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Morreu Kukas, a precursora da joalharia de autor em Portugal

Este artigo tem mais de 6 meses

Maria da Conceição de Moura Borges trouxe a joalharia artística para Portugal nos anos 1960 e aos 97 anos continuava a criar peças. "A joia é humanizada", disse ao Observador em dezembro.

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Reprodução @kukas_jewellery_and_objects

Reprodução @kukas_jewellery_and_objects

Morreu a joalheira Maria da Conceição de Moura Borges, Kukas, aos 97 anos. É considerada a precursora da joalharia de autor em Portugal, iniciando o trabalho na década de 1960. Continuava a criar joias e objetos em prata, latão e pedras até muito recentemente, como revelou em entrevista em dezembro de 2025 à revista Observador Lifestyle. De acordo com o jornal Público, morreu na passada quarta-feira.

Nasceu em 1928 na quinta da família perto de Penamacor, na Beira Baixa, mas na juventude foi viver em Paris, onde teve contacto com o mundo do design. Aos 27 anos estudou Decoração de Interiores na École Supérieure des Arts Modernes, mas foi a frequentar uma loja de joias escandinavas na Galerie du Siècle que Kukas despertou para a joalharia. “Achava as joias convencionais uns brilharetes”, disse ao Observador Lifestyle, numa conversa publicada em dezembro de 2025. Em 1963, regressada a Portugal, fez a primeira exposição em nome próprio, na Galeria do Chiado, quando trouxe de França a ideia de joalharia de autor. “Procuro no meu trabalho a estética do detrito. Não deitar fora é uma maneira de valorizar a forma. Muitas vezes, as coisas não têm valor material, mas têm valor estético. Acho que isso é pouco respeitado“, afirmou ainda a joalheira, que abriu um estúdio no seu apartamento no Castelo, nos anos 1960, e trabalhou em colaboração com o mestre ourives António Jordão até 1974.

▲ Algumas das criações recentes de Kukas, que costumava trabalhar com prata, latão e pedra

Nos anos 1970 e 1980, Kukas abriu lojas pela capital, na Praça das Flores e na rua d’O Século, e o trabalho da joalheira passou a ser admirado por nomes como Amália Rodrigues ou Eunice Muñoz. Ficou conhecida não só pelo trabalho na joalharia, mas no design de objetos. “A joia é humanizada, as pessoas usam-na junto à pele. É uma mensagem, uma escolha. É este mundo e o outro. O objeto é uma coisa mais funcional. Com a joia, há uma interação entre quem a vê e quem a usa. É diferente de um objeto, que pode ser muito estático. A joia acaba sendo cinética”, explicou ao Observador em dezembro.

Ao longo das seis décadas de atividade, a designer de joias mostrou a sua obra em exposições coletivas e individuais em Portugal e no estrangeiro, como na Bienal de Arte de São Paulo ou no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em 2012 realizou uma grande mostra individual no Museu do Design e da Moda (MUDE), em Lisboa; em 2019 participou numa exposição coletiva de joalharia contemporânea em Portugal, na Fundação Calouste Gulbenkian, e em 2023 teve peças expostas pela primeira vez no centenário Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC-MC). “Kukas não é apenas uma escultora da joalharia: foi, antes, a primeira autora a renovar a linguagem formal desta arte, em Portugal”, recordou a diretora do museu, Emília Ferreira, na altura da exposição.

Em 2018, as peças de Kukas passaram a ser vendidas em exclusivo na loja do hotel Casa Fortunato, por incentivo de Filipa Fortunato, que este domingo partilhou uma homenagem à joalheira. “A Tia Kukas de facto nunca se aborreceu, sempre em processos criativos a observar formas e transformando-as em joias ou objetos. Uma mulher gloriosa que deixa muitas saudades”, escreveu, nas redes sociais, destacando “a enorme gratidão por ser a pessoa a quem confiou o seu nome Kukas e o seu património artístico, sendo a fiel depositária da sua obra. É um privilégio seguir o legado de Kukas, pioneira do design da joalharia contemporânea em Portugal”.

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