Não houve propriamente um pré-anúncio de negócio feito, todos os sinais eram demasiado evidentes para se perceber que a segunda contratação do mercado de inverno estava (literalmente) a caminho de Lisboa. Ainda existiu uma pequena mudança nos planos originais, com o avião que transportava Rafa a ser desviado para o aeroporto Humberto Delgado em vez de aterrar em Tires pelas más condições climatéricas, mas o jogador aterrou na capital esta quarta-feira apesar de não ter sido visto à saída (ao contrário do que aconteceu com o representante, a namorada e o cão) e realizou os habituais exames médicos. Ao mesmo tempo, soube-se que Bruma, regressado de lesão, passara a envergar a camisola 7, deixando o número 27 em aberto para o futuro reforço. Depois dos avanços e recuos, tudo chegou ao fim e o avançado foi anunciado pelo Benfica.

Custou 16 milhões em 2016, saiu a custo zero em 2024, está a ser negociado de novo por 5 a 7 milhões: Rafa mais próximo da Luz

Apenas 18 meses depois de deixar o clube a custo zero, Rafa assinou contrato até junho de 2028 pela equipa encarnada, tornando-se assim o segundo reforço do plantel agora orientado por José Mourinho nesta janela do mercado de transferências após Sidny Lopes Cabral, lateral/ala cabo-verdiano contratado ao Estrela da Amadora no início do ano num negócio que terá sido consumado por um valor a rondar os seis milhões de euros mais 2,5 milhões por objetivos desportivos (com o conjunto da Reboleira a ficar com 10% dos direitos económicos de uma futura transferência). No caso do internacional português, e apesar das exigências feitas pelo Besiktas, o Benfica terá desembolsado cinco milhões com possível bónus de mais 1,5 milhões.

Ainda assim, e para a concretização final de toda a operação, a posição de Rafa acabou por ser determinante. Depois de ter recusado as últimas investidas da SAD encarnada para renovar contrato em 2024, havendo um desencontro de verbas entre aquilo que o Benfica estava disposto a pagar e aquilo que o avançado pretendia para estender o vínculo, o jogador de 32 anos aceitou agora regressar com o mesmo salário que tinha quando deixou a Luz após a temporada de 2023/24: 2,2 milhões de euros líquidos por época. Desta forma, e tendo em conta os seis milhões limpos que tinha de ordenado no Besiktas, Rafa abdicou de 1,9 milhões referentes à diferença dos últimos seis meses de 2025/26 mais 3,8 milhões relativos à temporada de 2026/27, num total de 5,7 milhões de euros. Em contrapartida, o avançado garante também mais um ano de contrato do que teria caso se mantivesse na formação turca, ficando com uma ligação ao Benfica até junho de 2028.

Rui Costa, presidente dos encarnados, teve também um papel preponderante em toda a operação pela boa ligação que sempre teve com o jogador. Aliás, também de acordo com o que o Observador apurou, Rafa só não saiu antes do Benfica, mais concretamente em 2023, porque o líder do clube da Luz conseguiu persuadir o avançado a recusar uma oferta milionária que tinha chegado do Qatar, e que permitiria também a entrada de dez milhões de euros nos cofres encarnados, mesmo estando na antecâmara do último ano de contrato. A parte final das negociações passou por Mário Branco, diretor geral que passou pelo futebol turco (neste caso no Fenerbahçe) e que negociou com os dirigentes do Besiktas as condições para a transferência. Rui Costa percebeu o lado do jogador durante as tentativas de renovação de contrato, ficando com essa ideia de que, acima de qualquer oferta monetária, o desejo de Rafa era ter a primeira experiência fora do País. Foi isso também que permitiu que fosse fácil haver um interesse que permitisse o regresso 18 meses depois.

Foi alcançado um acordo relativo à transferência definitiva do nosso jogador de futebol profissional Rafael Alexandre Fernandes Ferreira da Silva para o clube SL Benfica”, comunicou o Besiktas à Plataforma de Divulgação Pública da Turquia sem revelar os valores envolvidos.

