A RDP África celebra quarta-feira o seu 30.º aniversário, afirmando-se como uma “ponte essencial” entre Portugal e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e salientando um percurso marcado pela proximidade e promoção da cultura lusófona.

“Ao longo dos anos, a RDP África afirmou-se como um ponto essencial de Portugal com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), interveio nas mais diversas áreas, políticas, culturais, desportivas, em grandes festivais de música que se realizam em África”, disse à agência Lusa o presidente do Conselho de Administração da RTP, Nicolau Santos.

Fundada em 1 de abril de 1996, a estação — que inicialmente se chamava Canal África (1994-1996), tendo alterado o nome por existir uma congénere homónima na África do Sul — começou por emitir no continente, chegando à frequência de Lisboa apenas um ano depois, em 1997.

Para Nicolau Santos, a RDP África — agora rebatizada Rádio RTP África — continua a ser o “meio por excelência” no continente africano, onde “é muito mais importante do que a televisão”.

O responsável destacou o papel da estação no combate à desinformação através do “jornalismo de qualidade” e no apoio direto aos cidadãos, nomeadamente em questões de imigração e legalização em Portugal.

Ao longo das últimas três décadas, a estação tem sido uma “testemunha viva” dos momentos mais marcantes da história recente dos PALOP.

A jornalista Paula Borges, que integra o projeto desde a sua origem, com uma interrupção de um ano em 2000, recordou que foi numa manhã chuvosa que tudo começou e que a equipa original, de jovens de “20 e poucos [anos], acabados de [se] licenciarem”, liderada pelo jornalista e primeiro diretor da estação, David Borges, tinha imensa “vontade de fazer” este projeto.

“Eu penso que, em vários momentos da nossa história, acompanhámos os nossos ouvintes em momentos muito fraturantes”, referiu Paula Borges, destacando a Guiné-Bissau como um dos países mais acompanhados pela rádio devido à instabilidade político-militar e lembrando que a estação montou a operação “Linha da Guiné”, em 1998, para promover o reencontro entre famílias em fuga devido aos conflitos no país.

“[A] Guiné-Bissau talvez seja o país que vamos acompanhando de forma mais presente e que temos sido o tal repórter no terreno que tem permitido relatar a história, a verdadeira história do que está a acontecer”, reforçou também o subdiretor da estação, Nuno Sardinha, acrescentando que a “RDP África é uma testemunha viva da vida, nos últimos 30 anos, da relação de Portugal com a África e do desenvolvimento histórico de cada um dos países”.

Segundo Nuno Sardinha, a rádio tem a capacidade de unir milhões de ouvintes, “estando ao mesmo tempo tão perto e tão longe”.

Com correspondentes em todos os países e uma forte audiência em cidades como Maputo, Moçambique – onde regista mais de um milhão de ouvintes, a rádio tem procurado dar visibilidade aos “cidadãos sem voz” em comunidades remotas, recorrendo a bolsas de investigação e parcerias com a União Europeia para coberturas que ultrapassam a agenda política.

Além da vertente informativa, a RDP África consolidou-se como a principal montra da música africana. Sem utilizar as tradicionais ‘playlists’ comerciais, a rádio promove cerca de 50 novos artistas por ano, salientou.

Nomes hoje consagrados internacionalmente, como Matias Damásio, Anselmo Ralph, Ferro Gaita ou Mayra Andrade, tiveram na estação a sua “rampa de lançamento”.

“Nós levamos África ao mundo e trazemos o mundo a África”, afirmou o subdiretor, lembrando grandes momentos como um concerto no Estádio Nacional 24 de Setembro, na Guiné-Bissau, onde chegaram a estar cerca de 60 mil pessoas, ou o ‘Africa Parade’, que reuniu cerca de 100 mil pessoas em Lisboa para celebra os 50 anos do Dia da África.

Apesar da mudança de nome para Rádio RTP África, assegurou que a identidade mantém-se focada na língua portuguesa como base de comunicação.

Nuno Sardinha disse acreditar que o desafio atual da estação passa por atrair a segunda geração de descendentes africanos nascidos em Portugal e pela adaptação tecnológica, defendendo o alargamento da emissão a todo o território português para apoiar a integração das comunidades lusófonas.

No entanto, Paula Borges alertou para a “inquietação” de manter a aposta no sinal FM, essencial para as populações infoexcluídas onde a internet ainda é escassa e cara.

“Não se pode travar o vento com as mãos, como dizia o Presidente Samora Machel, [primeiro chefe de Estado moçambicano após a independência em 1975], mas pode seguramente prestar um serviço que as pessoas entendem que é útil, credível e rigoroso”, concluiu Nicolau Santos.