A Nos garante já ter reposto todo o serviço móvel nas zonas afetadas pelas tempestades, nomeadamente a kristin que arrasou a zona de Leiria a 28 de janeiro. Miguel Almeida, presidente da operadora, assume que, no entanto, no fixo há ainda clientes sem serviço Nos, serão menos de cinco mil (2-3% dos clientes), concretizou em conferência de imprensa na qual explicou os resultados de 2025, na qual a empresa lucrou quase 250 milhões de euros. 

“O que aconteceu em 28 janeiro nunca tinha acontecido nos tempos modernos”, realçou o gestor que está há 26 anos no setor, garantindo: “Nunca assisti a este nível de destruição”, para a qual “nenhum operador do mundo está preparado”.

“Não tínhamos a noção da dimensão que a tempestade ia ter. Não estamos preparamos para uma coisa desta dimensão”, assumindo que, no entanto, a resposta imediata, nas primeiras horas, podiam ter corrido melhor. De resto, garante que no conjunto para repor as redes “não havia como fazer melhor. Todos os recursos possíveis e imaginários foram alocados”. E se a rede móvel está “totalmente recuperada”, a rede fixa ainda não está “totalmente”. Houve centenas de quilómetros de fibra ótica destruídos. “E há ainda à data de hoje locais que não têm energia” e sem energia não há comunicações. Além disso, acrescenta Miguel Almeida, há parte das infraestruturas que tem outros proprietários. Por exemplo os postos ou as condutas ou sites onde estão as infraestruturas ativas de comunicações. Pede mais umas semanas. Salienta que, no entanto, para repor rede até à última pessoa serão ainda necessários “dois ou três meses”.

Mas Miguel Almeida diz ter visto algumas discussões de “pouco senso”, nomeadamente a que pede a redução da dependência das estruturas aéreas. “Não tem sentido”. A Nos garante que a sua fibra chega a 94% dos portugueses.

Miguel Almeida garante que “as redes são bastantes resilientes. Nada prepara para uma situação desta”. Além disso, explica, a utilização de microondas para ligar estações poderia facilitar, mas o gestor fala de taxas de espetro pagas ao Estado “impossíveis”. As taxas microondas em Portugal são 102% mais elevadas do que a média europeia, mas são, por exemplo, 4 vezes mais altas do que as praticadas na Suécia ou 3 vezes mais altas do que as praticadas na Alemanha. Os operadores têm pedido a redução destas taxas, mas não têm tido sucesso. “O Estado prefere obter estas receitas do que contribuir para a situação”.

Outra das decisões reclamadas pela Anacom e pelo Governo a de os operadores optarem por roaming nacional nestas zonas é também, na opinião de Miguel Almeida, “demagógica”. “Nunca seria solução”. Se há um “apagão para um operador há para outros, se há tempestade para uns há para outros. O roaming nacional não é solução, até porque montá-lo demora e se estamos a por carga num operador ele iria abaixo”. Além disso houve 15 torres destruídas, onde estão mais do que um operador. A destruição física apanha todos.

A contagem dos prejuízos ainda não está concluída. Miguel Almeida fala em milhões de euros, que serão suportados pelos operadores. “Não vão ser os cidadãos a pagar e não vamos pedir nada”, assume, garantindo ainda que “não há seguros” a cobrir este prejuízo. Os clientes vão ser compensados dos dias que ficaram sem serviço.

“Não estou confortável” em ser fornecedor da SIRESP

A redundância de satélite para Miguel Almeida também não é solução para um caso destes, já que pode servir pontualmente, mas não de forma generalizada, até porque tem “limitações profundas. Serve para comunicações de emergência”, assume, afastando qualquer responsabilidade sobre as falhas do SIRESP, na qual a Nos é um dos fornecedores (conectividade fixa e redundância satélite “parcial, muito parcial, por desenho da arquitetura”). Mas Miguel Almeida atira que a Nos não tem “nenhuma responsabilidade nas opções tecnológicas do SIRESP. Não temos nada a ver com isso”.

E por isso tendo em conta a associação que fazem da Nos às falhas do SIRESP, Miguel Almeida garante não estar confortável com ser fornecedor do Estado. “Ficar com fama sem ter proveito não estou confortável. Não temos a responsabilidade do desenho da solução, não temos. Temos o ónus mas sem capacidade de decidir. Não tenho problema em servir o Estado. Mas é aborrecido as pessoas acusarem a Nos”.

Nos aguarda decisões sobre licenças

A Nos ainda aguarda decisões sobre a renovação das licenças que expiram em 2027. A Anacom “não tomou nenhuma decisão” e “não sabemos o que vai acontecer a esse espectro”. Mas Miguel Almeida recorda que a Comissão Europeia recomendou que licenças tivessem uma duração longa ou mesmo ilimitada e que Portugal não pode ir ao arrepio dessa recomendação. “A não ser que Portugal queira andar em contra mão”, declara, dizendo que esse “espectro é absolutamente essencial para responder clientes, e não sabemos se vai ser renovado”.

Na conferência de imprensa, Miguel Almeida apresentou os dados de investimento da empresa nos últimos quatro anos, em que foi um ciclo de investimento “muito pesado”. Só na tecnologia 5G foram investidos 475 milhões e em fibra o volume de investimento atingiu 370 milhões.

Em 2025, face a 2024, o investimento da Nos caiu 2,4%, uma “trajetória de redução estrutural”, indica a operadora, assumindo que, no entanto, é a empresa do setor que mais investe no mercado. Só que está a chegar a fase final de ciclo de grande investimento. “Não é preciso manter nível”, mas “em número absoluto é muito maior do que os concorrentes. Investimos bastante mais”.

A Nos assume foco na rentabilidade, com “resultados muito robustos”, o que lhe permite aumentar o dividendo, pagando um valor extraordinário. Será apresentada a proposta à assembleia-geral de pagar 35 cêntimos de dividendo ordinário e mais 10 cêntimos por ação de pagamento extraordinário. Mesmo assim, explica Miguel Almeida, a empresa continua a diminuir dívida e não paga todo o valor gerado.

Miguel Almeida fala da Nos como uma empresa muito além das telecomunicações, estando a transformar-se numa empresa tecnológica. Já fez compras no passado para reforçar essa vertente e admite continuar a fazê-lo. Está a olhar para muitas empresas e 2026 pode trazer “mais novidades”.

No portfólio que tem atualmente, a empresa diz-se confortável com a participação que tem na Sport TV, uma posição histórica. “Não vemos razão para sair. Estamos confortáveis com essa participação, não vemos razão para aumentar ou diminuir” e sobre o contrato com o Benfica Miguel Almeida diz ter sido uma extensão por dois anos do contrato fechado em 2015, com um incremente de custos “inferior à inflação”.

Nos cinemas, a Nos teve descida das receitas em 2025, mas Miguel Almeida não considera haver um problema estrutural no setor, notando que os encerramentos de várias salas não foram feitos pela Nos — que só saiu do Alvaláxia por decisão do Sporting. “Estamos confortáveis com o estado atual e com estarmos nesta área de negócio que nos dá uma oportunidade de contacto físico com os nossos clientes e que permite levar a marca às pessoas. Estamos muito satisfeitos e é para manter no portfólio”.