Nas últimas dias, a Gronelândia voltou às manchetes dos jornais e a aparecer em noticiários um pouco por todo o mundo. O motivo tem tanto de simples como de complexo, e passa pela intenção de Donald Trump de querer anexar aquele território autónomo que pertence à Dinamarca e que é uma das 20 economias mundiais com melhores dados por habitantes, tendo um PIB per capita de 49 mil euros. Apesar de pertencer à Dinamarca desde 1953 e de estar integrada na NATO, esse fator dificulta o crescimento do desporto no país. Afinal, as federações internacionais não autorizam a inscrição da Gronelândia como seleção independente, como é o caso da FIFA e da UEFA.

No meio da urgência geopolítica que tem assolado aquele território nos últimos dias, o desporto não é alheio ao que está a acontecer e pode vir a ser influenciado com as decisões que sejam tomadas no futuro. O futebol é o desporto mais praticado na maior ilha do planeta, conquistando até 10% da população da Gronelândia e mais de 6.500 atletas federados. Segue-se o basquetebol, que é considerado o verdadeiro desporto nacional, e o esqui. No que concerne ao futebol, a seleção do país não pode participar em torneios internacionais organizados por FIFA e UEFA, pelo que os seus jogos resumem-se a amigáveis internacionais e aos bienais Jogos Insulares, o equivalente aos Jogos Olímpicos das nações, territórios e dependências insulares. Nesse evento, a Gronelândia já conquistou 24 ouros, 31 pratas e 38 bronzes, ainda que o futebol masculino não tenha passado de duas finais perdidas (2013 e 2017) e o feminino de um segundo (2013) e de um terceiro lugares (2011).

No que concerne ao futebol, a federação gronelandesa tentou inscrever, no último ano, as suas equipas na Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (CONCACAF), mas o pedido terá sido deferido por motivos externas, ao que tudo indica motivados pelas ambições de Trump na ilha. Em termos internos, o Campeonato da Gronelândia é o mais pequeno do planeta, tendo apenas oito equipas e não mais de uma semana de duração. A competição disputa-se no verão, em agosto, e tem como atual campeão o B-67, que venceu pela 15.ª vez e é a equipa mais bem sucedida. No andebol é onde a Gronelândia tem mais aspirações, já que compete como membro da Federação Pan-Americana (PATHF), participando nos campeonatos locais. A seleção masculina já esteve, inclusivamente, por três vezes no Campeonato do Mundo, nomeadamente na edição de 2003, que se disputou em Portugal.

Por outro lado, o futsal tem crescido na Gronelândia nos últimos anos, em parte por ser uma modalidade de prática durante todo o ano, o que leva a que alguns dos jogadores de futebol da Liga local prossigam a sua temporada naquela modalidade de pavilhão. Foi nessa condição que, na última semana, a seleção de futsal esteve na Futsal Week, na Croácia, numa competição que contou com oito equipas que não se apuraram para as competições continentais, que agora decorrem. Marrocos foi o grande vencedor da competição depois de ter derrotado a Roménia na final, ao passo que São Marino ficou com o último lugar de pódio. Por outro lado, a Gronelândia aproveitou essa competição para se mostrar ao mundo e terminou no honroso sexto lugar, depois ter batido Malta (6-2) e ter perdido contra Roménia (8-4) e Suíça (3-0). Apesar do feito, o torneio não se encontra homologado pela FIFA, pelo que não vão produzir qualquer efeito no futuro do país, que continua à procura de se alistar a uma federação.

“Cada vez que viajamos, isso atrai uma atenção positiva para a Gronelândia. Ganhamos cada vez mais respeito a cada jogo e as pessoas lembram-se de nós. Isso dá-nos energia e força para continuar. É a confirmação de que estamos a fazer algo grandioso”, explicou o capitão Patrick Frederiksen, que também lidera a seleção de futebol nos tempos livres, já que o seu emprego principal é o de cuidar de crianças e jovens num orfanato de Nuuk, a capital da ilha. “Os jovens jogadores com quem trabalho, admiram-me. Conversamos sempre sobre futebol e futsal e eles perguntam-me como se podem tornar jogadores da seleção nacional”, disse, por sua vez, Rass Ikila Abelsen, que tem 22 anos e está a tirar o curso de professor, à reportagem do The Guardian. Por ser natural de uma cidade na costa leste da Gronelândia, Tasiilaq, Abelsen só consegue chegar a Nuuk de helicóptero. No inverno, o jogador e os amigos faziam balizas com a neve e jogavam futebol quando as temperaturas rondavam os… -20ºC.

