O restabelecimento total da energia elétrica às regiões mais afetadas pelo impacto da tempestade Kristin deverá, com “elevada probabilidade”, ficar completo até ao final do mês de fevereiro, afirmou o presidente da E-Redes numa conferência de imprensa realizada este domingo em Leiria.
José Ferrari Careto recusou dar uma data. “Não consigo dar uma data com a qual me consiga comprometer para todas as pessoas terem eletricidade” até porque “à medida que avançamos descobrimos avarias na baixa tensão”.
O presidente da empresa que gere a rede de distribuição (que foi a mais destruída pela depressão) admite que, ao longo da recuperação do serviço, haverá instabilidade na rede elétrica e podem acontecer avarias e novos cortes no abastecimento a zonas já com eletricidade. A empresa está a “recorrer a atalhos” para acelerar o processo. Mas assegurou que a resolução destas falhas será muito mais rápida.
Ferrari Careto explicou que o concelho de Leiria foi o mais afetado ao nível de subestações que ficaram inoperacionais, duas de um total três (a outra está em Pombal). Estes equipamentos são essenciais para transformar a eletricidade, que transita nas redes de alta tensão, em média tensão para chegar aos postes a partir do qual são alimentadas as redes de baixa tensão que chegam aos pontos de abastecimento — as casas, entidades e empresas.
Mesmo ao nível das linhas de alta tensão há torres caídas e vergadas que estão no chão desligadas. São torres de 20 a 30 metros que pesam 5 a 10 toneladas e cuja reabilitação demorará mais tempo. Para acelerar o restabelecimento do serviço, a E-Redes está a tentar encontrar “métodos expeditos” que podem passar, por exemplo, por usar cabos estendidos no chão (e não suspensos) para evitar a necessidade de, a curto prazo, ter novos postes de betão para segurar essas torres.
E-Redes está a usar “atalhos” à rede principal para acelerar recuperação
O processo de recuperação não está a seguir os planos técnicos normais para restabelecer uma rede. Estas infraestruturas foram planeadas com tempo e com todos os estudos, “a reposição não pode contar com essa minúcia e prazos”. Para conseguir uma recuperação mais célere, “vamos ter de usar alguns atalhos e isso pode levar a alguma fragilidade. A eletricidade na cidade de Leiria foi reposta por caminhos secundários e não por autoestradas”. O presidente da E-Redes comparou o processo com o de desviar um enorme tráfego automóvel para uma estrada municipal. “Os carros chegam ao destino, mas vão mais devagar e pode haver acidentes”.
A prioridade no terreno continua a ser recuperar as subestações para alimentar as linhas de média tensão, estando a ser aproveitada a rede elétrica subterrânea que serve a cidade de Leiria. Algumas destas linhas estavam inundadas, mas não danificadas como as aéreas. Já as redes de média e alta tensão estão fora do perímetro urbano. À hora de almoço deste domingo, estavam cerca de 50 mil clientes sem eletricidade na cidade de Leiria e 59 mil no concelho. No total estavam “desligados” 167 mil pontos abastecimento, com consequência ao nível da água e das comunicações.
Já no final da conferência de imprensa, Ferrari Careto sinalizou que tinha ficado reparada a linha de média tensão entre Azóia e Vidigal, a partir da qual será possível injetar energia na subestação para chegar a mais 5.o00 pontos de alimentação. Um poste restabelecido que permite ligar mais 100 clientes, mas a curva de recuperação vai ficando cada vez mais lenta à medida que o tempo passa. O presidente da E-Redes avisou ainda que é expectável a instabilidade no serviço, mesmo para quem já tem energia, devido à forma como a rede está a ser restabelecida.
Ferrari Careto esclareceu ainda que as instalações e equipamentos da E-Redes não estão a sofrer com roubos de cobre e garantiu que a frota automóvel da empresa tem veículos a combustível fóssil e híbridos para responder às necessidades operacionais, apesar da aposta feita numa frota elétrica.
Geradores vão servir de “velas” nas freguesias para pessoas tomarem banho e terem internet
A rede “está esticada” e o nível de consumo que pode ser abastecido é limitado. Há ainda acidentes no terreno que estão a gerar avarias, dando como exemplo um disparo da rede provocado por cascas de eucalipto que atingiram a linha. Há muitas árvores caídas e outras em risco de cair com ramos soltos e há previsão para mais chuva e vento. O gestor percebe a ansiedade das pessoas, mas assegura que estas novas avarias que podem levar a interrupções no serviço serão mais temporárias.
O presidente da E-Redes admitiu também que a rede elétrica aérea que predomina em Portugal torna esta infraestrutura mais vulnerável a estas situações e diz que a empresa vai avaliar a possibilidade de enterrar redes nesta zona para evitar impactos tão expressivos no futuro. Em Portugal, apenas 20% da rede elétrica é subterrânea.
Em paralelo prosseguem a instalação de geradores para antecipar o abastecimento a serviços mais essenciais quando não é possível restabelecer o serviço pelas redes elétricas. A E-Redes tem estado a acompanhar a colocação de geradores em todas as freguesias.
O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, explicou que esses geradores vão ser como velas em cada freguesia. Não vão permitir abastecer toda a gente, mas vão funcionar como “quartéis-generais” de energia e centros de acolhimento a pessoas que queiram tomar banho, ter televisão e internet e carregar os dispositivos elétricos.