Era tão complexo de alcançar como era simples de entender. Com seis pontos em sete jornadas da Liga dos Campeões e em posição de eliminação automática à entrada para a última, o Benfica estava obrigado a vencer o Real Madrid na Luz para ainda sonhar com o playoff de acesso aos oitavos de final. Depois disso, o destino tinha de ajudar com cinco de 11 cenários possíveis. Mas a única coisa que os encarnados podiam controlar era mesmo derrotar os merengues em Lisboa.

A equipa de José Mourinho defrontava o Real Madrid depois de três vitórias consecutivas no Campeonato, mas também pouco tempo depois da derrota com o Sp. Braga na Taça da Liga, da derrota com o FC Porto na Taça de Portugal e da derrota com a Juventus na Liga dos Campeões. Perder mais uma competição e ficar reduzido ao Campeonato, portanto, era um fantasma que perseguia os encarnados — mas que não assustava o pragmatismo do treinador português. 

Ficha de jogo

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Benfica-Real Madrid, 4-2

Fase de liga da Liga dos Campeões

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Davide Massa (Itália)

Benfica: Trubin, Amar Dedic, Tomás Araújo, Otamendi, Samuel Dahl, Leandro Barreiro, Fredrik Aursnes, Prestianni (João Rego, 87′), Sudakov (Enzo Barrenechea (83′), Schjelderup (António Silva, 90+3′), Pavlidis (Ivanovic, 90+3′)

Suplentes não utilizados: Diogo Ferreira, Bruma, Daniel Banjaqui, Manu Silva, José Neto, Gonçalo Oliveira, Anísio Cabral, Diogo Prioste

Treinador: José Mourinho

Real Madrid: Courtois, Fede Valverde, Raúl Asencio, Dean Huijsen (David Alaba, 79′), Álvaro Carreras (Jorge Cestero, 79′), Arda Güler (Brahim Díaz, 79′), Jude Bellingham, Tchouaméni (Eduardo Camavinga, 55′), Mastantuono (Rodrygo, 55′), Mbappé, Vinícius Jr.

Suplentes não utilizados: Lunin, Fran González, Dani Carvajal, Gonzalo García, Dani Ceballos, Fran García

Treinador: Álvaro Arbeloa

Golos: Mbappé (30′ e 58′), Schjelderup (36′ e 54′), Pavlidis (gp, 45+5′), Trubin (90+8′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Tchouaméni (3′), a Leandro Barreiro (11′), a Raúl Asencio (45+4′ e 90+2′), a Dean Huijsen (62′), a Álvaro Carreras (67′), a Samuel Dahl (85′), a Rodrygo (90+6′ e 90+7′); cartão vermelho por acumulação a Raúl Asencio (90+2′), a Rodrygo (90+7′)

“Quando chegas a uma altura em que não tens nada a perder e tens pela frente as grandes equipas, os grandes jogadores, equipas que têm uma estabilidade pontual que lhes permite outro tipo de ‘approach’, tens de ir com tudo. Ou matas ou morres de pé. E é isso que nós vamos tentar amanhã, com equilíbrio, porque se não tivermos equilíbrio, como eu dizia anteriormente, o Real Madrid é uma equipa que castiga. Estes jogadores de top castigam. Estes jogadores de top não precisam de meter 37 pés dentro da área adversária, metem três pés e fazem três golos. Castigam, é gente que castiga. São de um nível tão alto que estão à espera do teu erro para te castigarem”, explicou Mourinho, que reencontrava Álvaro Arbeloa, o agora treinador que orientou nos merengues.

Assim, esta quarta-feira e no primeiro jogo oficial entre as duas equipas desde os anos 60, Mourinho recuperava a titularidade de Amar Dedic depois de ter apostado em Daniel Banjaqui no fim de semana e colocava Prestianni e Schjelderup no apoio a Pavlidis, com Leandro Barreiro no meio-campo e Enzo Barrenechea no banco. Do outro lado, num Real Madrid que já estava apurado para o playoff mas ainda não tinha garantindo a qualificação direta para os oitavos de final, Arbeloa tinha Vinícius, Mbappé e Mastantuono no ataque — para além de Álvaro Carreras na esquerda da defesa, com o lateral espanhol a voltar à Luz.

Se é verdade que o Real Madrid teve a bola quase por inteiro nos minutos iniciais do jogo, também é verdade que o Benfica entrou melhor. Os encarnados não tinham qualquer medo para soltar a transição rápida e explorar as debilidades defensivas dos merengues, ao mesmo tempo que eram céleres a juntar os blocos e fechar os caminhos do perigoso ataque adversário. Schjelderup viu Fede Valverde intercetar um remate forte (6′), Tomás Araújo desviou ao lado na sequência de um canto (7′) e Pavlidis deixou fugir a bola quando só tinha Courtois pela frente (13′).

