A empresa norte-americana de inteligência artificial (IA) Anthropic afirmou que não vai ceder às exigências do Departamento de Defesa (ou da Guerra) dos Estados Unidos de utilizar sem restrições o seu modelo de IA. O CEO da empresa, Dario Amodei, disse esta quinta-feira que prefere não trabalhar com o Pentágono a concordar com a utilização da tecnologia que possa “degradar, em vez de defender, os valores democráticos”. Donald Trump já reagiu, ordenando o fim dos contratos federais com a Anthropic, que classifica agora como sendo “uma empresa woke de esquerda radical”.
“Ordeno todas as agências federais do Governo dos EUA a cessarem imediatamente todo o uso da tecnologia da Anthropic. Não precisamos dela, não a queremos, e não vamos voltar a fazer negócios com eles!”, anunciou Trump na Truth Social, esta sexta-feira à noite, acrescentando que vai existir um período de seis meses de transição e ameaçando que a Anthropic deve colaborar e “ser útil” neste período. “Caso contrário, usarei o poder da Presidência para obrigá-los a colaborar, seguindo-se grandes consequências civis e criminais”.
Na mesma publicação, Trump diz que este é um “enorme erro” cometido pelos responsáveis da empresa, que classifica como “malucos de esquerda”, cujo “egoísmo” diz estar a colocar vidas de norte-americanos em causa. E acrescenta que não é a Anthropic que decide “o destino do país”.
De acordo com o New York Times, a posição da Anthropic surgiu dois dias depois de uma reunião com o secretário da Defesa, Pete Hegseth, que exigiu que a empresa aceitasse, sem restrições, o uso das suas ferramentas de IA. O encontro terminou com as autoridades militares a alertar que poderiam cancelar o contrato da Anthropic, designar a empresa como um risco para a cadeia de abastecimento ou invocar uma lei da época da Guerra Fria chamada Lei de Produção de Defesa para dar às Forças Armadas uma autoridade mais abrangente para utilizar os seus produtos, mesmo que a empresa não aprove.
“As duas últimas ameaças são inerentemente contraditórias: uma rotula-nos como um risco para a segurança; a outra rotula Claude como essencial para a segurança nacional”, apontou Amodei.
O conflito centra-se na utilização do sistema de IA Claude para dois fins específicos: vigilância doméstica em larga escala e armas totalmente autónomas. Amodei sublinhou, na nota, que este uso nunca fez parte dos contratos da empresa com o Departamento de Defesa e acredita que não deveriam passar a fazer.
“Estas ameaças não mudam a nossa posição. Não podemos aceder ao pedido”, frisou Dario Amodei em comunicado.
A statement from Anthropic CEO, Dario Amodei, on our discussions with the Department of War.https://t.co/rM77LJejuk
— Anthropic (@AnthropicAI) February 26, 2026
Washington tinha dado à jovem empresa californiana até esta sexta-feira para conceder acesso incondicional à sua tecnologia, sob ameaça de medidas de emergência federais que a obrigariam a acatar o pedido.
A criadora do chatbot de IA Claude referiu que não está a abandonar as negociações, mas que a nova redação do contrato recebida do Departamento de Defesa “praticamente não fez qualquer progresso na prevenção do uso de Claude para vigilância em massa de cidadãos americanos ou em armas totalmente autónomas”.
CEO da Anthropic volta a alertar para os riscos da IA. “A Humanidade precisa de acordar”
Dario Amodei já tinha alertado, em janeiro, que “a Humanidade precisa de acordar” para os riscos da IA. Num longo ensaio, o criador de uma das empresas em destaque nesta área afirma a necessidade de “confrontar e superar os riscos de uma IA poderosa”.
O principal porta-voz do Pentágono reiterou que as Forças Armadas desejam utilizar a tecnologia de IA da Anthropic de forma legal e que não permitirão que a empresa imponha quaisquer limites antes do prazo final para concordar com as suas exigências.
Sean Parnell destacou na quinta-feira, nas suas redes sociais, que o Pentágono “não tem interesse em utilizar a IA para realizar vigilância em massa de cidadãos norte-americanos (o que é ilegal), nem para desenvolver armas autónomas que operem sem intervenção humana”.
The Department of War has no interest in using AI to conduct mass surveillance of Americans (which is illegal) nor do we want to use AI to develop autonomous weapons that operate without human involvement. This narrative is fake and being peddled by leftists in the media.… https://t.co/3pjWZ66aXz
— Sean Parnell (@SeanParnellASW) February 26, 2026
As políticas da Anthropic impedem que os seus modelos, como o chatbot Claude, sejam utilizados para estes fins. É a última das suas concorrentes — o Pentágono tem também contratos com a Google, a OpenAI e a xAI de Elon Musk — a não fornecer a sua tecnologia a uma nova rede interna das Forças Armadas dos EUA.
Parnell afirmou que o Pentágono deseja “utilizar o modelo da Anthropic para todos os fins legais”, mas não esclareceu o que isso implicaria. “Não permitiremos que nenhuma empresa dite os termos sobre a forma como tomamos decisões operacionais”, vincou.