“”Acho que na altura, quando me despedi, disse que me ia custar imenso a minha saída do Benfica, mas ponderei muito, achei que era um ciclo que devia fechar na altura, que estava na minha hora de ir, que precisava de outro tipo de aventura neste caso para continuar a minha vida. Basicamente, continuo o mesmo. Saudades de casa, queria voltar para casa. Surgiu uma possibilidade há poucos dias de isso acontecer e foi isso que acabou por acontecer. E estou muito grato por estar aqui e por estar de volta. Objetivos? Quero conquistar títulos, trabalhar todos os dias para ser melhor e para sermos uma nova equipa”, salientou o novo (velho) número 27 dos encarnados, na primeira entrevista depois do regresso aos meios oficiais do clube.

Contratado ao Sp. Braga no verão de 2016 depois de ter sido campeão europeu por Portugal (viria ainda a ganhar uma Liga das Nações, em 2019, antes de anunciar a sua retirada da Seleção), num negócio avultado na altura de 16,4 milhões de euros mais jogadores, Rafa tornou-se um dos jogadores mais marcantes do Benfica nas últimas duas décadas. Ganhou três Campeonatos, uma Taça de Portugal e três Supertaças em oito épocas na Luz, realizou um total de 326 jogos entre provas nacionais e competições europeias com 94 golos e 67 assistências. Em termos de carreira, o avançado tinha ganho também uma Taça de Portugal aos minhotos frente ao FC Porto em 2016 e conquistou agora uma Supertaça da Turquia pelo Besiktas.

“É difícil quando tens de abandonar uma coisa que foi a tua casa durante tanto tempo, não é? Oito anos… As pessoas pensam que é fácil termos de ir embora, abandonar, que isto é só um trabalho, mas passamos tanto tempo aqui, com estas pessoas, neste relvado, que isto torna-se uma coisa da nossa vida e é sempre difícil. Saio todo contente porque sei que fiz o meu trabalho e as pessoas que vou deixar para trás são amigas e que considero muito na minha vida. Homenagem? Nenhum jogador joga para homenagens, joga para se evidenciar. Nunca quis câmaras, nunca quis prémios, nunca quis nada disso. Não tive interesse, nunca vou ter interesse nisso. O meu interesse sempre foi que as pessoas gostassem de mim como homem, pelo meu caráter, pelo que eu sou, não pelo Rafa jogador. Uns gostam, outros não, isso faz parte da vida, mas as homenagens não são para mim. Não quero nada disso”, confidenciou na despedida aos órgãos do clube.

“As pessoas não têm muita noção do que são oito anos num clube e acho que é isso que senti nesse momento da despedida. ‘Ok, isto está a acontecer, está na minha hora, decidi que assim o fosse. Mostra que tenho uma grande família, fora da família que tenho em casa, e sempre disse isso. Para mim o mais importante serão sempre as conexões que faço e não o que faço como jogador, porque isso a mim não me interessa muito. Teria de sair e iria sair pelo meu pé. Estava a bater tudo certo: a estreia foi contra o Arouca, em Arouca, a despedida foi contra o Arouca, agora em casa… Acho que foi uma coisa perfeita”, acrescentou.

Depois de uma primeira temporada no Besiktas onde rapidamente se tornou um indiscutível da equipa, com 18 golos e 12 assistências em 49 jogos entre Liga, Taça, Supertaça e Liga Europa, a presente época até teve um bom arranque (cinco golos e três assistências em 16 partidas) que foi quebrado a partir do início de novembro, altura em jogador e clube entraram em choque e não mais o avançado voltou a ser utilizado. Agora Rafa começará a ter minutos para regressar ao melhor momento, sendo que Mourinho pode ter ainda mais caras novas nesta reabertura do mercado de transferências para alcançar os dois objetivos ainda em cima da mesa: fintar as probabilidades desfavoráveis em continuar na Liga dos Campeões, num cenário que será conhecido na próxima semana, e subir na classificação do Campeonato, numa altura em que a equipa encarnada está a dez pontos do líder FC Porto e a três do segundo classificado da prova, o Sporting.