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“Vamos lidar com a Gronelândia daqui a dois meses. Vamos falar sobre isso daqui a 20 dias.” Depois de capturar o Presidente deposto da Venezuela Nicolás Maduro e de decapitar o regime venezuelano, o líder norte-americano, Donald Trump, admitiu ter mais um objetivo em mente para expandir a área de influência dos EUA: a Gronelândia, a maior ilha do mundo, um território autónomo gerido pela Dinamarca, um Estado-membro fundador da NATO e parte da União Europeia.
Nas últimas semanas, a presidência norte-americana tem dado vários sinais de que uma eventual anexação da Gronelândia pode estar para breve, um desejo que Donald Trump tem desde o primeiro mandato. Após o que aconteceu na Venezuela, soaram os alarmes em Copenhaga. Principalmente depois de, pouco após a operação militar em Caracas, Katie Miller, mulher de Stephen Miller — um dos principais conselheiros do Presidente norte-americano —, ter publicado uma imagem da Gronelândia no X com a bandeira norte-americana e a legenda: “Em breve”.
SOON pic.twitter.com/XU6VmZxph3
— Katie Miller (@KatieMiller) January 3, 2026
Em declarações aos jornalistas este domingo, Donald Trump voltou a repetir o argumento de “segurança nacional” para justificar a anexação do território autónomo dinamarquês. “A Gronelândia está rodeada de navios russos e chineses em todo o lado”, salientou o líder norte-americano, acrescentando que a Dinamarca não é “capaz” de evitar que a Rússia e a China aumentem a sua influência no Ártico. Palavras-chave da mensagem: o controlo do Ártico e os grandes adversários económicos mundiais, russos e chineses
Como é que os EUA podem controlar a Gronelândia?
No primeiro mandato de Donald Trump, a sugestão norte-americana consistia em comprar a maior ilha do mundo (a Austrália é considerado continente e não ilha), algo que a Dinamarca rejeitou categoricamente. Havia um precedente histórico, contudo, para esta proposta: em 1865, a administração do antigo Presidente norte-americano Andrew Johnson tentou adquirir a Gronelândia e a Islândia (que, na altura, ainda não era um país independente) à coroa dinamarquesa. As negociações não chegaram a bom termo e o processo nunca avançou.
Neste segundo mandato, a retórica subiu de tom. Os Estados Unidos já falavam numa “anexação” da Gronelândia. Numa primeira versão, os norte-americanos sugeriram que a Dinamarca cederia o controlo da ilha e transferiram a soberania para os Estados Unidos da América, um processo que seria pacífico. Contudo, o plano foi também rejeitado pela Dinamarca e pelo povo gronelandês — que pretende, aliás, tornar-se independente de Copenhaga.
Perante a recusa da Dinamarca, Donald Trump deixou no ar que poderá ser precisa uma intervenção militar que obrigaria Copenhaga a ceder a soberania da ilha. Depois da Venezuela e das ameaças mais recentes do Presidente norte-americano, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, já avisou que as palavras do líder dos Estados Unidos “têm de ser levadas a sério”.
Além disso, no final de dezembro, a presidência norte-americana nomeou um enviado especial para a Gronelândia, Jeff Landry, que é o atual governador do Louisiana. Este político foi encarregado de promover os interesses dos EUA em relação ao território dinamarquês, numa função que o próprio descreveu como destinada a tornar a ilha parte dos Estados Unidos da América.
Competição com Rússia e China. Que justificação é esta de Trump?
Nas declarações públicas que tem feito, Donald Trump evoca a justificação da “segurança nacional” e da competição com a China e a Rússia. “Precisamos [da Gronelândia] por motivos de defesa”, salientou o Presidente norte-americano. O vice-presidente, JD Vance, também já disse que Pequim e Moscovo “têm um grande interesse na Gronelândia e nas atividades dos valentes militares norte-americanos”.
