No final de 2026, chega ao fim o segundo mandato de António Guterres como secretário-geral da Organização das Nações Unidas. Assim, e desde há alguns meses, vários candidatos têm vindo a posicionar-se na corrida para suceder ao ex-primeiro-ministro português no cargo mais alto da diplomacia a nível mundial. Esta quarta-feira, termina o prazo para a apresentação de candidaturas, sendo que, até ao momento, há quatro nomes perfilados para suceder a Guterres.
A corrida ao cargo começou formalmente no final de novembro de 2025, quando a Serra Leoa, o país que preside ao Conselho de Segurança da ONU e também Annalena Baerbock, presidente da Assembleia Geral, enviaram uma carta conjunta solicitando as nomeações dos diversos países. Os candidatos que almejem ocupar o cargo de secretário-geral da ONU podem apresentar candidaturas individuais mas têm de esperar pela nomeação de um ou mais países para que o processo pode avançar.
Tradicionalmente, o cargo é rotativo entre as regiões, mas quando Guterres foi eleito, em 2016, esperava-se que fosse escolhido um nome oriundo da Europa Oriental, o que não aconteceu. Como nota a Reuters, se for mantido o acordo não escrito (e que não terá sido cumprido há 10 anos), desta vez deverá ser nomeado um secretário-geral oriundo da América Latina. Se assim for, surge como uma das favoritas a chilena Michelle Bachelet.
Argentino Rafael Grossi e chilena Michelle Bachelet são os favoritos
A ex-presidente chilena foi formalmente indicada para o cargo pelo Chile, Brasil e México a 2 de fevereiro, embora o Chile tenha retirado o apoio a 24 de março, pouco dias após ter tomado posse o novo presidente do país, José Antonio Cast. Conotado com a direita radical, Kast decidiu retirar o apoio à ex-presidente socialista. Se for eleita, Bachelet, de 74 anos, será a primeira mulher a ser escolhida para o cargo.
A acontecer, o ex-presidente chilena não terá de um longo período de adaptação à ONU, uma vez que já ocupou vários cargos dentro da organização. Foi Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos de 2018 a 2022 e Diretora Executiva da ONU Mulheres de 2010 a 2013.
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Numa carta enviada à ONU, Bachelet referiu estar “confiante de que experiência” acumulada que tem a preparou para “enfrentar um momento em que o sistema internacional se depara com desafios sem precedentes em termos de escala, urgência e complexidade” e demonstra preocupação com o atual cenário internacional. “Os conflitos armados prolongam-se, as ameaças diversificam-se, a desconfiança entre os intervenientes cresce e as disrupções tecnológicas estão a redefinir os alicerces das nossas sociedades. Neste cenário de transformação global, as Nações Unidas devem reforçar a sua capacidade de ação, antecipação e serviço“, escreve a ex-chefe de Estado chilena. “A minha liderança basear-se-á na reconstrução da confiança nas Nações Unidas, com foco nos problemas da atualidade”, lê-se ainda na missiva.
Outro forte candidato a liderar a ONU é o argentino Rafael Grossi, atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), cargo que ocupa desde 2019. Grossi conta com o apoio do seu país-natal. Diplomata há mais de 40 anos, Grossi já foi embaixador da Argentina na Áustria, tendo-se especializado, durante as últimas três décadas, nos temas do controlo de armas e energia nuclear. Ocupou também o cargo de representante da Argentina em Genebra, a sede europeia da ONU.
Na carta onde explica a sua visão para a ONU, Grossi defendeu uma ONU renovada e orientada para apresentar resultados. “A relevância das Nações Unidas perdura, mas a sua eficácia deve ser renovada […] é urgentemente necessária uma abordagem honesta e corajosa para alcançar uma Organização que seja relevante e impactante. O mundo não precisa de mais declarações“, assinalou o atual diretor-geral da AIEA, numa crítica velada ao mandato de António Guterres. O candidato argentino acrescenta que é necessário uma “capaz de responder às exigências reais do nosso tempo, com imparcialidade e uma abordagem orientada para os resultados, fundamentada em factos”.
No espaço geográfico da América Latina emergiu ainda uma outra candidata: a ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan. Política e economista, atualmente ocupa o cargo de Secretária-Geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Com uma longa carreira no seio da organização que quer agora liderar, Grynspan já ocupou o cargo de subscretária-geral durante o mandato de Ban Ki-moon e foi também responsável pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento entre 2010 e 2014.
Outro candidato é o ex-presidente do Senegal Macky Sall, indicado pelo Burundi. Na carta de intenções, Sall afirmou que o mundo atravessa uma profunda crise na qual a ONU enfrenta crescente desconfiança e um risco sem precedentes de enfraquecimento. O político defende ainda que a organização precisa de ser reformada, simplificada e modernizada.
Novo secretário-geral tem de reunir consenso entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança
No final de março, uma das candidatas à liderança da ONU, a argentina Virginia Gamba, foi afastada da corrida quando as Maldivas retiraram o apoio à candidatura.
O processo de audição dos candidatos inicia-se a partir de 20 de abril, com os chamados diálogos interativos (que serão transmitidos online), e nos quais os candidatos poderão apresentar a sua visão para a ONU e os Estados-membros poderão fazer perguntas.
Depois disso, o Conselho de Segurança, compostos por 15 países, realizará votações secretas – designadas votações informais – até que se chegue a um consenso. As opções dadas aos membros do Conselho para cada candidato na votação informal são: apoiar, desaconselhar ou não ter opinião.
Por fim, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança com poder de veto — Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França — devem concordar com um candidato. Quando António Guterres foi escolhido em 2016, foram necessárias seis votações informais para que o Conselho de Segurança chegasse a um acordo, lembra a Reuters. De seguida, o Conselho de Segurança adota uma resolução recomendando uma nomeação à Assembleia-Geral. A resolução precisa de nove votos a favor e nenhum contra para ser aprovada.