Nuno Loureiro, físico português e diretor do Centro de Ciência do Plasma e Fusão do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), morreu esta terça-feira após ter sido baleado várias vezes na véspera à noite em casa, onde vivia com a mulher e três filhas, na cidade de Brookline, na Área Metropolitana de Boston, Estado de Massachusetts. A informação foi avançada ao Observador por fonte na Polícia de Brookline, que explicou que foi alertada por volta das 20h33 de segunda-feira (hora local, 01h33 em Lisboa) após “várias chamadas” a denunciar disparos dentro de uma casa na rua Gibbs, no centro da cidade.

As autoridades encontraram então um cidadão português de 47 anos com vários ferimentos de bala. Em comunicado, a procuradoria local do condado de Norfolk confirmou que se trata de Nuno Loureiro. O físico foi levado para o Beth Israel Deaconess Medical Center, onde ficou até morrer esta terça-feira, não resistindo aos ferimentos. As autoridades policiais locais e a polícia estadual do Massachussets estão a investigar o caso como um possível homicídio.

Um vizinho, que falou à CBS News, disse ter ouvido “três estrondos grandes” na noite de segunda-feira. “A princípio, pensei que fosse alguém no nosso apartamento a chutar uma porta ou algo assim, então liguei para os vizinhos e eles disseram que não, que achavam que eram tiros”, acrescentou. Uma outra vizinha, Anne Greenwald, que mora no bairro há 40 anos, contou à mesma estação ter ouvido o barulho dos disparos. “Ele tinha uma família jovem, estudavam aqui”, detalhou, descrevendo o caso como “horrível”.

Ao Boston Herald, Louise Cohen, vizinha do andar de cima, contou que estava a acender a sua menorá quando ouviu vários disparos. Quando abriu a porta de casa, contou, viu o físico deitado de costas na entrada do prédio e, juntamente com um vizinho e a mulher de Loureiro, chamou o 911 [equivalente ao 112].
“Não consigo dormir,” disse Cohen. “Esta família é tão incrível. Não consigo imaginar que alguém os queira matar”, acrescentou.

A morte de Nuno Loureiro foi inicialmente avançada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, durante uma audição na Assembleia da República esta terça-feira que, por iniciativa do presidente da comissão, José Cesário, começou com um minuto de silêncio pela morte de duas crianças lusodescendentes em França, na sequência de uma explosão de gás. Rangel associou-se a este minuto de silêncio e lamentou a morte das duas crianças, de três e cinco anos, partilhando com os deputados a notícia da morte do físico português.

Já ao final da noite, o Presidente da República lamentou a morte de Nuno Loureiro, sublinhando a sua “dedicação incansável à ciência” e o legado que deixa. “O professor universitário Nuno Loureiro distinguiu-se pelo seu rigor intelectual, pela dedicação incansável à ciência e pelo contributo relevante que deixou na área da física”, escreveu na nota publicada na página da Presidência, acrescentando que, “para além do mérito profissional, era reconhecido pelo seu espírito colaborativo, generosidade no partilhar de conhecimento e compromisso com o progresso científico”.

“A sua morte prematura representa uma perda irreparável para a ciência e para todos os que com ele trabalharam, e conviveram. Neste momento de dor, o Presidente da República expressa sentidas condolências à família, amigos, colegas e a toda a comunidade científica”, destacou ainda o chefe de Estado português, sublinhando que Nuno Loureiro “foi vítima de um ato de violência que chocou a comunidade académica e científica”.

Um “colega brilhante” que queria ser cientista desde a escola primária

Natural de Viseu, Nuno Loureiro tinha contado numa entrevista de 2018 ao MIT que o interesse pela ciência surgiu quando ainda era muito pequeno — na escola primária, já sabia que queria ser cientista. Quando acabou a escola secundária, decidiu seguir a área da física, tendo-se matriculado no Instituto Superior Técnico em 1995 para a licenciatura em Engenharia Física Tecnológica.

Em 2005, acabou o seu doutoramento fora de Portugal, na Imperial College London, precisamente na área da física e, entre 2009 e 2016, tornou-se investigador no Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN) do IST, onde se focou na física teórica e nas suas aplicações na fusão. De lá, saiu para os Estados Unidos da América, onde se juntou ao MIT em 2017. Foi nomeado diretor do Centro de Ciência do Plasma e Fusão do MIT em maio de 2024.

