer que ciganos têm de trabalhar, que bandidos e corruptos têm de ser postos na prisão eu vou continuar. Ameacem-me o que quiserem, eu vou continuar. Mas ainda bem que escolheu essa advogada como mandatária.
Jorge Pinto: Não fique nervoso.
André Ventura: Nunca estou nervoso. Ainda bem que escolheu essa advogada como mandatária porque mostra bem o país que representa, o país da bandidagem…
Jorge Pinto: Não fique nervoso.
André Ventura: Nunca fico nervoso. É o país da bandidagem, o país dos subsidiodependentes, é o país daqueles que querem continuar na mama de Abril. Tenho uma notícia para si: nas sondagens estou em primeiro, espero ganhar no dia 18 [de janeiro]… não se ria porque está em último ou nem aparece… e a primeira coisa com que vou acabar é o país da mama que os senhores criaram durante 50 anos e aí vou-lhe mostrar quem é que conhece o país. Eu quero pôr o país na ordem e o senhor quer pôr o país nas mãos dos bandidos.