Eram os últimos meses de Thomas Müller no Bayern após quase duas décadas como símbolo da formação de Munique, nem por isso o estado anímico do avançado era diferente do feitio brincalhão que sempre teve. A certa altura, num treino no final de abril quando os bávaros já estavam fora da Liga dos Campeões mas iam caminhando para a reconquista da Bundesliga, o internacional germânico ficou impressionado com aquilo que um jovem da formação como um dia ele também foi era capaz de fazer. “Se isto é 70% do teu melhor, és o jogador mais rápido que já vi”, atirou. Com 18 anos feitos há pouco tempo, ninguém passava ao lado daquilo que David-então-Santos era capaz. Uns meses depois, David-agora-Daiber fez a estreia pela equipa A.

Só faltavam esses minutos, o trabalho com as grandes estrelas do campeão alemão já vinha de trás. David Michael Santos Daiber tinha sido uma das três surpresas na convocatória de Vincent Kompany para o Mundial de Clubes, nos EUA, sendo destaque do clube pela rotina diferente de todos os companheiros por ter aulas ao mesmo tempo da competição na sala que habitualmente o treinador belga utilizava nas palestras. “Às vezes é uma situação excecional mas já estou habituado a esta dupla carga, é algo que exige disciplina. Quero ter notas boas e sólidas, não apenas passar. Todos nós queremos ser jogadores profissionais mas, se alguma coisa correr mal, é importante termos as nossas valências no bolso”, apontou o médio defensivo nessa reportagem que juntava o professor Fabian Cichlar, o companheiro Cassiano Kiala e a agora estrela Lennart Karl, com quem partilhava aulas de matemática, inglês, arte e teoria desportiva, entre outras.

Foi em Orlando que o internacional português Sub-19 se começou a consolidar mais a sério no conjunto A do Bayern, vivendo a primeira grande experiência pelos bávaros ao mesmo tempo que preparava os seus exames finais do secundário no Sportgymnasium München-Nord. Agora, no último encontro do ano civil de 2025, chegou a estreia em competições oficiais, neste caso a Bundesliga. Mas quem é David Daiber?

À semelhança do companheiro de equipa e compatriota Raphael Guerreiro, que se sagrou campeão europeu em 2016 e vencedor da Liga das Nações em 2019 por Portugal, o médio nasceu fora do país, no Luxemburgo, mudou-se ainda novo com a família para a Alemanha mas optou por representar a Seleção Nacional apesar de ter também nacionalidade germânica. Começou no futebol no TSV Milbertshofen mas não demorou a entrar no sistema de formação do Bayern, fazendo todos os escalões a partir dos nove anos nos bávaros em vários momentos como capitão de equipa. Nesta altura, treina integrado com a equipa A mas vai descendo aos Sub-19 em determinados momentos, nomeadamente nos seis encontros da Youth League.

As expetativas, essas, estão em alta. Além da estampa física que impressiona (1,85m), David Daiber tem sido destacado pelo próprio clube pela inteligência, pela capacidade de passe, pelo controlo dos momentos de jogo e pelo espírito de liderança – é por isso que a Bundesliga o compara com Joshua Kimmich, jogador polivalente várias vezes considerado um dos melhores médios do mundo mas que pode também alinhar como lateral direito. A par dessa evolução no clube, Daiber foi sendo chamado às Seleções de Sub-17, Sub-18 e Sub-19, participando com presenças em cinco dos seis jogos no Campeonato da Europa de Sub-17 do ano passado, em que Portugal foi superando todas as fases da prova até ser derrotado na decisão pela Itália.

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Agora, o nome de David Daiber saltou ainda mais para a ribalta por ter sido opções de Vincent Kompany na goleada do Bayern frente ao Heidenheim, entrando aos 72′ para o lugar de Raphael Guerreiro. “O Daiber e o [Cassiano] Kiala têm treinando connosco há quase oito meses. Eles estiveram sempre a competir contra jogadores como o Harry Kane ou o Kimmich nos treinos e ganharam experiência. Sabíamos que podíamos confiar neles”, comentou o belga, a propósito de uma semana atípica onde não teve à disposição nomes como Kimmich, Kim Min-jae, Pavlovic, Laimer, Neuer, Sacha Boey, Nicolas Jackson ou Musiala (este lesionado há mais tempo, depois da grave lesão contraída no Mundial de Clubes).

“Esta semana pareceu uma semana de Covid. O pessoal ficou todo doente, uns atrás dos outros. Os outros rapazes treinaram bem e fizeram um trabalho muito bom hoje [domingo]. Estou orgulhoso da equipa, porque vir aqui e fazer uma exibição destas não é um dado garantido. Os jogadores jovens têm treinado connosco há algum tempo e era claro que iríamos precisar deles a dada altura”, acrescentou o técnico do atual líder da Bundesliga com nove pontos a mais do que o B. Dortmund, que ocupa também a segunda posição da primeira fase da Liga dos Campeões e está nos quartos da Taça da Alemanha.