Davide Massa ainda assinalou grande penalidade de Jude Bellingham sobre Prestianni na área do Real Madrid, revertendo a decisão após analisar as imagens do VAR, mas o Benfica não tirou o pé do acelerador e continuou a aproveitar todo o espaço que os merengues deixavam livre para criar situações de perigo. Prestianni rematou para Courtois defender em direção à trave (21′), Aursnes atirou para as mãos do guarda-redes belga quando estava completamente sozinho na área (22′) e a equipa de José Mourinho só pecava mesmo na eficácia.

Pecava tanto que, tal como o treinador português antecipou, foi castigado. O Real Madrid cresceu já perto da meia-hora e só precisou de uma única oportunidade de golo para abrir o marcador: Raúl Asencio cruzou na direita e Mbappé, fugindo a Amar Dedic ao segundo poste, cabeceou para bater Trubin (30′). Os encarnados sentiram o golo sofrido e até poderiam ter sofrido outro logo a seguir, com Asencio a cabecear para Trubin defender após canto na direita (35′), mas a reação só precisou de tempo para aparecer.

Pouco mais de cinco minutos depois do golo de Mbappé, Pavlidis arrancou na direita e aproveitou duas escorregadelas de Asencio para cruzar para a área, onde Schjelderup apareceu a cabecear para empatar (36′). Os encarnados carregaram, Schjelderup, Leandro Barreiro e Amar Dedic ficaram todos perto da reviravolta, e o momento que fez explodir a Luz apareceu nos descontos: Tchouaméni carregou Otamendi em falta na área, Davide Massa assinalou grande penalidade e Pavlidis, na conversão, não falhou (45+5′). Ao intervalo, o Benfica estava a fazer a única coisa que podia controlar: vencer o Real Madrid.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e depressa se percebeu qual é que seria a dinâmica da segunda parte: o Real Madrid tinha a bola, o Benfica defendia a vantagem. Vinícius teve uma boa oportunidade logo nos instantes iniciais, com um cabeceamento por cima (47′), mas os encarnados mantinham-se organizados e compactos, obrigando os merengues a trocar a bola dezenas de vezes à procura de um centímetro de espaço no último terço.

Ainda antes da hora de jogo, porém, o feitiço da primeira parte virou-se contra o feiticeiro da segunda. Num lance perfeito de transição rápida, Pavlidis abriu em Schjelderup na esquerda e o avançado, depois de ir para cima de Asencio, atirou forte e junto ao poste para bisar e aumentar a vantagem dos encarnados (54′). Álvaro Arbeloa reagiu a partir do banco, lançando Rodrygo e Eduardo Camavinga, e os merengues reduziram a desvantagem logo a seguir e novamente por intermédio de Mbappé, que apareceu completamente sozinho na área depois de um belo trabalho de Arda Güler na direita (58′).

O jogo partiu depois dos dois golos quase consecutivos, com muitas perdas de bola e espaço nas costas das duas defesas, mas os lances de maior perigo continuavam a aparecer na baliza de Courtois, com o guarda-redes belga a frustrar os esforços de Sudakov (69′) e Prestianni (74′). Arbeloa voltou a mexer nesta fase, esgotando as substituições ao lançar David Alaba, Brahim Díaz e Jorge Cestero de uma vez. De forma natural, os encarnados foram descendo as linhas e abdicando de sair para o ataque, preferindo resguardar a vantagem no próprio meio-campo.

José Mourinho ainda lançou Enzo Barrenechea, João Rego, António Silva e Ivanovic nos últimos dez minutos, Raúl Asencio e Rodrygo foram expulsos por acumulação de cartões amarelos nos descontos, mas o momento mais inacreditável da noite ainda estava mesmo por acontecer. Numa altura em que a frieza da matemática ditava que os encarnados estavam no primeiro lugar da eliminação automática, separados do playoff por um golo, Trubin subiu à grande área contrária para o último lance do jogo e saltou mais alto do que todos os outros para cabecear e marcar após livre na direita (90+8′). De repente, sem que ninguém acreditasse, o Benfica estava vivo na Europa.

No fim, o Benfica goleou o Real Madrid na Luz e garantiu a presença no playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões através do 24.º lugar, o último que assegura a continuação na prova. José Mourinho tinha dito que era preciso matar ou morrer de pé — e Trubin mostrou que afinal era preciso matar para sobreviver aos saltos.

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