O que para uns seria uma extravagância, para ela funcionava como armadura. “Não sou bonita”, e apesar disso “proeminente”, admitia Isabella Blow, que encontrou no guarda-roupa e na performance de cada acessório um precioso aliado da autoestima e da afirmação pessoal. Legítima herdeira de uma linhagem de excêntricos ingleses, a antiga editora de Moda vai ter direito a um filme sobre a sua vida, legado e atribulações. Não estará cá para assistir ao resultado de Queen of Fashion, o biopic realizado por Alex Marx e interpretado por Andrea Riseborough. Em 2007, depois de insistentes ameaças e porfiados esforços, tirou a própria vida. Fiel ao seu estilo, o funeral foi um exótico cortejo, com uma exibição de chapelaria digna da icónica defunta.
Numa era de decalques, ousadia minguante, uniformização crescente, Blow servia o desalinho de um espírito inquieto e um transtorno bipolar. Sempre com um armário espetacular e uma personalidade tão inesperada quanto o recheio das suas gavetas. Em 1992 comprou na totalidade a coleção de um então debutante Alexander McQueen. As 5 mil libras foram pagas num acordo mensal de suaves prestações de 100. Mas foi a montra de headpieces que mais deixou marca, cada qual mais escultural e extravagante que a anterior. Para não falar de momentos desconcertantes como o dia em que foi a uma festa dos duques de Kent com uma gargantilha onde se lia “Blowjob” (dispense-se a tradução). Mas nem os Kent falharam as suas cerimónias fúnebres, na catedral de Gloucester.
▲ Isabella Blow, Stella Tennant and Betty Catroux no desfile primavera 2004 de Yves Saint Laurent
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Há quase nove anos que Marx está envolvido no projeto, atualmente em fase de pós-produção, e ainda sem data de lançamento. A Riseborough juntar-se-ao no elenco Stacy Martin (no papel da amiga de infância, socialite e ícone de moda Daphne Guinness); Fionn O’Shea como Philip Treacy; ou Michelle Dockery como a antiga editora da Vogue britânica Alexandra Shulman. Enquanto aguardamos, vale a pena recordar os passos de quem garantiu um lugar na galeria de aves raras britânicas, em tempos fotografadas por Tim Walker. O público via-a como uma figura excêntrica, apesar de Isabella não apreciar o termo. “O seu humor e visão eram excêntricos, mas o seu cérebro realmente não era”, notou o decorador Nicky Haslam à Vanity Fair. “A maioria dos excêntricos é um monte de aparências, e um tédio terrível. Como Diana Vreeland, Issie podia pensar de uma forma surreal.”
A infância aristocrática marcada pela tragédia
Diz-me de onde vens... No caso de Isabella Delves Broughton, nascida em Marylebone, Londres, em 19 de novembro de 1958, nunca o passado ajudou tanto a enquadrar o futuro. Filha mais velha do major Evelyn Delves Broughton, um oficial militar, e da sua segunda mulher, Helen Mary Shore, uma advogada, Broughton cresceu em Staffordshire, Inglaterra, com suas duas irmãs, Julia e Lavinia, e o seu irmão, John, numa pequena casa perto de Doddington, um castelo ancestral nos 35.000 hectares de terra em Cheshire que pertenciam à sua família desde o século 14. O monumento haveria de ser vendido quando o seu polémico avô, Sir Henry “Jock” Delves Broughton, gastou a fortuna no jogo e em investimentos pouco sensatos. Em 1940, no rescaldo destes acontecimentos, fugiu para o Quénia com a jovem mulher, Diana, e foi julgado pelo assassinato do seu amante, o Conde de Erroll. Jock acabou por ser absolvido, mas não escapou à difamação nas páginas da imprensa e no círculo de amigos. Em 1942, suicidou-se num quarto de hotel em Liverpool, um desfecho narrado no livro e no filme de 1987, White Mischief.