JD Vance: Denmark has not kept pace in devoting the resources necessary to keep this base, our troops, and in my view, to keep the people of Greenland safe from aggressive incursions. @Acyn (2025)pic.twitter.com/apxN56Lwg3
— The Intellectualist (@highbrow_nobrow) December 23, 2025
Será, então, uma questão de competição e rivalidade no Ártico contra dois adversários geopolíticos. Com a Rússia e a China a aumentarem as ações agressivas, os Estados Unidos consideram que a Dinamarca não tem capacidade para defender a maior ilha do mundo. “Precisamos da Gronelândia do ponto de vista de segurança nacional”, apontou o Presidente norte-americano. Por sua vez, Copenhaga tem rebatido estas acusações e destaca que tem aumentado o investimento na defesa do território.
“Nos últimos 20 anos, a Dinamarca tem falhado”, já criticou JD Vance, comparando que a “área em redor está menos segura do que estava há 30 e 40 anos”. O país nórdico não investiu o suficiente para manter “as bases, as tropas e as pessoas da Gronelândia seguras”, criticou o vice-presidente norte-americano — e seria, nessa ótica, o motivo pelo qual os EUA precisariam do território.
▲ Nuuk, a capital da Gronelândia
Mads Claus Rasmussen/EPA
China e Rússia estão mais envolvidas no Ártico?
A Rússia tem vários territórios perto do Ártico e tem dado cada vez mais importância àquela região, realizando vários investimentos. Como explica o portal dedicado a assuntos militares The War, Moscovo tem aumentado o seu poderio naval e aéreo na zona, estabelecendo novas bases militares e reativando algumas que estavam inativas desde a época da Guerra Fria.
O Presidente russo, Vladimir Putin, já assumiu que o desejo norte-americano não se trata de uma “conversa extravagante”, mas um “plano sério do lado norte-americano” com “razões históricas”. Ainda que mantenha uma relação cordial com o homólogo norte-americano, o líder da Rússia já avisou que o país se está a preparar caso a região se torne numa área onde haja conflito.
Geograficamente, a Rússia tem uma vantagem estratégica, detendo vários territórios na região. A China tem igualmente demonstrado interesse na região do Ártico; mesmo que em termos geográficos não esteja tão perto. Em 2018, Pequim autointitulou-se um “Estado quase Ártico”, declarou que desejava aumentar a influência naquela área do mundo e anunciou que também desejava construir uma “Rota da Seda Polar”.
▲ China e Rússia também têm interesses na Gronelândia
Getty Images
As terras-raras. Como estes elementos químicos podem levar Trump a querer anexar a Gronelândia?
A China é responsável por mais de 60% da produção de terras-raras — um conjunto de 17 elementos químicos que são essenciais para as indústrias tecnológicas de ponta. Neste domínio, durante o segundo mandato de Donald Trump, os Estados Unidos assumiram que querem entrar na corrida contra aquele que consideram o seu maior adversário geopolítico. Por causa disso, assinaram um acordo este ano com a Ucrânia, um país que tem, no seu território, vários destes elementos químicos e que Washington passou a explorar.
No seu território, a Gronelândia possui importantes reservas de terras‑raras. No mesmo sentido, a ilha tem potenciais recursos de petróleo e gás natural, se bem que as autoridades gronelandesas tenham proibido novas explorações, invocando preocupações ambientais e climáticas. Mesmo assim, os Estados Unidos podem estar interessados nestes recursos naturais — e investir nessas indústrias extrativas.
Ao Observador, Steven Lamy, professor emérito de Relações Internacionais e Ciências Espaciais na University of Southern California, explicou que Donald Trump pretende superar a China “na área das terras-raras”. E a Gronelândia pode ajudar a suprir esse desejo com o “acesso exclusivo dos elementos químicos para as empresas norte-americanas”.
▲ Donald Trump pode estar interessados nas terras-raras da Gronelândia
FREDERIC J. BROWN/AFP/Getty Images
Em declarações à BBC, Diogo Rosa, geólogo económico, assinalou que a Gronelândia é uma “massa de terra bastante grande” que tem “sido subexplorada” apesar de ser “geologicamente muito favorável”. Donald Trump pode, assim, desejar precisamente explorar os recursos naturais da ilha que pertence à Dinamarca. “Trump interessa-se em transações e fazer negócios”, lembra Steven Lamy.
Gronelândia: o controlo das rotas do Ártico pode incentivar os EUA a agir?