Em comunicado, o MIT confirmou que o cientista era membro do departamento de Ciência e Engenharia Nuclear e de Física e expressou “sinceras condolências à sua família, alunos, colegas e todos aqueles que estão de luto”. “Estão a ser realizadas ações de apoio e conversas dentro da nossa comunidade para oferecer cuidados e apoio àqueles que conheceram o Prof. Loureiro, e uma mensagem será partilhada com toda a nossa comunidade”, lê-se ainda.

Numa nota enviada às redações, o IPFN e o IST lamentaram “profundamente” a morte do antigo aluno e investigador das instituições.  “Os seus amigos e colegas do IPFN e do Técnico, alguns dos quais continuaram até hoje a colaborar com o Nuno, estão profundamente consternados pelo seu desaparecimento prematuro. Lembramos um colega brilhante, com quem era um prazer científico e pessoal colaborar“, lê-se.

Ao Observador, o presidente do IPFN, Bruno Gonçalves, descreveu o antigo colega como alguém “muito assertivo” e “dedicado a ser preciso naquilo que fazia”, estimulando “a criatividade dos alunos”, que diz gostarem muito dele. “Era sempre muito interessante trabalhar com ele e partilhar ideias, porque trazia sempre uma visão nova ou uma ideia nova que podia ajudar-nos a ir um pouco mais além”, acrescentou, apontando que a notícia apanhou todos no IPFN “muito desprevenidos”. “É alguém que lutou para ter o reconhecimento internacional e que se dedicou integralmente à ida para os Estados Unidos e a conseguir-se ingerir no laboratório. É com grande constatação que recebemos a notícia”, acrescentou.

Citado pelo jornal The New York Times, o embaixador dos Estados Unidos em Portugal, John J. Arrigo, expressou, numa nota, as suas condolências à família de Nuno Loureiro, amigos e colegas. “Honramos a sua vida, a sua liderança na ciência e as suas contribuições duradouras”, afirmou.

Recebeu prémio de Biden e acreditava que energia de fusão podia mudar “a humanidade”

Segundo a página do MIT, Nuno Loureiro tinha “um interesse ativo em vários aspetos fundamentais da dinâmica do plasma magnetizado, tais como reconexão magnética, geração e amplificação de campos magnéticos, confinamento e transporte em plasmas de fusão e turbulência em plasmas fortemente magnetizados e fracamente colisionais”.

Estes estudos, explicou Bruno Gonçalves, têm o objetivo de “reproduzir as reações que ocorrem nas estrelas na Terra, com o objetivo de produzir energia elétrica“. No resultado dessa reação, surge o plasma, um “gás extremamente quente” que tem de ser controlado na fusão nuclear para poder eliminar a turbulência produzida e ajudar na produção de energia. O trabalho “muito importante” de Nuno Gonçalves, segundo Bruno Gonçalves, centrava-se na compreensão teórica dos fenómenos de turbulência.

Ao longo da sua carreira, o cientista recebeu vários prémios nos Estados Unidos, incluindo o Prémio Carreira da Fundação Nacional para a Ciência, em 2017, e foi um dos 400 galardoados com o Prémio Presidencial de Início de Carreira para Cientistas e Engenheiros, atribuído pelo então Presidente dos EUA, Joe Biden, em janeiro de 2025.

Pela sua investigação sobre a “reconexão magnética”, o professor recebeu um prémio da American Physical Society em 2015, pelas suas “contribuições notáveis no início da carreira para a investigação em física do plasma”. Esta reconexão magnética, contou Bruno Gonçalves, tem a ver com a forma como “os campos magnéticos e os plasmas” interagem no espaço e como “se recombinam quando estão presentes plasmas“.

Na entrevista ao MIT, Nuno Loureiro disse que as “implicações práticas” de estudar e entender o comportamento do plasma são “enormes”. Já sobre os estudos sobre a fusão nuclear, Loureiro disse ao IST em 2024 acreditar que esta era “um problema difícil, mas pode ser resolvido com determinação e engenho” e que a energia retirada “irá mudar o curso da história da humanidade”.