Já a avó de Isabella, Lady Vera Delves Broughton, deu a volta ao mundo oceano fora e passou à história como canibal depois de ter provado um churrasco na Papua Nova Guiné, que se veio a saber ser de carne humana. Em Blow by Blow, a biografia de Isabella que o marido haveria de lançar em 2010, fica claro que a editora acreditava ter herdado os genes depressivos do avô, e o encanto pela moda da sua avó.
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A lista de tragédias entre os Broughton foi extensa, a começar pela morte do irmão John, com apenas dois anos, em 12 de setembro de 1964. Com a ama fora, e Isabella recrutada para tomar conta da criança, enquanto a mãe subira ao quarto para pôr batom, uma queda na piscina seguida de uma paragem de digestão resultou fatal. O episódio haveria de perseguir Isabella pelo resto da vida e de fraturar por completo a harmonia familiar. “Lembro-me de tudo. O cheiro da madressilva e ele esticado no relvado”, descreveu à Vanity Fair. Recordou também como após a morte do irmão os pais perderam todo o interesse nas restantes filhas. Pouco depois foram enviadas para um colégio interno, Heathfield. Blow tinha 14 anos quando foi informada por carta de que os pais iriam divorciar-se. Mais tarde, a mãe alinhou as filhas no jardim da propriedade em Staffordshire e despediu-se friamente, com um aperto de mão a cada adolescente, algo que Isabella haveria de ressentir vida fora. Os anos que se seguiram, com o pai e a agora madrasta, não foram melhores. De tal forma que quando o pai morreu, em 1993, deixou-lhe umas meras 5 mil libras de uma fortuna avaliada em cerca de seis milhões.
Pau para toda a obra e os anos nos EUA, entre Wintour e Basquiat
Qual regra não escrita, em solo britânico o sangue azul continua a ser azul mesmo que as veias se ocupem de profissões menos glamorosas. Quando obteve a qualificação do ensino médio Inglês necessária para ir para o ensino superior, e um curso de secretariado, Isabella acumulou os mais variados empregos em Londres. Tanto trabalhou numa loja de scones como nas limpezas. E o seus looks já prometiam desconcerto.
Em 1979, aos 21 anos, mudou-se para Nova Iorque para estudar Arte Chinesa antiga na Universidade de Columbia. Seguiu para o Texas, onde trabalhou brevemente para o designer Guy Laroche. Pelo caminho, casou-se e divorciou-se de Nicholas Taylor, um inglês que planeava fazer carreira na área do petróleo, sem grande sucesso. Foi de volta à cidade que ganhou a fama de nunca dormir que travou amizade com Andy Warhol e Jean-Michel Basquiat, movendo-se na cena vanguardista de Nova York. O músico e amigo Bryan Ferry apresentou-a a Anna Wintour, então diretora da edição americana da Vogue, nomeada editora-chefe em 1988. Em 1982 acabou contratada como assistente de Wintour.
“Ela apareceu no corredor com uma mantilha de renda preta, parecia um cruzamento entre uma mulher numa pintura de El Greco e Alice Cooper”, descreveu à Vanity Fair, em 2014, Evgenia Citkowitz, então também assistente na Vogue. “Lavava a secretária com Perrier. Ela era completamente barroca em comparação com os seus colegas de trabalho — eles pareciam andróides no seu uniforme chique.” Blow conjugava como ninguém umas meias de rede com um clássico blazer Chanel, sempre com o fator surpresa subjacente a cada aparição. Outro complemento? Basquiat sentado ao seu lado, qual dama de companhia de luxo. “Adorava vir à redação porque nunca sabíamos o que esperar”, dizia Anna Wintour sobre a antiga colaboradora, cujos visuais diários eram por si só uma festa. “Um dia aparecia vestida de marajá, no outro de punk, ou então de clássica secretária com tailleur e luvas”. A aventura de Isabella durou quatro anos e incluiu trabalhar diretamente com outro pioneiro entretanto desaparecido, André Leon Talley. O desejo de regressar a Inglaterra impôs-se. Em 1986 chegava à Tatler, passou para a Vogue, e a partir de 1997 rumou à revista The Sunday Times Style, antes de regressar à Tatler como diretora de moda.
