De final em final à espera do que dê para conseguir no final. O Benfica não tinha propriamente um calendário fácil em janeiro mas os resultados negativos, entre o empate em Braga no Campeonato (neste caso ainda nos derradeiros dias de 2025) e as derrotas na Taça da Liga e na Taça de Portugal, vieram adensar a relevância de todos os compromissos dos encarnados. A Liga dos Campeões, claro, não era exceção. E, mesmo assumindo que poderia haver um qualquer milagre com máquina de calculadora pelo meio na última jornada frente ao Real na Luz, a equipa estava quase obrigada a no mínimo pontuar em Turim frente à Juventus para dar uma continuidade à recuperação dos quatro desaires iniciais a que se seguiram os triunfos com Ajax e Nápoles. Mais: essa ideia de “continuidade” aplicava-se também ao que aconteceu em Vila do Conde com o Rio Ave, onde a aposta num plano que deu uma maior largura ao jogo deu sinais importantes para o futuro.

Juventus-Benfica. Águias querem somar terceira vitória na Champions para manterem sonho do playoff

“Alterações no último jogo? Não me diga que durante uma semana, com tantos programas e especialistas, não debateram isso o suficiente… Eu bem sei que houve eleições para a Presidência da República e que houve um descanso mas debate-se tanto, tanto, tanto que não acho que haja necessidade de explicar muita coisa…”, ironizara José Mourinho no lançamento da partida, agarrando no exemplo de Sudakov para desfazer alguns “mitos” criados. “O Benfica já vinha a fazer alguns bons jogos há algum tempo. Se forem ver os mapas de posicionamentos do Sudakov, de quem falaram tanto, não varia muito entre os jogos onde ele jogou mais como um 10 de referência ou da ala. As suas áreas de ação são praticamente as mesmas. Mas também há algo fundamental: procuramos uma identidade,de acordo com os jogadores que temos à nossa disposição. Agora, com todo o respeito pelo Rio Ave, a Juventus é a Juventus”, acrescentara o treinador.

Sobre o jogo, uma “receita” já antes usada: relativizar o que não deixa de ser relevante, num esvaziar de mais pressão além daquela que existe por ser o Benfica. “É uma final mas como todas. Olhando para a classificação e pontos que normalmente são necessários para a qualificação, obviamente que o Benfica precisa de pontos. Não consigo dizer se são de três, quatro ou cinco, não faço a mínima ideia. Se o empate fosse suficiente para nós, teríamos algumas amarras do ponto de vista psicológico. Não temos. Sabemos contra quem jogamos e onde jogamos. Vamos tentar ganhar e depois veremos o que faltará para nos podermos qualificar no último jogo”, resumira. “Spalletti disse algo lindo, que jogar contra o Benfica é como jogar contra um pedaço da história. Agradecemos muito essas palavras”, apontara, entre elogios à “cultura tática, qualidade e futebol associativo e veloz” da Juventus do homólogo Luciano Spalletti, “que é um treinador muito bom”.

“Os jogadores do Benfica sabem o que é ser jogador de equipa grande. Com menos ou mais qualidade, com menos ou mais experiência, quem veste a camisola do Benfica sabe que tem de dar a cara. No nosso grupo, quando olhei a cabeça para trás no avião, pensei que era treinador da equipa B porque estão connosco oito jogadores da equipa B e isso significa também as nossas dificuldades com tantas lesões que temos. Mas isto é Benfica. Queremos chegar ao último jogo com possibilidades de nos qualificarmos. Foi o que fizemos frente ao Ajax e Nápoles. O objetivo é sairmos com a qualificação aberta para o último jogo. Se me perguntar se quero jogar bem ou ganhar, digo que quero ganhar mas, por norma, o que dá possibilidades de ganhar é jogar bem. Depois, pode haver a questão sobre o que significa jogar bom futebol… Como disse, prefiro jogar mal e ganhar do que jogar bem e perder mas não acho possível jogar mal e ganhar”, assumiu.

