Mohammad Javad Vafaei-Sani, pugilista iraniano condenado à morte por pertencer a uma organização considerada ilegal pelo regime, enfrenta um risco de “execução iminente”, após o Supremo Tribunal de Justiça do Irão ter rejeitado o pedido para um novo julgamento, relatou a organização não-governamental Ativistas de Direitos Humanos no Irão (HRA), citada pelo The Guardian.
Vice-campeão nacional de boxe, Vafaei-Sani está preso desde 2020. A detenção ocorreu na sequência dos protestos de 2019, um dos períodos de maior contestação ao regime nos últimos anos. As autoridades acusaram-no de integrar uma organização de oposição ilegal no país, a People’s Mojahedin Organization of Iran, também conhecida como Mujaheddin-e-Khalq (MEK). Mais tarde, acabou por ser condenado por “corrupção no terreno”, uma acusação utilizada pelas autoridades para incriminarem dissidentes políticos.
Mais de 7.000 detidos por participarem nos protestos do Irão
Segundo a HRA, o processo foi esta segunda-feira transferido para o gabinete responsável pela execução das sentenças, um procedimento que, no Irão, costuma anteceder à marcação da execução. A mãe de Vafaei-Sani foi “inesperadamente autorizada” a visitá-lo na prisão, um sinal de que, segundo a mesma organização, “a situação deste prisioneiro político entrou numa fase altamente preocupante”.
Shahin Ghobadi, porta-voz do Conselho Nacional de Resistência do Irão (NCRI), o braço político do MEK, confirmou que o pugilista é membro da organização e que as autoridades tentaram forçá-lo a renegar essa ligação através do “uso intensivo de tortura”. “A execução da sua pena de morte pode ocorrer a qualquer momento”, acrescentou, sublinhando que o pugilista tem sido alvo de maus-tratos desde que foi detido.
Também Mahmood Amiry-Moghaddam, da organização não-governamental Iran Human Rights, alertou para o risco de “execução iminente”, denunciando que o pugilista foi “torturado para lhe arrancarem confissões à força”. A Amnistia Internacional já tinha classificado o julgamento como “extremamente injusto”, salientando que os tribunais iranianos “carecem de independência” e impõem penas severas.
Execução seria um “ataque direto aos valores fundamentais do desporto e da dignidade humana”
A decisão da Justiça iraniana gerou uma onda de indignação internacional. O Conselho Mundial de Boxe (WBC, na sigla inglesa), uma das principais federações internacionais da modalidade, apelou às autoridades iranianas para pouparem a vida do atleta. O presidente, Mauricio Sulaiman Saldivar, considerou que a eventual execução seria “um ataque direto aos valores fundamentais do desporto e da dignidade humana”, defendendo que “o boxe inspira coragem, respeito e superação, não punição política”.
No mês passado, mais de 20 atletas reconhecidos, como a ex-tenista norte-americana Martina Navratilova e a ex-nadadora britânica Sharon Davies, assinaram uma carta a instar os respetivos Governos a intervir para salvar Vafaei-Sani da execução.
O caso acontece numa altura em que a repressão no Irão se agrava. De acordo com a Iran Human Rights, mais de 1.500 pessoas foram executadas entre janeiro e setembro deste ano, o que mostra um aumento do recurso à pena de morte por parte do Governo iraniano.