Na Style, os antigos editores recordam como o diretor do jornal vivia “aterrorizado” com a ideia de conhecer em pessoa a extravagante responsável pela moda. É que um comum fashionista pode vestir-se da cabeça aos pés com as últimas tendências e etiquetas, mas isso não podia interessar menos a Blow. A expressão dramática e a originalidade sobrepunham-se à originalidade das tendências. “A maioria das pessoas na moda adora estar ligada a pessoas que já têm sucesso. A Issie entusiasmava-se por descobrir pessoas”, definia a amiga Ronnie Newhouse, mulher do presidente Condé Nast International Jonathan Newhouse.
De Treacy a McQueen, a caçadora de talentos que acabou na sombra
Os amigos chamar-lhe-iam Issie, a influente figura que abriu caminho para inúmeros talentos, acabando por pairar ela própria na sombra, provavelmente incompreendida pela maioria, que escarnecia de tanta originalidade. Mas o arquivo é claro sobre o impacto, os editoriais lendários que supervisionou, ou a descriminação de despesas de produção. Segundo o ex-marido, detinha o recorde de apresentar a mais alta reivindicação de despesas na história de Condé Nast, 50 mil libras.
In loco, tanto podíamos imaginá-la com um lagosta incrustada em joias na cabeça, ou de um look que emulava Joana D’Arc, com uma pesada e oleosa corrente que Isabella arrastou por Paris e que em última instância sujou o imaculado tapete de casa de Karl Lagerfeld. “Nicholas, isso não me interessa.”, respondeu durante um almoço a Nicholas Coleridge, diretor-gerente do grupo Condé Nast, quando este lhe perguntou como é que ela conseguia comer com um par de chifres cobertos com um véu de renda preta pesada sobre a cabeça.
Blow tinha uma capacidade única para detetar o génio e antecipar o hype. Dedicava-se a um novo achado com fervor até que o resto do mundo lhe seguisse o exemplo. Em 1989, um então estudante no Royal College of Art passou pela Tatler com um chapéu de crocodilo verde que tinha projetado debaixo do braço. O artista chamava-se Philip Treacy e não escapou ao radar de Isabella. Ligou para a escola, localizou-o, e encomendou-lhe um chapéu dramático para usar no seu próprio casamento. A futura noiva ficou tão agradada com o produto final que durante a lua de mel ligou-lhe a agradecer, com uma sugestão invulgar. “Por que é que você não vem viver em minha casa e fazer chapéus?” Treacy fixou-se no apartamento londrino de Blow, trabalhando nas suas coleções e encontrando a musa perfeita. Um chapeleiro vive de amantes de chapéus e o retorno da sua máxima ousadia depende de clientes audazes. Isabella foi a destemida precursora, que em cada evento ia surgindo com uma criação ainda mais vistosa, como se Ascot estivesse sempre ao virar da esquina. A relação com Philip Treacy catapultou o nome do criador, até hoje um dos preferidos da realeza (que recorrem a modelos bem mais contidos). Em 2002, era publicado When Philip Met Isabella, livro que explorava a relação entre ambos, com fotos de Steven Meisel, David LaChapele, Juergen Teller, Donald McPherson e Mario Testino.
▲ Com Philip Treacy, na exposição "When Philip Met Isabella". E à chegada dos British Fashion Awards, vestida de Givenchy
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Três anos depois, em 1992, rumou ao prestigiado Central Saint Martins para assistir ao desfile dos finalistas da escola de design e moda. Sem lugar sentada, ocupou o chão. Foi daí que viu o desfile de um jovem aspirante Lee Alexander McQueen, que mostrava a sua coleção Jack O Estripador, inspirada no famoso serial killer. Isabella não só comprou tudo o que havia para vender como tratou de ligar a cada contacto relevante no setor espalhando a palavra sobre o nome emergente.
