Alta velocidade, novo aeroporto, terceira travessia do Tejo, 30 obras rodoviárias e concessões portuárias. São projetos que concentram necessidades de investimento de 60 mil milhões de euros para os próximos dez anos. E para aproveitar este ciclo de investimento “exigente e que não se repete” é preciso “uma mudança no mercado da construção”, afirmou o secretário de Estado das Infraestruturas num evento promovido pela Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores (APPC).
“Precisamos de construtoras maiores e capazes de abraçar obras com mais risco. É preciso ter capacidade e balanço” para a dimensão e concentração de obras previstas, defendeu Hugo Espírito Santo num jantar realizado na quarta-feira passada no hotel Altis em Lisboa. Para o governante, este ciclo “único e irrepetível” deve ser aproveitado como “catalisador” pelas empresas nacionais — construtoras, mas também na área de engenharia e projeto — como uma “oportunidade para reconfigurar o mercado para termos players maiores, com mais capital, e expertise vinda de outras partes do mundo”.
É público que o Governo tem vindo a procurar atrair grandes empresas de construção, designadamente da Turquia e da Coreia do Sul, para se juntarem às empresas francesas e espanholas que já atuam no mercado nacional. “Precisamos de trazer essas empresas e que elas estabelecem uma presença perene” em Portugal. “Se não, não conseguimos executar os 60 mil milhões de euros”.
Hugo Espírito Santo lembrou que há uma empresa de construção em Portugal (a maior) que tem receitas a anuais na casa dos 5.000 mil milhões de euros, mas que as que vêm a seguir têm um volume de negócios abaixo dos mil milhões de euros anuais.
A maior empresa de construção é a Mota-Engil, que no ano passado faturou 5,9 mil milhões de euros. O grupo tem vindo a liderar o setor há vários anos, também na sequência de falências ou dificuldades vividas por outras grandes construtoras no mercado nacional nos anos da crise financeira e económica. A Mota-Engil é a líder do consórcio que ganhou a primeira, e até agora única, parceria pública privada (PPP) para a linha de alta velocidade entre Lisboa e Porto. Este consórcio, que inclui mais empresas nacionais, foi o único concorrente ao primeiro troço (Porto-Oiã) a ser validado e concorreu sozinho à segunda PPP (Oiã-Soure), cujo concurso será repetido.
Para Hugo Espírito Santo, os grandes investimentos são uma oportunidade para as construtoras, mas também para as empresas de projeto, engenharia e consultoria, que devem usar este ciclo para “criarem empresas robustas, maiores e com mais capacidade para se internacionalizarem”. E isso, sugeriu, pode passar por fazer parcerias com grandes empresas internacionais. E, em simultâneo, apostar numa maior especialização e garantir que existe oferta em novas áreas para o mercado português, como é o caso da alta velocidade.
Numa palavra mais dirigida à plateia de empresas de projeto e engenharia, o secretário de Estado das Infraestruturas manifestou ainda a convicção de que a engenharia portuguesa vai conseguir ter um papel fundamental.
“Estigma” das concessões rodoviárias deve ser ultrapassado. Governo quer lançar várias
A concentração numa década de investimentos em infraestruturas de transportes – os projetos da energia e da água estão fora dos 60 mil milhões de euros — é o resultado de não ter sido feito no passado (últimos 20 anos) o investimento necessário em infraestruturas. “Não é uma crítica aos governos do passado, mas sim uma constatação da realidade. Temos de recuperar em 10 anos o que não foi feito nos últimos 20 anos”, disse Hugo Espírito Santo.
O secretário de Estado das Infraestruturas considerou também que é preciso ultrapassar o “estigma” que caiu sobre as concessões rodoviárias (muito por causa das subconcessões lançadas no último Governo de José Sócrates quando Portugal já tinha uma crise de finanças públicas). As concessões, defende, “são um instrumento essencial na dinamização das infraestruturas. Temos de ultrapassar esse estigma e voltar a usar o modelo para acelerar os projetos e atrair os privados”.
O Governo tem em estudo um pacote de 30 obras rodoviárias com um investimento estimado de mais de 500 milhões de euros que quer desenvolver através de concessões. Hugo Espírito Santo não quis entrar no tema do “financiamento”, reafirmando que o “Governo não acredita no fim das portagens”. Não obstante, para várias das obras incluídas no pacote foram aprovadas propostas da oposição, no quadro do Orçamento do Estado, para que as vias com perfil de autoestrada fiquem isentas de portagens. Uma dessas aprovações diz respeito à duplicação do IP3 entre Coimbra e Santa Comba Dão.
Para além das concessões, está em marcha o lançamento de novas parcerias público privadas (PPP) para a alta velocidade, mas também para a terceira travessia do Tejo (TTT), cujo estudo de impacte ambiental deverá ficar concluído no final do primeiro semestre de 2026. A TTT terá seis vias rodoviárias e quatro vias ferroviárias, para além de uma ponte adicional entre o Barreiro e o Seixal. E é a partir da TTT e da saída do Barreiro que sairá a ligação ferroviária para o aeroporto Luís de Camões.
Ainda na área das pontes, vai finalmente ser realizado um “estudo definitivo para perceber do que estamos a falar quando falamos da travessia Algés/Trafaria (nomeadamente se será ponte ou túnel e se está em causa apenas uma ligação rodoviária)”.
Estas novas travessias são um eixo fundamental para fazer de Lisboa uma cidade de várias margens com o Tejo no centro, uma estratégia que abarca grandes operações de reabilitação urbana envolvidas no Parque Cidades do Tejo, um projeto que o secretário de Estado da Indústria descreveu como uma “Parque Expo em esteroides” porque será cinco vezes maior do que esta intervenção realizada na sequência da exposição internacional de 1998.