Estavam lançados os dados para uma partida que seria marcada por um regresso às opções, neste caso a partir do banco de suplentes, de Bruma. Com Rafa a aterrar em Lisboa ao final da manhã, a recuperação do internacional português após a grave lesão contraída no início da temporada foi mais rápida do que esperado e possibilitava o cumprir de uma promessa feita… há dez ou 15 anos. “Fez um grande trabalho com a sua gente, um grande trabalho para recuperar. O que tem de fazer agora é de fazer aquilo que me prometeu há uns anos, quando jogou contra mim, fez um golo e no final disse-me ‘Levas-me para uma equipa tua e vou marcar golos para ti’. Agora tem a oportunidade”, recordou antes de um jogo que “adiou” a estreia.

Porquê? Pouco ou nada havia a fazer quando o encontro entrava na fase em que Bruma podia trazer algo de novo. Apesar de ter estado por cima em vários momentos do jogo, apesar de ter colocado a Juventus a falhar passes atrás de passes no seu primeiro terço, o Benfica não foi eficaz no aproveitamento dessas fases em que esteve por cima, falhou demasiado no último passe e teve dez minutos de total paragem em campo que os italianos aproveitaram para fazer o resultado final com dois golos. Nem de penálti aquilo que estava mal melhorou, com Pavlidis a escorregar na hora do remate e a atirar a bola para a bancada. O cenário fica demasiado complicado em termos de continuidade na Champions e, no limite, nem mesmo uma vitória frente ao Real Madrid no fecho desta fase pode chegar. Afinal, este foi o jogo que resumiu quase toda uma campanha na Europa: o que nasceu torto, tarde ou nunca se endireita (a não ser com um milagre). E vários daqueles males que ficaram expressos na derrota inicial com o Qarabag ainda hoje continuam a aparecer, a começar pela (falta de) profundidade do plantel na época com maior investimento de sempre no clube.

Ficha de jogo

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Juventus-Benfica, 2-0

7.ª jornada da Liga dos Campeões

Juventus Stadium, em Turim (Itália)

Árbitro: Serdar Gözübüyük (Países Baixos)

Juventus: Di Gregorio; Kalulu, Bremer, Kelly, Cambiaso (Juan Cabal, 70′); Thuram, Locatelli (Koopemeiners, 87′), McKennie, Miretti (Francisco Conceição, 46′); Yildiz (Filip Kostic, 82′) e Jonathan David (Openda, 70′)

Suplentes não utilizados: Perin, Pinsoglio, Gatti, Zhegrova, Adzic, João Mário e Rouhi

Treinador: Luciano Spalletti

Benfica: Trubin; Dedic, Tomás Araújo, Otamendi, Dahl; Aursnes, Leandro Barreiro; Prestianni (João Rêgo, 77′), Sudakov (Enzo Barrenechea, 69′), Schjelderup (Ivanovic, 69′) e Pavlidis

Suplentes não utilizados: Diogo Ferreira, António Silva, Bruma, Manu Silva, Daniel Banjaqui, José Neto, Gonçalo Oliveira, Rodrigo Rêgo e Diogo Prioste

Treinador: José Mourinho

Golos: Thuram (55′) e McKennie (64′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Locatelli (49′) e Kelly (89′)

A vantagem no plano histórico caía por completo para a equipa do Benfica, que não perdia com a Juventus há 33 anos e ganhou sete dos nove duelos oficiais entre os dois conjuntos, o encontro começou com a vantagem “prática” da Vecchia Signora. Porquê? Dentro dos habituais altos e baixos, que tão depressa “atropela” uma Cremonese como perde em Génova sem marcar qualquer golo, a formação de Spalletti conseguia fazer uma pressão consistente em zonas altas e apresentava uma reação à perda que condicionava e muito a capacidade de saída dos encarnados. Ainda assim, e na primeira vez que conseguiu contrariar esses processos, o Benfica teve o primeiro remate enquadrado do jogo com Sudakov a arriscar a meia distância para defesa segura de Di Gregorio (8′). Logo na resposta, no minuto seguinte, Yildiz conseguiu uma recuperação descaído sobre a esquerda, conseguiu fazer a diagonal para o meio e atirou colocado para grande defesa de Trubin (9′).