Com Treacy mais que firmado no mercado, coube a McQueen ocupar agora o lugar deixado vago em casa da editora e do marido. Foi ela quem sugeriu que lançasse a etiqueta sob o nome Alexander McQueen, deixando cair o Lee. Outros designers, incluindo Julien Macdonald, contaram com o seu impulso. E o olho estendeu-se às manequins. Já na Vogue Uk, Isabella cruzou-se com Sophie Dahl a chorar numa esquina e não tardou em recrutá-la para a próxima sessão fotográfica da revista. Stella Tennant foi a descoberta seguinte. Sem ter qualquer book profissional, a candidata a modelo entregou a Blow umas fotos de passaporte. Em dezembro de 1993, Steven Meisel fotograva-a para o editorial “Anglo-Saxon Attitude”, epítome da cool britannia, um conteúdo editorial que atingiu as 80 mil libras, até hoje um dos cais dispendiosos trabalhos na Vogue UK. Lá estava o delineador preto carregado nos olhos, a roupa McQueen, as redes de pesca Wolford e as plataformas Vivienne Westwood. Assim descolava a carreira de mais uma aristocrata e musa dos anos 90: Stella.
Wintour garante que ninguém tinha a visão de Issie, e que as suas recomendações, sempre certeiras, valiam ouro. Um telefone a avisar que Anna devia seguir aquilo, ir acolá, ou conhecer aquele ou aquela era seguido à risca. Mas aos poucos a rede de protegidos que Isabella foi cultivando não teve o retorno esperado. A editora que mobilizava amigos bem conectados, fotógrafos, e outros pesos da indústria para amparar os seus estimados darlings acabava por ter um modesto sucesso face ao triunfo dos outrora desconhecidos. O desaire foi especialmente grande com Alexander McQueen. Em 1996, Isabella influenciara fortemente a decisão da LVMH de contratar o design para chefiar a casa moda de luxo francesa Givenchy em 1996. Para o criador, o cheque era chorudo, mas, para a sua madrinha, nem por isso. Ao contrário de outros designers, que muitas vezes confiam uma posição oficial às suas musas, McQueen nunca lhe deu um cargo. Não obstante, Isabella esteve na sua primeira coleção apresentada em Paris em janeiro de 1997. E empenhou-se na reparação da sua imagem quando a imprensa da especialidade o arrasou com críticas.
Foi também ela que em 1997 sugeriu a Tom Ford, então ao leme da Gucci, que o grupo expandisse o seu portfólio de aquisições investindo na marca McQueen. Apesar dos milhões envolvidos, mais uma vez a intermediária Isabella Blow ficava de fora dos proventos. “Ela ficou chateada porque Alexander McQueen não a levou quando vendeu sua marca à Gucci. Assim que os negócios descolaram, ela ficou pelo caminho. Todos os outros tinham contratos e ela recebeu um vestido grátis.“, lamentaria mais tarde a amiga Daphne Guinness.
O casamento e as festas lendárias com o marido Detmar Blow
Em 1988, aos 31 anos, Isabella conheceu Detmar Blow, de 24 anos, num casamento na catedral de Salisbury. Dezasseis dias depois de se encontrarem, estavam noivos. Para a Vogue, já recentemente, Detmar abriu as portas da mansão eduardiana que continua em sua posse e guiou os espectadores pelo álbum de memórias. “Ela gostou do meu casaco, eu gostei do chapéu dela”. Assim começava uma história marcada mais pela cumplicidade criativa do que pela parceria afetiva ou mesmo sexual. “Aqui está um retrato dela, sempre protegida pelos chapéus, e pela moda.”, aponta Detmar, segundo o qual Issie teria descoberto os chapéus através da mãe, ainda criança. “Quando colocou um, nunca se sentiu tão feliz.”
