Um cidadão irlandês enfrenta a possibilidade de ser deportado pelos EUA após ter sido detido pelas autoridades de imigração norte-americanas, apesar de viver há vinte anos no país, não ter registo criminal e ter visto de trabalho válido. Está há vários meses detido a milhares de quilómetros num centro de detenção, que o próprio descreve como um “absoluto inferno”.
Segundo o jornal irlandês The Irish Times, Seamus Culleton foi detido, pela primeira vez, a 9 de setembro do ano passado e, apesar de ter pagado uma fiança, voltou a ser detido e levado para um centro na cidade de El Paso, a milhares de quilómetros de distância.
O irlandês, continuou a publicação, é casado com uma cidadã norte-americana com quem vivia na zona de Boston, onde tem um negócio de reboco. O visto de trabalho que tinha foi emitido como parte de um pedido para obter um visto permanente — o chamado “green card” — para o qual faltava uma entrevista.
A sua advogada, Ogor Winnie Okoye, contou ao jornal irlandês que Culleton foi abordado a caminho de casa vindo do trabalh num momento que tinha consigo os documentos do visto e uma carta de condução. Foi primeiro levado para instalações do ICE em Buffalo, estado de Nova Iorque, onde diz ter recusado a deportação e contestado a sua detenção por ter a situação regularizada.
Mas não foi libertado e sim enviado para instalações das autoridades anti-imigração em El Paso, no extremo sul dos EUA junto à fronteira com o México. Numa entrevista ao Irish Times por telefone, Culleton contou que está na mesma cela fria e húmida há mais de quatro meses e meio, partilhando-a com mais de 70 outros homens.
As doses de comida servidas são para criança, contou também Culleton, levando a várias lutas entre os detidos por mais comida, “até por aqueles pacotes de sumo para crianças“. Diz que só saiu ao exterior por algumas dezenas de vezes e que o ambiente é “imundo”.
A advogada do detido contestou a detenção em tribunal, tendo um juiz estadual aprovado a sua libertação após uma fiança de 4 mil dólares (3.355 euros), que foi paga pela mulher do irlandês. Porém, a libertação foi bloqueada sem explicação.pelas autoridades federais.
Só após um recurso para a justiça federal é que dois agentes do ICE de Buffalo alegaram que o irlandês terá “aceitado” a deportação e assinado esses papéis, algo que o próprio Culleton nega ter feito.
Ainda assim, a juíza federal deu razão à agência anti-imigração, mesmo tendo notado que há irregularidades nos documentos apresentados pelo ICE. Legalmente, diz o Irish Times, o irlandês não pode recorrer desta decisão mas mantém a esperança que, se for divulgado o vídeo do interrogatório pelo ICE, possa ser provado que não assinou os documentos.
Okoye descreveu o caso do irlandês como “muito incomum”, já que, normalmente, pessoas com um pedido válido para um visto permanente não seriam detidos de todo. “Toda a minha vida está aqui. Trabalhei muito para construir o meu negócio. A minha esposa está aqui”, disse Culleton ao telefone.
“Aqui está um senhor que é um imigrante exemplar. Ele era dono de um negócio de sucesso e é casado com uma cidadã americana”, disse a advogada, sublinhando que não faria muito sentido que concordasse ser deportado.