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As histórias de superação e de paixão pelo desporto são uma constante no plantel da seleção de futsal da Gronelândia. É o caso de Aiko Nielsen, que escreveu recentemente um livro sobre a sua infância no campo, ou do treinador Rene Olsen, que tem uma empresa de design gráfico em Nuuk. Aquando da chegada à Croácia, a comitiva ficou sem as suas malas e foi obrigada a treinar com a roupa que tinham no corpo, algo que foi encarado com bastante normalidade. “Somos pessoas espontâneas e flexíveis e isso reflete-se em campo. Temos de ser assim, porque na Gronelândia é o tempo que manda”, referiu o capitão. A Futsal Week não serviu apenas para a equipa voltar a competir depois de dez meses de “paragem”. A federação aproveitou a oportunidade para enviar o secretário-geral Aqissiaq Ludvigsen, na tentativa de estabelecer parcerias com outras entidades, como é o caso da Escócia, com quem mantém o interesse de organizar um torneio no futuro.

“Somos lutadores, está no nosso ADN. Gritamos e mostramos as nossas emoções, não as escondemos. Se estamos desapontados, tristes ou felizes, mostramos a nossa energia. Deixamos transparecer tudo, sempre. É possível ver-se e senti-lo”, disse Frederiksen à mesma fonte. No jogo dos quartos de final, frente à Roménia, a Gronelândia chegou ao intervalo a vencer, de forma surpreendente, por 3-1, mas acabou por quebrar na parte final, consentindo vários livres de 10 metros. Antes do jogo com Malta, a reportagem do The Guardian esteve numa sessão de treinos da Gronelândia, com o selecionador a explicar que gosta de dividir o plantel em três grupos, mediante a origem regional dos jogadores: Norte, Sul ou Nuuk. Em cada um dos grupos trabalha-se na implementação de um elemento específico do plano de jogo.

Frente aos malteses, a seleção gronelandesa contou com o importante incremento de Nielsen, o escritor, que esteve de férias na Tailândia e só se juntou à equipa a meio do torneio. Para lá do gosto pela escrita, Nielsen é o melhor jogador do Campeonato da Gronelândia e mostrou-o na Croácia, bisando no segundo jogo da competição (6-2). A luta pelo quinto lugar terminou frente à Suíça, uma das seleções europeias que mais cresceu na última década, em parte por conta do trabalho do treinador João Freitas Pinto, mas que tem batido na trave nas fase de qualificação para as grandes competições. Nesse desafio, a experiência e o maior profissionalismo dos helvéticos acabou por sobressair, com a Gronelândia a contentar-se com o sexto lugar.

“O meu maior desejo é jogar em casa, em Nuuk, contra outro país, diante dos nossos próprios adeptos, com toda a Gronelândia connosco”, assumiu Abelsen. “Sempre que temos a oportunidade de jogar, é tudo ou nada. Para nós, significa muito mudar a perspetiva das pessoas. Jogos oficiais? Pensámos que talvez fosse a altura certa, que o sonho talvez estivesse a tornar-se realidade, finalmente. Foi realmente dececionante [a recusa da CONCACAF], mas isso apenas despertou em nós um sentimento de que queremos dar ainda mais quando viajamos. Não queríamos começar a apontar o dedo. Apenas dissemos: ‘Precisamos de trabalhar mais e elaborar planos melhores, desenvolvendo o futebol e o futsal na Gronelândia para chegarmos ao ponto em que alguém tenha de nos aceitar”, concluiu o capitão.

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