Com o advogado e negociante de arte, Isabella desenvolveu um vínculo que se estendia ao lado sombrio de ambas as famílias. O pai de Detmar, Jonathan Blow, suicidou-se quando Detmar tinha apenas 14 anos, ao emborcar Paraquat, um herbicida altamente tóxico. Com vibe gótica, foi em Hilles house, em Gloucestershire, que Isabella e o marido estabeleceram o centro de todas as excentricidades, pivôs de festas lendárias. Receberam Tim Burton e Brian Ferry, e deram guarida aos protegidos de Isabella. No pequeno gabinete de curiosidades num dos salões permanece o batom MAC de Issie, e uma cigarreira. “Era uma maximalista, nada casual, ela gostava que as pessoas se esforçassem”. Na ala norte, um retrato do malogrado Carlos I (nascido no mesmo dia que Isabella) e um manequim com uma cota de malha que esporadicamente era vestida pelos próprios moradores, provando que o guarda-roupa de Blow não era a única fonte de irreverência.
Aliás, quando se casaram, na Catedral de Gloucester, Isabella caminhou até o altar vestindo um vestido de veludo roxo Nadia Lavalle de inspiração medieval coberto com colares trompe l’oeil bordados à mão e um acessório de cabeça que foi criado pelo então desconhecido designer Philip Treacy.
“Calças de fato treino para almoço, jantar, ou na verdade qualquer momento, exceto para o desporto são completamente inaceitáveis”, censurava Blow, que nunca largava os seus Manolo Blahnik, ainda que pudesse usar um sapato de cada par. Para a história passaram observações como: “Eu simplesmente não consigo olhar para si sem batom” ou “Eu amo seios. Eles são tão antiquados.”
Alexander McQueen gostava de pernoitar no quarto Primavera, o quarto dos pais do anfitrião, onde na parede brilha a tapeçaria de Bern-Jones William Morris, inspirada por Boticelli. Há uma história urbana segundo a qual o criador teria roubado a peça, mas afinal tinha levado uma outra mais pequena, com um retrato.
Para atender às expectativas dos anfitriões, os convidados eram convidados a invadir o seu armário repleto de criações McQueen, Alaïa e Hussein Chalayan. “Ela estava absolutamente convencida de que se todos parecessem glamorosos se divertiriam mais”, dizia à Vanity Fair a escritora Plum Sykes, que se vestiu com um mini vestido Rifat Ozbek feito inteiramente de rede de pesca para um jantar no campo.
Ao lado do marido, protagonizou produções de moda que deixavam em evidência os seus prediletos e as poucos convencionais escolhas de moda. Mas nem tudo eram flores, literalmente, nesse matrimónio. O casal separou-se em 2004. Detmar começou um affair com Stephanie Theobald, editora da Harper’s Bazaar. Isabella, por seu turno, encantou-se com um veneziano, uma história que terminou mal, com uma disputa financeira.
A depressão, a doença e a sétima, e última, tentativa de suicídio
McQueen definiu-a como uma mistura de “uma peixeira do mercado de Billingsgate e Lucrécia Bórgia”. Treacy garantia que “não há nada de trágico nela, apenas triunfante”. Tanto liderava as escolhas de moda impressas nas páginas das revistas como ela própria ocupava o centro das produções, sendo fotografada e entrevistada para inúmeras publicações. Mas com o tempo, a depressão instalou-se. O glamour do circuito social contrastava com os dilemas em privado, a incapacidade de ter filhos, a sujeição a oito infrutíferas fertilizações in vitro, a bipolaridade, e o diagnóstico de cancro nos ovários, a estocada final.
