O cantor espanhol Julio Iglesias enfrenta acusações de abuso sexual por parte de uma trabalhadora doméstica e de uma fisioterapeuta, reveladas numa investigação conjunta do elDiario.es e da Univisión. Mais de quatro anos depois, com o apoio da organização internacional Women’s Link Worldwide, as duas mulheres apresentaram queixa contra o famoso cantor, confirmou o Ministério Público espanhol citado pelos dois órgãos noticiosos.
A ministra espanhola da Igualdade, Ana Redondo, pede uma “investigação até ao fim” aos alegados abusos: “Diante do sexismo, não podemos fechar os olhos, porque a negação só intensifica o problema. Sem questionar a presunção de inocência, em Espanha a lei protege as vítimas”, escreveu Ana Redondo numa publicação na rede social X.
Ante el machismo, no se puede mirar para otro lado porque la negación intensifica el problema. Espero que se investigue y se llegue hasta el final. Sin cuestionar la presunción de inocencia, en España la ley protege a las víctimas. Cuando no hay consentimiento, hay agresión ???????? pic.twitter.com/meNntpGLje
— Ana Redondo (@_anaredondo_) January 13, 2026
Outras figuras políticas espanholas reagiram ao caso. Yolanda Díaz, a vice-presidente do Governo espanhol, ministra do Trabalho e dirigente do Somar, falou na rede social Bluesky de “testemunhos arrepiantes” e numa “situação de escravatura, com uma estrutura de poder baseada na agressão permanente”.
Escalofriantes testimonios de las extrabajadoras de Julio Iglesias. Abusos sexuales y una situación de esclavitud con una estructura de poder basada en la agresión permanente. Gracias a las mujeres valientes y a las periodistas de @eldiario.es por denunciarlo. www.eldiario.es/cultura/extr...
— Yolanda Díaz (@yolandadiaz.bsky.social) 13 de janeiro de 2026 às 11:27
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Os eventos relatados pelas duas mulheres terão ocorrido entre janeiro e outubro de 2021, quando ambas trabalhavam nas mansões do cantor em Punta Cana (na República Dominicana) e Lyford Cay (nas Bahamas). Segundo as alegadas vítimas, Iglesias, então com 77 anos, submetia as empregadas a um ambiente de assédio, abuso, humilhação e controlo permanente, pressionando-as a realizar atos sexuais.
Ao elDiario.es e à Univisión Noticias, uma das mulheres disse sentir-se “como um objeto, como uma escrava”. Os encontros — quase sempre acompanhados pela presença e participação de outra funcionária, de posição hierarquicamente superior à empregada — ocorriam no quarto do cantor, que a chamava no fim do dia. A visada descreveu atos de penetração não consentidos, agressões e abuso físico e verbal.
“Não tinha a opção de dizer não”, reconhece Rebeca (nome fictício), a dominicana orfã de mãe, que tinha então 22 anos, teria começado a trabalhar como empregada doméstica há pouco tempo: “O meu sonho era construir uma casa para o meu pai”. Laura, nome fictício da fisioterapeuta de 27 anos à data, assume ter conseguido dizer “não” “até certo ponto”. “Mas havia jovens que não conseguiam dizer ‘não’. E ele fazia com elas o que queria”, garante ainda.
Para Laura, “a casa de sonho” que viu no primeiro dia rapidamente se tornou uma “pequena casa do terror, porque é um pesadelo — algo verdadeiramente horrível”, conta. Mesmo gozando de um estatuto superior e de melhores condições de trabalho relativamente às empregadas domésticas, a fisioterapeuta descreve um ambiente desconfortável, de “normalização do abuso”, que mantinha os trabalhadores “num estado constante de alerta”. Segundo relata ao elDiario.es e à Univisión, Iglesias exercia um controlo apertado e incutia medo.
O controlo seria exercido sobre a quantidade de comida servida às funcionárias, em forma de perguntas íntimas, incluindo sobre o período menstrual (“nesses dias não me metia os dedos, mas havia relações”, conta Rebeca), e implicava ainda inspeções a telemóveis, a proibição de saída apenas para as empregadas mulheres durante as restrições impostas pela Covid-19 (que na altura apenas condicionavam a circulação noturna).
O método de recrutamento começava com anúncios nas redes sociais, oferecendo trabalho doméstico com alojamento, destinado a mulheres jovens com idades compreendidas entre os 25 e os 35 anos, afirmam as antigas funcionárias entrevistadas pela investigação. Durante o primeiro contacto, a responsável pelas contratações solicitava fotografias do rosto e do corpo inteiro. Pouco tempo depois de chegarem, Laura e Rebeca recordam que Julio Iglesias lhes colocava questões íntimas. “Gostas de mulheres?”, “gostas de orgias?” ou “já fizeste cirurgia às mamas?”. Em diversas ocasiões, terá pedido para ver e tocar nos seios das empregadas e Laura conta que lhe apertava mesmo com força os mamilos.
Tudo aconteceria com o conhecimento das mulheres responsáveis pela administração da casa e contratação de funcionários, que os dois jornais tentaram contactar, sem sucesso. Mas uma supervisora apontada por Rebeca, que aceitou o pedido de comentário, descredibilizou os relatos das ex-funcionárias, afirmando só sentir “gratidão, admiração e respeito” por Iglesias, um homem que descreveu como “humilde, generoso, um grande cavalheiro e muito respeitoso com todas as mulheres”.
Os depoimentos das duas mulheres, corroborados por documentação variada, são consistentes com os outros relatos ouvidos pelo elDiario.es e pela Univisión durante a investigação jornalística de três anos que contactou 15 ex-funcionárias que trabalharam para Iglesias entre o final da década de 1990 e 2023.
O cantor, um dos artistas espanhóis mais populares do mundo, nunca respondeu às tentativas de contacto encetadas pelas publicações em diversas ocasiões e por várias vias.