Os dados recolhidos pelo novo estudo do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) traduzem a realidade do consumo da canábis, a “substância ilícita mais consumida em Portugal”. Apesar de na sociedade civil ser mais frequente o consumo por parte dos homens, a diferença diminui substancialmente quando se fala em consumo problemático — nas prisões e/ou centros educativos, a tendência inverte-se: nestes últimos, o consumo de risco atinge 100% das jovens consumidoras.

É nestes espaços que se concentram os padrões mais graves de consumo da canábis que, apesar de ser menos comum do que já foi, é consumida de forma mais intensa e problemática, revela o Público, citando o estudo. Cerca de 2% da população portuguesa, entre os 15 e os 74 anos, consumiu canábis no ano anterior ao estudo agora divulgado.

Olhando para esses consumidores, entre 25% e 35% denota padrões problemáticos de consumo — que pode ser explicado pela frequência ou dependência, de acordo com a comparação dos dados dos inquéritos realizados nos últimos anos pelo ICAD e citados pelo Público.

É nas prisões e nos centros educativos que a tendência se altera completamente face à população geral. Nas prisões, nota-se um consumo diário ou quase diário em quase metade dos homens (46%). A percentagem, já elevada, aumenta ainda mais quando se olha para as mulheres — 63% assume um consumo diário.

Nos centros educativos, essa tendência acentua-se. Mais de metade dos jovens internados tem padrões de consumo problemático — mais de 80% apresentam um consumo de risco moderado ou elevado e mais de dois terços (62%) descrevem um consumo diário ou quase diário. Em comparação, o consumo entre os alunos do ensino regular é bastante diferente: entre os 13 e os 18 anos, menos de 10% dos consumidores apresentam padrões de consumo de risco moderado ou elevado.

Entre os internados nos centros educativos, há igualmente uma maior prevalência de consumo de canábis entre os rapazes, mas as raparigas que o fazem tendem a ter comportamentos mais graves. Entre os consumidores, o consumo de risco elevado chega a 100% nas raparigas contra 49% dos rapazes — o consumo diário (ou quase diário) também é proporcionalmente mais frequente entre as jovens mulheres.

“As raparigas que já têm um percurso desviante ou que se encontram em situações de vulnerabilidade apresentam uma maior sobrecarga de fatores de risco, nomeadamente associada a experiências e situações de trauma face aos rapazes”, descreveu ao Público Ludmila Carapinha, coordenadora do estudo.

Os dados recolhidos seguem uma tendência já verificada entre 2015 e 2023, que verificam que as mulheres (em prisões ou centros educativos), mesmo sendo menos numerosas, apresentam níveis de consumo mais problemáticos. Fora destes locais, o consumo problemático é mais prevalente entre os homens: entre os 15 e os 74 anos, 1% a 1,2% dos homens apresentam padrões de consumo frequente. Nas mulheres, o valor é cinco a dez vezes inferior (0,1% a 0,2%).

Entre consumidores de canábis, 32% dos homens e 19% das mulheres apresentam consumos problemáticos, o que suporta a conclusão do estudo. Apesar de consumirem menos, quando consomem a probabilidade de desenvolverem padrões problemáticos está mais próxima dos homens.