Em geral, alfarrabistas não são editores, a não ser dos seus catálogos, a maioria dos quais, verdade seja dita, de grande valia para colecionadores e estudiosos de todo o tipo, mas a In-Libris, do Porto, destaca-se já claramente pela publicação de livros de grande interesse, exibindo o gosto do seu proprietário, Paulo Gaspar Ferreira, por fotografia, de que são exemplos A Cidade do Porto na obra do fotógrafo Bernardino Pires, em três tomos, em 2022-25, mas também — antecipando este título — O Douro do Vinho na obra do fotógrafo Emílio Biel, feito em 2016. A boa oportunidade para este Caminho de Ferro da Beira-Alta. Emílio Biel & C.ª — originalmente de tiragem muito estrita e “peça de grande raridade” (p. 3) — foi-lhe concedida por um cliente, o bibliófilo Eduardo Teixeira, que facilitou a sua reprodução facsimilada. O livro distingue-se pela sua sobriedade elegante, muito bem conseguida; porém o formato original foi reduzido, sem que isso fique esclarecido, o que é de regra do ofício fazer-se.

Como refere Manuel de Novaes Cabral, presidente da Fundação Museu Nacional Ferroviário e autor do prefácio, a inauguração da linha da Beira Alta pela família real portuguesa, em agosto de 1882, foi assinalada por Les Fêtes en Portugal, relato jornalístico do judeu polaco B. P. Wolowsky impresso em Paris em 1883 (e reabilitado em 2017 pela Associação Cultural Azurara da Beira, de Mangualde, a pretexto dos 135 anos da inauguração daquela linha ferroviária, com uma breve apresentação do tradutor Victor Nabais). Ainda assim, um melhor enquadramento deste grande empreendimento infra-estrutural do fontismo, ligando a Figueira da Foz a Vilar Formoso em 200 km de linha férrea e um complexo de túneis, pontes-viaduto em ferro ou pedra, exigiria a consulta e citação de outras publicações referentes, como Estudo sobre o caminho de ferro da Beira Alta feito pela Correspondência Geral Portuguesa e Lei e Contrato do Caminho de Ferro da Beira Alta, ambas de 1878, e o igualmente raro Caminho de Ferro da Beira Alta. Obras d’Arte, MM Eiffel entrepreneur des ponts métalliques, Lisboa: Callemont Frères Imprimeurs, 1882, que Paulo Ribeiro Baptista refere na sua tese de 1994, editada em 2010 — para já não falar da interessantíssima biografia do próprio Karl Emil Biel (1838-1915), um alemão da Saxónia que, bem novo, se fixou em Portugal em 1859, aportuguesando o seu nome para Emílio Biel.

Título: “Caminho de Ferro da Beira-Alta. Emílio Biel & C.ª” | Texto: Manuel de Novaes Cabral | Editor: In-Libris. Sociedade para a Promoção do Livro e da Cultura | Páginas: 106

A fotografia comercial e industrial não foi a sua primeira área de trabalho (teve uma fábrica de botões…), mas em 1873 adquiriu a Casa Fritz no Porto e dois anos depois esteve com Carlos Relvas na Golegã, ambos sendo precursores na edição fotográfica com a utilização da fototipia. Escreve António Sena na sua História da Imagem Fotográfica em Portugal — 1837-1997, que a fototipia era “o processo ideal e delicado para o levantamento de um país virgem que Emílio Biel faria no campo da engenharia e da arquitectura, que Carlos Relvas faria na paisagem e nas obras de arte, e Cunha Moraes na paisagem e costumes da África Ocidental” (p. 97).

A linha ferroviária da Beira Alta não foi a única que Biel fotografou. Em 1872-73 produziu e vendeu coleções de fotografias do caminho de ferro do Douro. De 1876 a 1887 — foi fotógrafo da Casa Real a partir de 1876 — seguiu a construção das pontes D. Maria Pia e D. Luís no Porto. Em 1887, portanto cinco depois daquela, ocupou-se de documentar em fototipias as linhas do Douro e do Minho, para um álbum impresso no ano seguinte e pertencente a Francisco Perfeito de Magalhães Meneses Vilas-Boas, engenheiro dos caminhos de ferro e um dos responsáveis da construção, e hoje de pose da família Mascarenhas Gaivão, que serviu de base a uma exposição (e um bom catálogo) no Museu de Lamego em finais de 2013. Também produziu Caminho de Ferro do Sul para a belga Société Anonyme Internationale de Construction et d’Entreprise de Travaux publics Braine le-Comte, com 9 fototipias de pontes, igualmente muito difícil de encontrar. Todos estes trabalhos se assemelham nos enquadramentos escolhidos para as fototipias de estações ferroviárias, pontes-viadutos e túneis, denotando particular dedicação ao registo das grandes estruturas metálicas de via única cruzando a paisagem beirã ou minhota (v., por exemplo, as imagens das pontes dos rios Milijoso, Dão e Côa; e no catálogo de 2013 a do Coura e a ponte internacional sobre o rio Minho).

Tal como o comboio ele mesmo, ex-libris da civilização oitocentista, como alguém lhe chamou, também a engenharia do ferro veio instituir a sua “idade”, marcando uma época de progresso com as suas surpreendentes realizações verticais e horizontais. É com os olhos do tempo em que estas belas imagens foram feitas que as devemos admirar, como monumentos gráficos à capacidade humana de transpor obstáculos naturais e criar linhas de mobilidade transterritorial de pessoas e mercadorias, numa impactante e inclusiva campanha desenvolvimentista. Estamos também diante do portefólio de um fotógrafo que foi uma das figuras industriais mais marcantes do Porto na viragem do século, e todavia muito maltratado no fim da vida e na imediata posteridade, por força do modo como a sua matriz germânica foi entendida em contexto beligerante internacional, o que representou um devastador prejuízo para o nosso património cultural. Como escreveu Maria do Carmo Serén, “a grande maioria dos clichés que constituía a poderosa coleção de Biel — milhares de clichés em puro vidro — [foram] vendidos a peso para as fábricas de cerâmica e vidro do Candal” (1993, p. 18)… Por isso, da obra fotográfica de Biel e da sua Casa, tudo o que hoje nos resta são algumas tiragens e impressões, dispersas pelas mãos de colecionadores e por alguns arquivos públicos.

Também por isso este álbum da In-Libris merece ser conhecido e reportado entre os amigos da fotografia — e ainda dos saudosos do transporte e do ócio ferroviário, do qual, contra toda a evidência e prudência, nos afastamos cada vez mais…