A premissa era tão simples quanto assustadoramente próxima na linguagem e no aspeto das aplicações tecnológicas do nosso tempo. O RelationChip surgiu como uma aplicação que fazia uma promessa: “Dois chips, um namoro, zero segredos”.
A lógica desta app era fornecer dois microchips subcutâneos que permitiriam a cada membro do casal saber tudo sobre a cara-metade, rastreamento de localização, acesso a passwords e monitorização de contactos.
A apresentação de mupis e vídeos com mensagens como “amor é conhecerem cada passo um do outro” e “queres saber se está realmente em casa?” começou a gerar discurso online, particularmente devido à indignação de figuras públicas como Ana Markl e Inês Castel Branco, alertando para o que parecia ser um produto saído diretamente da série televisiva distópica Black Mirror.
Todavia, esta quinta-feira, 12 de fevereiro, a Associação de Apoio à Vítima (APAV) revelou que tudo se tratou de uma campanha de sensibilização no âmbito do Dia dos Namorados para “expor e confrontar a normalização de comportamentos de controlo nos relacionamentos entre jovens”, como expressa em comunicado. De resto, as figuras públicas que se indignaram com o RelationChip também colaboraram na promoção desta estratégica de marketing, que foi concebida em conjunto com as agências publicitárias do Grupo Omnicom – BBDO, OmnicomPRGroup e OMD e com a produtora LOOKS:GOOD.
O website original de promoção ao RelationChip foi então substituído por outro, o mudaochip.pt, que serve-se do jogo de palavras para promover um novo slogan: “Muda o chip. Controlo no namoro é violência”.
De acordo com a APAV, a campanha gerou controvérsia justamente por funcionar “como espelho de práticas quotidianas realizadas através de telemóveis e redes sociais”, procurando assim “confrontar os jovens com a realidade dos seus próprios comportamentos”.
Há fortes razões para esta associação ter-se focado nesta problemática a propósito de um dia que celebra as uniões amorosas. Segundo a APAV, nos últimos quatro anos prestou assistência “a 3968 vítimas de violência durante e após as relações”, sendo que dos dados mais críticos é que “29% dos casos envolveram jovens menores de 25 anos, que sofreram pelo menos um tipo de violência — incluindo controlo, violência psicológica, perseguição e violência sexual”.
“O controlo tem sido identificado como o tipo de violência mais normalizado e frequentemente
interpretado como demonstração de amor e confiança”, frisa a APAV. A associação alerta aos jovens que aprendam a “identificar os sinais de alerta que indicam comportamentos controladores numa relação”, passando estes pelo “rastreamento contínuo de localização, exigência de acesso a passwords, controlo de amizades e movimentos, e monitorização de comunicações”.
Em declarações ao semanário Expresso, a APAV classificou como positiva a reação generalizada de repúdio a um produto como o RelationChip, mas com a ressalva de que também recebeu contactos de “um ou outro interessado em saber onde se comprava e o preço”. “Comparado com a reprovação demonstrada, foi algo mínimo”, sublinham.
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