Os cigarros eletrónicos podem, afinal, não ser a melhor solução para combater os cigarros ditos “tradicionais”. Um estudo científico, publicado esta segunda-feira na revista Carcinogenesis, concluiu que o uso de vapes com nicotina é “provavelmente cancerígeno para os humanos” e pode estar associado ao desenvolvimento de cancros do pulmão e da boca.

“Considerando todos os resultados, desde monitorização clínica a estudos em animais e dados mecanísticos, os cigarros eletrónicos são suscetíveis de causar cancro do pulmão e cancro oral”, afirmou Bernard Stewart, investigador da Universidade de New South Wales, em Sydney, que liderou o estudo, à Bloomberg.

O estudo coloca em causa uma indústria que surgiu para ser uma alternativa ao tabaco tradicional. Países como a Nova Zelândia e o Reino Unido têm apoiado o uso de cigarros eletrónicos como forma de ajudar os fumadores a controlarem o vício. Mas os autores do estudo alertam que esta visão pode estar a subestimar os riscos de longo prazo.

Afinal, o que diz (mesmo) a ciência sobre os cigarros eletrónicos? Os dois lados da controvérsia analisados à lupa

Os investigadores analisaram dados clínicos, experiências laboratoriais e estudos em animais, recorrendo a biomarcadores (alterações biológicas precoces associadas ao desenvolvimento de cancro), uma vez que os cigarros eletrónicos só se tornaram amplamente usados há uns anos, o que significa que a prova definitiva baseada em resultados humanos de longo prazo ainda poderá demorar muito tempo a chegar.

Segundo o estudo, quem usa cigarros eletrónicos absorve compostos relacionados com a nicotina, metais pesados e outras substâncias químicas capazes de provocar danos no ADN e inflamação, dois mecanismos habitualmente associados ao aparecimento de tumores. “Não há dúvida de que as células e os tecidos da cavidade oral e dos pulmões são alterados pela inalação proveniente dos cigarros eletrónicos”, disse Stewart.

Cigarros eletrónicos têm substâncias químicas potencialmente nocivas que não identificadas pelo fabricante

Ainda assim, os autores da investigação reconhecem que a experiência não permite, por agora, avaliar com exatidão o risco. “A nossa avaliação é qualitativa e não envolve uma estimativa numérica do risco ou do peso do cancro”, explicou Stewart.

O estudo chama também à atenção para o “duplo uso“, ou seja, o caso de fumadores que não substituem totalmente os cigarros tradicionais pelos eletrónicos e mantêm ambos. Segundo os investigadores, trata-se de uma situação comum e mais de metade dos fumadores não consegue abandonar nem o tabaco nem os vapes.

“Sabemos, com base em evidência epidemiológica recente dos Estados Unidos, que quem fuma e usa cigarros eletrónicos em simultâneo tem um risco adicional quatro vezes superior de desenvolver cancro do pulmão”, afirmou Freddy Sitas, coautor do estudo, à Bloomberg.

Os especialistas sublinham, porém, que estas conclusões não devem ser lidas como um argumento a favor do regresso aos cigarros tradicionais. O tabaco continua a ser muito mais nocivo e representa um risco muito superior para a saúde. “O que sempre assumimos foi que os vapes eram mais seguros do que os cigarros, mas aquilo que estamos a mostrar é que podem, afinal, não ser seguros“, concluiu Sitas.

Quinze milhões de jovens entre 13 e 15 anos fumam cigarros eletrónicos, diz ONU

A Organização Mundial de Saúde tem alertado para o “uso alarmante” de cigarros eletrónicos por crianças e jovens, apelando para uma “ação urgente” de controlo do consumo, para minimizar danos para a saúde. Estima-se que pelo menos 15 milhões de jovens entre os 13 e os 15 anos fumem estes dispositivos em todo mundo.