1230,7kWh poupados 1230,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Um remate para a Berlinale sobre "Josephine", feito de silêncios ensurdecedores

Este artigo tem mais de 6 meses

O último concorrente do festival a ter em conta não é um filme qualquer: impressões sobre a nova longa-metragem de Beth de Araújo, a 24 horas do anúncio do palmarés.

Gemma Chan com a pequena Mason Reeves ao colo e Channing Tatum em “Josephine”, de Beth de Araújo
i

▲Gemma Chan com a pequena Mason Reeves ao colo e Channing Tatum em “Josephine”, de Beth de Araújo

▲Gemma Chan com a pequena Mason Reeves ao colo e Channing Tatum em “Josephine”, de Beth de Araújo

Na história do cinema, muitos filmes foram construídos em torno do transtorno mental ou do sofrimento psíquico/emocional, causados por traumas ou abusos, com consequentes alterações na personalidade e no comportamento das vítimas. Muito mais raros, são os filmes que se mostraram dispostos (os que se “atreveram”) a levar essa equação para o campo da saúde mental infantil ou da pedopsiquiatria. Mas quase nenhum deu à infância um ponto de vista.

Estou a lembrar-me de casos isolados como o de A Testemunha (1985), em que uma criança, logo a abrir essa obra de Peter Weir, assistia à violentíssima cena da degola de um homem na casa de banho de uma estação de comboios de Filadélfia. A cena não era apenas tremenda pela expressão gráfica da navalha a cortar a garganta. Violentava duplamente, pois deitava por terra toda a inocência do miúdo que a observava.

Josephine, segunda longa-metragem da cineasta norte-americana Beth de Araújo (tem ascendência paterna brasileira e sino-americana do lado materno), filme a concurso em Berlim e já distinguido, em Janeiro passado, com o prémio mais importante da secção principal de Sundance (a US Dramatic de melhor longa de ficção), inscreve-se instantaneamente neste debate e no mesmo grupo de rareza. Após Queen at Sea, é o segundo “caso psicológico” profundo desta Berlinale a exigir — tratemos a questão com um mínimo de seriedade — um debate científico que ultrapassa as competências de todos os festivaleiros, incluindo o autor destas linhas.

O caso apresentado por Beth de Araújo é terrível. A Josephine do título (Mason Reeves), menina de 8 anos, passeia-se desportivamente, numa certa manhã de domingo, com o pai Damien (Channing Tatum), num parque de São Francisco — é bem cedo, a luz não engana. Desviando-se do progenitor por instantes em caminho bifurcado, a menina testemunha o momento exacto em que uma mulher, ao entrar numa casa de banho pública daquele bosque, é agredida e violada. A menina está escondida atrás de uma árvore, assiste ao crime do início ao fim, da agressão a soco que deixa a mulher inconsciente à violação consumada. Vítima e agressor — apanhado pela polícia, alguns minutos mais tarde, com a colaboração de Damien —, percebem que ela viu o que nenhuma criança deveria ver.

GettyImages-2262655285

▲ Beth de Araújo (a dir.), esta sexta-feira, em Berlim, ladeada por Gemma Chan e Channing Tatum, na conferência de imprensa de “Josephine”, na Potsdamer Platz

Corbis via Getty Images

Mas o mal está feito, é irremediável — e é aqui que Josephine realmente começa. Damien e Claire (Gemma Chan), a mãe da criança, não sabem o que fazer face à sua imediata alteração de comportamentos. Numa loja de brinquedos, a menina quer comprar uma metralhadora. No telemóvel  da mãe em que costuma brincar com jogos, tenta googlar a palavra “raped” sem saber ao certo como ela se escreve. Pior ainda: “Jo” (assim a trata o pai) começa a imaginar que o violador a visita no seu quarto, obrigando Beth de Araújo a tomar decisões peculiares de mise en scène para figurar o fantasma (que só a audiência vê). Nisto, arranca a investigação, com novo trompe l’oeil: aquilo que é óbvio para os olhos do espectador não o é assim tanto para a balança da justiça. Tal como acontecia no filme citado de Peter Weir, o testemunho da criança torna-se vital.

Contou Beth em entrevista (e, depois disso, na conferência de imprensa) que este caso é-lhe familiar: quando ela era criança, presenciou e travou, num passeio com o seu pai, uma tentativa de violação na mesma cidade em que o filme se passa. Já adulta, tirou formação para apoiar mulheres vítimas de violação nos hospitais e, posteriormente, ao longo do processo criminal, paralelamente aos seus estudos de cinema. Há 12 anos que Beth quer fazer este filme e anda com esta história nas mãos, tão difícil de levar a cabo, segundo disse, a nível financeiro. Fala do filme com propriedade e conhecimento de causa. Entretanto, deu o seu primeiro passo na realização de longas-metragens com Soft & Quiet, que se estreou em período ingrato, a meio da pandemia, em 2022 (mas o IndieLisboa seleccionou-o naquele ano). Estreou-se mais tarde, pela Alambique, sob o título Suaves e Silenciosas, encontrando-se, desde 2024, no catálogo da Filmin.

Este texto deixa Josephine no primeiro terço da sua duração, antes da cena em que Josephine já não consegue ver o pai tocar na mãe, porque o fantasma que tem na cabeça tem mais força. E a justiça, “é uma realidade, ou uma coisa que nós inventámos só para nos sentirmos melhor”, como, as tantas, Damien diz à filha? Josephine é um filme ciente deste grau de abstracção e da dificuldade de falar. Em último caso, é um inquérito à linguagem, porque as palavras não conseguem dar expressão ao turbilhão emocional que é enfrentado “naqueles tons cinzentos em que nada para Josephine é a preto e branco”, dirá a mãe dela num momento de crispação que também começa a pôr em causa a unidade daquela família.

“I see him everywhere, all the time”, também dirá Josephine do seu fantasma, numa entrada à la Shyamalan que parece forçada. Desta parte, surpreende-nos a forma corajosa com que o filme mergulha na sua matéria dubitável; a partir de certo ponto, o desenvolvimento dramático começa a ilustrá-la e a galantear o filme de horror com um ponto de vista problemático, perturbado, em que a menina fica irremediavelmente sozinha.

“Há tantas situações no mundo que vão acontecer e magoar-te, e a culpa não é tua — mas é tua a responsabilidade de reparar o teu próprio sofrimento.” Quem aqui fala a “Jo” é a mãe dela. A franqueza do diálogo sobre aquele assunto “do qual ninguém te pedirá desculpas” solidifica-se, num filme que, ao longo desta sexta-feira, provou não ser vulgar, como vulgar não é a forma como ele resiste e se evade do olhar do advogado de acusação.

De Josephine continuaremos a falar mais à frente, ou muito em breve, se o júri presidido por Wim Wenders o chamar amanhã ao palmarés.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

[O acampamento mais importante do ano. O concurso de Miss com biquinis minúsculos. E o obscuro ritual tântrico em grupo. Ouça o quarto episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro]

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.