Ludovico Muretti quer dar a volta ao mundo em bicicleta mas primeiro, preferiu chegar a Lisboa. Em 45 dias, pedalou os 3 mil quilómetros que distam entre a cidade de Cermenate, no norte de Itália, e a capital portuguesa. O jovem de 19 anos escolheu a cidade, onde chegou a 24 de janeiro, por motivos “muito simples”, conta ao Observador. “Percebi que França, Espanha e Portugal não estavam incluídos na volta ao mundo que ia fazer, então abri o mapa, vi Lisboa de frente para o oceano e decidi partir — assim, sem mais nem menos.”

Consigo, levou a bicicleta e 40 quilos de material, incluindo a tenda onde passou algumas noites apesar de a viagem ter sido feita na “altura mais crítica e desafiante” de condições meteorológicas, entre dezembro e janeiro. Afinal, Ludovico quis preparar-se para a próxima aventura, uma volta ao mundo em bicicleta com duração estimada de dois a três anos. Foi posto à prova debaixo do sol, da chuva, e entre a neve, o vento e o frio. “Nesta viagem escrevi imensas notas no meu telemóvel — são quase todas coisas técnicas — mas são pequenos ajustes que, quando somados, fazem realmente uma enorme diferença ao longo de um período de tempo tão longo”, relata.

Tanto em cidades maiores, como Marselha, Barcelona ou Madrid, como em terras mais pequenas, encontrou seguidores ou desconhecidos que lhe foram oferecendo guarida. “Passei o Natal acolhido por uma família em Narbonne, no sul de França, depois de ter dormido a acampar num campo de um agricultor, sem saco-cama porque estava molhado e correndo o risco de hipotermia.”

“Diz à tua mãe que estás bem”

No Instagram, Ludovico elogiou a hospitalidade portuguesa. “Desde a senhora que me ofereceu comida, a outros que me ajudaram a arranjar uma câmara, ao dono do bar que me ofereceu tudo e, acima de tudo, à senhora que até me deu o seu próprio casaco e me ofereceu abrigo. Em suma, encontrei aqui pessoas verdadeiramente dispostas a ajudar quem quer que esteja à sua frente, nunca pensei que fosse possível”, afirma em resposta escrita ao Observador.

Quando chegou a Mação, em Santarém, encontrou um homem “incrivelmente simpático”: “Ofereceu-me algo para beber e para comer porque, segundo ele, simpatizou comigo, já que sou italiano e, pelo que percebi, tinha trabalhado durante nove anos no Luxemburgo com colegas italianos que eram como uma família para ele.” Esta mesma pessoa fez-lhe um único pedido: que Ludovico ligasse à mãe que deixou em Itália, para lhe dizer que estava bem.

“Tento manter a minha família sempre atualizada através de mensagens ou chamadas, mas é o único aspeto que posso dizer que realmente me magoa: deixar a minha mãe num estado constante de ansiedade e preocupação”, confessa ao Observador. “Quando se trata de sair de casa, a única coisa que verdadeiramente me custa é a minha mãe. Além disso, sinceramente, não gostaria de voltar a casa — sinto-me como um cidadão do mundo. Nunca me senti confortável numa sociedade ‘padrão’, sempre me senti sufocado por ela.”

Um ciclista que sonha ser paraquedista

Em criança, Ludovico Muretti participou em várias competições de cubo mágico. Mais tarde, sentir-se-ia atraído por atividades mais radicais. Refere uma certa paixão pelo desconforto que pode ser “incompreensível” para muita gente, mas que o ajuda a sentir-se “normal”. “Sempre adorei desportos extremos e situações desconfortáveis. Por exemplo, pratico paraquedismo e, dentro de alguns anos, o meu sonho é tornar-me piloto de wingsuit (paraquedismo praticado com um fato de mangas com membranas). Para mim isto parece normal e resume-se à química do meu cérebro”, detalha.

“Sou uma pessoa neurodivergente, com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA/TDAH) de intensidade muito elevada, mesmo além do que é típico para o TDAH. Isto significa que, desde que nasci, tenho níveis mais baixos de dopamina, serotonina e noradrenalina no cérebro, em comparação com pessoas neurotípicas”, explica Ludovico Muretti. “Portanto, para mim, estímulos muito intensos, risco e situações extremas não têm a ver com procurar excessos — é simplesmente aquilo de que preciso para levar esses níveis a um estado de normalidade. Não faço estas coisas para ir além do normal, faço-as para lá chegar.”

Nem todos acreditavam que o jovem de 19 anos conseguisse chegar a Lisboa de bicicleta. “Muitas pessoas tentaram desencorajar-me, mas, mais do que isso, simplesmente não houve apoio.” De Itália, Ludovico Muretti partiu com apenas quinhentos euros arrecadados a trabalhar como empregado de mesa. Fundamentais foram os “fãs” online que o iam acompanhando na sua aventura e que cresceram de 1.609 para cerca de 30 mil ao longo da viagem. “Através do PayPal, consegui aumentar um pouco esse valor que tinha disponível e, para um viajante com um estilo de vida de baixo custo, ter uma comunidade que o apoia pode valer ouro.”

A chegada sob granizo a Lisboa

Depois de muitos quilómetros e muitas visualizações — no vídeo mais viral com 1,4 milhões de visualizações perguntavam-lhe, desconfiados, se a bicicleta não era mesmo elétrica —, Ludovico chegou no dia 23 de janeiro a Lisboa, precisamente no dia em que caiu granizo na capital e chovia copiosamente.

Mesmo assim, abrigado sob as arcadas do Terreiro do Paço, foi recebido por vários italianos que o conheciam através das redes sociais, a maioria estudantes em Erasmus. Todos lhe fizeram perguntas sobre a viagem que se segue: “E vais sozinho? Vê-se mesmo que és maluco”, brincaram.

Desde então, Ludovico tem recebido várias mensagens “especiais”. Há quem lhe diga que tinha pensado em fazer viagens deste género, mesmo que fossem muito mais pequenas, mas nunca tinha sentido que era o momento certo para as fazer até se cruzar com os seus vídeos. Uma das mensagens veio de um homem de 30 anos que dizia que tinha perdido a vontade de viver, mas que estar a planear uma viagem, inspirado por Ludovico, a tinha trazido de volta. “É mesmo emotivo receber estas mensagens”, admite. “Nunca temos a certeza antes de ir, as certezas vêm pelo caminho. É só começar.”

Agora, Ludovico ficará a descansar até 1 de fevereiro na casa de Alvaro, um dos italianos que o recebeu em Lisboa, enquanto planeia a próxima viagem de bicicleta. Depois, volta a casa — desta vez, de avião.