Nos seus últimos anos, o trajeto profissional tornou-se mais errático. Começou a produzir uma série de livros intitulados Beleza Arábica, com foco na moda no Oriente Médio, viu na Índia uma oportunidade de renovação, e até se imaginou repórter de moda para a Al Jazeera. O amontoado de planos estrambólicos, com a fatura a pender para o lado da Condé Nast, foi contribuindo para o quebrar de vínculos. Má gestora do seu pecúlio, Isabella temia terminar os seus dias como a marquesa Casati, a italiana que vivia num banco do jardim e que gastava o pouco dinheiro que recebia a comprar gardénias. O declínio estava pronto a entrar em cena com toda a pompa.
Em março de 2006, após a Semana da Moda de Milão, começou a dizer aos amigos que pretendia matar-se, uma vontade que partilhou mesmo com a imprensa da moda, atribuída ao seu peculiar sentido de humor negro. As súplicas repetiam-se, confundidas com hipérboles que ninguém levava realmente a sério, sobretudo vindas de semelhante personagem. “Ela não se calava com aquilo”, recordou Hamish Bowles, o editor da Vogue que a seu lado passara inúmeras horas de felicidade e excentricidade em Hilles. Pouco ou nada se falava de saúde mental, e os amigos brincavam com as ameaças e desabafos, crentes na inconsequência: “Alguém finalmente chegou a dizer-lhe: ‘Olha, Issie, se queres realmente matar-te, tens uma piscina lá atrás, vai lá e afoga-te!’”
▲ Em Paris, em 2005, com Dan Williams e Jade Jagger. E no mesmo ano na Frieze Art Fair, com um chapéu versão Marilyn Monroe
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O facto é que nos 14 meses que antecederam a sua morte, Blow tentou o suicídio pelo menos sete vezes, oscilando entre planos de overdose com comprimidos e internamentos em clínicas privadas. É difícil apurar com exatidão o número e contornos dos ensaios rumo à morte mas há relatos no mínimo lendários, claro. Blow viajava desacompanhada para uma unidade de tratamento em West London quando seu táxi ficou retido no trânsito. Saiu do carro, subiu para um viaduto de pedestres, empoleirou-se no corrimão e caiu de uma altura de 9 metros, partindo os dois tornozelos, desfecho que a condenou a usar sapatos rasos, algo que abominava. Os alertas soaram com mais força, a Tatler começou à procura de uma nova diretora de moda, e as marcas e designers deixaram de lhe emprestar roupas.
Certo dia, duas semanas depois de sair do hospital, enfiou-se no carro do marido e conduziu a meio da noite rumo a um supermercado Tesco, contra o qual embateu com força — acabando salva pelo airbag. “Eu sempre odiei o Tesco”, diria mais tarde. Também ponderou saltar de Hammersmith Flyover, conhecida ponte dos suicidas, mas a rede anti-saltos e a previsão de fracasso fez abortar o projeto. De pouco serviu a ajuda psiquiátrica. Seguir-se-iam tentativas de se afogar num lago (na senda da sua heroína Virginia Wolf) e uma tentativa de overdose numa praia da Índia.
▲ Com Claudia Schiffer em 2003, na Semana da Moda de Londres
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Em maio de 2007, chegou o golpe final. À semelhança do que o sogro fizera trinta anos antes, Isabella bebeu uma venenosa garrafa de herbicida. A irmã, Lavinia, encontrou-a encolhida no chão da casa de banho e chamou uma ambulância. Na investigação posterior, Lavinia referiu que a irmã temia não ter ingerido a quantidade suficiente para pôr termo à vida. Na realidade, a morte apenas não foi imediata. Os médicos disseram que o processo era irreversível e o fim uma questão de tempo, talvez até três semanas. Pronta para o seu derradeiro close up, Issie apressou-se a mudar de roupa: vestiu uma camisa de lamé prata vintage de Giles Deacon, e em seguida chamou os mais próximos de forma a transmitir os seus últimos desejos. Depois de dois dias internada, morreu durante o sono, na manhã de 7 de maio. A notícia chegava no mais apropriado dos dias: em Nova Iorque realizava-se a Met Gala, meca da exuberância, sob o lema da exposição “Poiret: King Of Fashion”.