O aquecimento global pode ter consequências para a Gronelândia que a tornarão muito atrativa no futuro. O degelo no Ártico pode abrir novas rotas que alterariam profundamente o comércio internacional. O Atlântico Norte e o Oceano Pacífico poderiam ficar interligados — e não seria necessário passar nem pelo Canal do Suez, nem pelo Canal do Panamá. A consequência? A viagem marítima entre a América do Norte e a Ásia seria mais curta e mais barata.
Seria esta rota que os Estados Unidos pretendem controlar, ainda que, como ressalva a PBS, poderá não ser comercialmente viável. Ainda assim, se controlasse a Gronelândia e aprofundasse a sua presença na ilha, Washington garantia uma vantagem estratégica futura no Ártico, sobretudo face à Rússia e à China.
▲ Localização e mapa da Gronelândia
AFP via Getty Images
“Sejamos claros: estamos a entrar no século do Ártico e o traço mais definidor será a ascensão meteórica da Gronelândia”, enfatizou, em declarações à PBS, Dwayne Menezes, diretor da Iniciativa de Investigação Polar, acrescentando que a maior ilha do mundo “localizada entre a América do Norte, Europa e Ásia” tem um “potencial enorme” precisamente por causa dessa rota.
A China e a Rússia estão também a apostar nesta nova rota no Ártico e desejam dominá-la. Neste contexto, nota Steven Lamy ao Observador, Donald Trump “tem alegado que as mudanças climáticas e a abertura de novas rotas marítimas pressupõe uma ameaça de segurança”.
“Segurança nacional”: o que militarmente motiva o desejo dos EUA na Gronelândia?
A maior ilha do mundo é particularmente importante no sistema de defesa antimíssil que os Estados Unidos querem desenvolver. Na Gronelândia, já existem radares de aviso precoce que detetam e acompanham potenciais lançamentos de mísseis balísticos em direção à América do Norte, nomeadamente na base militar Pituffik.
▲ Base Pituffik
Getty Images
Não obstante, os Estados Unidos procuram modernizar esta tecnologia e integrá‑la num sistema de defesa antimíssil ainda mais sofisticado, o que alimenta a pressão para um controlo mais alargado e efetivo da Gronelândia por parte de Washington. Ao mesmo tempo, a ilha oferece uma posição privilegiada para acompanhar a atividade russa e chinesa no Ártico.
“Fim da NATO”? Europa preocupada com ação norte-americana defende Dinamarca
A primeira-ministra dinamarquesa dramatizou o discurso após as últimas ameaças dos Estados Unidos. Mette Frederiksen declarou esta segunda-feira: “Se os Estados Unidos optarem por atacar militarmente outro país da NATO, será o fim de tudo, incluindo da NATO e, por conseguinte, da segurança estabelecida desde o final da Segunda Guerra Mundial”.
A liderança da Gronelândia também tem rejeitado qualquer tentativa de interferência norte-americana. A maioria da população da ilha deseja tornar-se independente da Dinamarca, mas não juntar-se aos Estados Unidos. Esta segunda-feira, o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens Frederik Nielsen, revoltou-se contra a pressão norte-americana: “Não queremos mais fantasias de anexação. Estamos abertos ao diálogo, a discussões. Mas isso deve acontecer através dos canais adequados com o respeito pelo Direito Internacional”.
Ao longo das últimas horas, vários líderes europeus têm apoiado a Dinamarca e têm censurado com as ameaças norte-americanas. A porta-voz da Comissão Europeia, Paula Pinho, afirmou que o bloco comunitário está “totalmente ao lado da Gronelândia”, que é um “aliado dos Estados Unidos” e “faz parte da NATO”.
De França à Alemanha, os líderes europeus também têm deixado palavras de apoio a Copenhaga. Esta segunda-feira, o principal apoio veio de Londres: o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse esta segunda-feira “estar ao lado” de Mette Frederiksen. “Ela tem razão sobre o futuro da Gronelândia”, considerou. “A Dinamarca é uma aliada próxima da Europa e é um aliado da NATO”, destacou o chefe do executivo britânico, que também mantém boas relações com Donald Trump.