A partir daí, o jogo foi ganhando um cariz diferente. O Benfica assumiu mais bola, foi “secando” as saídas da Juventus com uma pressão em zona intermédia mas não conseguiu desfazer o jogo sem balizas que só tinha Yildiz a remar contra a maré, com mais um remate no movimento esquerda para o meio que saiu perto do poste da baliza de Trubin (18′). Esse crescendo dos encarnados ganhou volume ofensivo quando as zonas de pressão acertavam na saída dos bianconeri e foi assim que nasceu a melhor oportunidade do encontro em toda a primeira parte, com Schjelderup a ir ao meio fazer a interceção, Sudakov a rematar rasteiro de pé esquerdo para grande defesa de Di Gregorio e Kelly a conseguir ainda evitar a recarga de Pavlidis (23′). Ainda houve nessa fase uma tentativa de meia distância de Prestianni por cima mas os encarnados estavam numa zona de conforto que lhes permitia ter outra capacidade de construção e chegada ao último terço (26′).

A partida caminhava para o intervalo com o Benfica sem a mesma capacidade de acelerar jogo e a Juventus a mostrar mais uma vez aquilo que há muito parece (ou que há muito padece): um conjunto de jogadores com qualidade, que em alguns casos não jogam na posição onde mais podem render e que, como equipa, tem falta de largura por todos os comportamentos de quem devia jogar mais por fora. Miretti ainda teve um desvio de cabeça por cima na sequência de um canto (36′), Sudakov tentou de livre direto descaído sobre a direita com a bola a bater na barreira e a sair para novo canto que não trouxe perigo (42′) e a primeira parte terminou de forma quase inevitável sem golos. Spalletti manifestara por várias ocasiões a sua irritação com a equipa, Mourinho gostava do que via e o Benfica chegava ao descanso com “meia missão” cumprida em Turim.

A entrada de Francisco Conceição para o lugar de Miretti tornou-se inevitável, com McKennie a derivar para posições mais centrais onde tem muito mais rendimento, mas foram os encarnados a entrar de novo melhor na partida com Pavlidis a ameaçar num remate desviado num defesa que saiu para canto. A Juventus estava perdida no jogo, falhou três passes consecutivos à saída da sua área sem que os encarnados tivessem depois a melhor definição do último passe de finalização, os assobios dos transalpinos eram cada vez mais audíveis, a bola entrou uma primeira vez em Francisco Conceição. Bastou isso, e só isso, para num par de minutos tudo mudar de figura: Kalulu foi lançado pelo português para fazer o cruzamento rasteiro para a área e McKennie rematar de primeira para grande defesa de Trubin (54′), o lance deu alento à Vecchia Signora e uma pressão feita sobre Jonathan David e Thuram sobre Tomás Araújo forçou a perda de bola do central em zona proibida para o médio francês puxar a bola para dentro e rematar rasteiro sem hipóteses para Trubin (55′).

Bastou um abanão de Francisco Conceição a ir buscar a bola entre linhas para o Benfica tremer, bastou um erro no primeiro terço para ficar em desvantagem, bastou sofrer um golo para ficar perdido alguns minutos no encontro. A Juventus, qual equipa italiana à moda antiga, limitou-se a aproveitar: McKennie e Jonathan David combinaram entre cinco jogadores dos encarnados, o canadiano isolou o norte-americano na área e, no frente a frente, o médio não deu hipóteses e aumentou para 2-0 (64′). Em pouco menos de dez minutos, frente a uma equipa que tinha apenas dois lances individuais de Yildiz como principais momentos ofensivos, o Benfica passava a ter dois golos de desvantagem. Quando se recompôs, tudo correu ainda pior.

Aursnes deu o mote para a tentativa de recuperação mas, num desvio de cabeça na área após canto, acertou no poste (69′). Pouco depois, e apesar da pressão que tinha atrás por parte de um adversário, Dedic teve um corte sem sentido que se dirigiu para a própria baliza e só não entrou pela ação a meias entre Trubin e o poste (75′). À entrada dos dez minutos finais, já com Ivanovic, Enzo Barrenechea e João Rêgo em campo, Leandro Barreiro sofreu uma falta na área de Bremer mas Pavlidis escorregou no momento de bater o penálti, tendo um míssil para as bancadas do Juventus Stadium (81′). Tudo corria mal ao Benfica e o tempo também não dava tréguas, com Enzo Barrenechea a ter uma última tentativa para defesa de Di Gregorio (90+2′).