“Estava a viver em Nova Iorque, no meu apartamento em frente ao Museu. Era o dia da Gala. Às 4h30, o telefone tocou. Era o Lee-Alexander McQueen a ligar de Londres. Disse-me que a Issie se tinha suicidado. Falámos durante horas. Várias vezes ao longo do dia. Nenhum de nós conseguia parar de chorar. Acho que passei por vários pacotes de ervilhas congeladas para tirar o inchaço do choro. Era uma ironia amarga, ter que assistir a um evento de moda no dia em que alguém tão inserido no tecido da moda – das nossas vidas – se foi. Fui com o meu amigo, o extraordinário Valentino. Não podia dececioná-lo. Para me proteger, usei um chapéu preto Philip Treacy e um vestido de Valentino de seda branca. Ajudou um pouco”, escreveu anos mais tarde no seu Instagram Daphne Guiness.
Alguns dias antes de morrer, em Londres, Isabella Blow sentara-se para o seu último retrato – para um portfólio da Vanity Fair assinado pelo fotógrafo Tim Walker sobre figuras excêntricas inglesas. Apesar da fragilidade do seu estado, tinha várias ideias para a imagem final, como uma armadura de Alexander McQueen ou o sacrifício de um par de ovelhas da sua sua casa para poder ter um décor de sangue. “Um funeral, quando muito bem organizado, é como um casamento”. Rapidamente aquelas palavras tornar-se-iam assustadoramente claras, e apesar do choque não terão apanhado a maioria de surpresa. Detmar começou por anunciar à imprensa que a mulher tinha morrido de cancro, causa que seria desmentida em 5 de dezembro de 2007, quando o relatório médico revelou que se matara ao tomar uma dose fatal de veneno.
18 anos após o seu casamento, a catedral de Gloucester vestira-se a rigor para as exéquias de Blow, a 15 de maio de 2007, uma semana depois da sua morte, com 48 anos. A falecida vestia um elaborado casaco bordado Alexander McQueen e um chapéu Philip Treacy com penas de faisão. Os atores Rupert Everett e Joan Collins proferiram os elogios fúnebres, ao som do cantor de ópera Charles Eliasch. Todos os seus outrora protegidos responderam à chamada, aperaltando-se como a ocupante da urna apreciaria.
▲ Alexander McQueen (ao centro) com Archie e Isabella Blow no Virgin Mobile Louder Lounge V Festival
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Uma vez desaparecida, multiplicaram-se as conversas, biografias, coffee table books, e até uma exposição evocativa na londrina Somerset House: “Isabella Blow: Fashion Galore!”. Ao The Telegraph, no entanto, o seu cúmplice chapeleiro frisava que nada disto acontecera durante a sua vida. Isabella apoiara a carreira de vários ilustres desconhecidos sem que esse incentivo alguma vez tivesse sido distinguido ou premiado. “Haverá pessoas naquela exposição que se riram dela quando ela estava viva”, desabafava mesmo.
Em outubro de 2007, cinco meses depois da morte da mentora, McQueen apresentou em Paris La Dame Bleue, a coleção primavera-verão 2008. Entre cor e abundância de penas, o desfile foi inspirado e dedicado a Isabella Blow. Só no verão seguinte, à revista W, o designer falou pela primeira vez sobre a morte da antiga editora. “Aprendi muito com a morte dela”, disse ele. “Aprendi muito sobre mim mesmo. [Aprendi] que vale a pena viver. (…) Ela amava a moda, eu amo a moda, e eu estava em negação” — McQueen fazia alusão à sombria coleção em que resgatou os julgamentos dos bruxas de Salém. Menos de três anos depois de Isabella, o mundo da moda voltava a sofrer um abanão. No dia 11 de fevereiro de 2010, e depois de duas tentativas falhadas de overdose, o próprio Alexander colocaria um ponto final na sua vida.