Portugueses a viver na Hungria descreveram uma “vontade de mudança” e um “otimismo contido” dos húngaros nas legislativas de dia 12, com o opositor Petér Magyar a surgir como favorito para derrotar o primeiro-ministro, Viktor Orbán.
“O que eu sinto agora neste momento é que existe uma grande vontade de mudança”, disse à Lusa Tiago Hipólito, 37 anos, auditor.
A viver na Hungria há 13 anos, o português natural de Viseu afirmou que os húngaros não estão propriamente otimistas de que a situação do país da Europa Central vai melhorar.
“Eles simplesmente entendem que já é uma altura de mudança, apesar de não acreditarem que o candidato da oposição vá fazer um trabalho melhor”, comentou.
O populista Viktor Orbán (Fidesz) comanda o país há 16 anos consecutivos, mas a reeleição parece agora mais difícil, com a maioria das sondagens independentes a atribuir a vitória ao conservador Petér Magyar, um dissidente do partido no poder que criou em 2024 o Tisza, o nome do segundo rio mais importante da Hungria e que resulta da junção das palavras Respeito e Liberdade.
João Henriques, 48 anos, leitor do instituto Camões, observou uma “expectativa da parte de quem deseja uma mudança no país”, mas com “um otimismo reservado, contido”.
“Já são muitos anos do atual Governo e, portanto, as pessoas estão um pouco cautelosas em relação ao resultado, apesar das sondagens”, considerou, em declarações à Lusa.
Para o português, na Hungria desde 2011, “sente-se que há um fim de linha” para o Governo de Orbán.
“Há um movimento de mudança”, visível “na quantidade de pessoas nas manifestações e nos comícios do partido do Tisza”, relatou João Henriques, que também detetou algo novo: “O partido do Viktor Orbán sempre foi muito hábil em contrariar as críticas e em esquivar-se às oposições, mas neste momento sente-se também uma certa incapacidade, que é nova”.
Rui Silvestre, 45 anos, disse que tem visto um Viktor Orbán “um pouco desesperado”, recordando notícias recentes que davam conta de um plano russo para encenar um atentado contra o primeiro-ministro, de forma a beneficiar a candidatura ou admitindo mesmo que o líder do Fidesz, “à última hora arranje algum escândalo para impedir Petér Magyar de ganhar”.
O consultor de software, natural de Lisboa, que já tinha estado na Hungria em 2009, notou melhorias no país, nomeadamente a nível de segurança e turismo, que atribuiu a Viktor Orbán.
Para Rui Silvestre, o líder da oposição não tem grandes propostas para melhorar a Hungria, mas pode vencer porque “as pessoas já estão fartas de Viktor Orbán e o mais importante é tirá-lo de lá, não porque Petér Magyar seja muito melhor”.
O realizador Ricardo Costa Ramalho, de 56 anos, fala de “uma esperança numa mudança”, em particular entre a população com maior nível de educação.
“As pessoas têm uma certa ansiedade, após 16 anos de política do Fidezs, acusado de corrupção, de manipulação da imprensa, de uma quantidade de situações”, considerou.
A Hungria, país com uma dimensão semelhante à de Portugal e de cerca de 9,6 milhões de habitantes, vai a votos no dia 12 de abril, nas eleições mais disputadas da última década e meia, para eleger os 199 deputados do parlamento.
Portugueses na Hungria descrevem país seguro e com boas oportunidades
A portuguesa Lina Chilra foi para a Hungria em 2000 como estudante do programa Erasmus e acabou por permanecer num país que descreveu como seguro, de vida cultural e social intensa e ao qual hoje chama casa.
“Gostei tanto que fui ficando, ficando… Acabei por ficar 18 anos”, descreveu à Lusa a emigrante, de 48 anos, que trabalha numa agência das Nações Unidas em Budapeste.
O trabalho levou-a, por uns anos, até ao Peru, mas em 2024 regressou à Hungria.
Lina Chilra foi casada com um húngaro, o que lhe permitiu atingir “um nível intermédio” da língua, que diz ser “muito, muito difícil”.
Sobre a adaptação, descreve um povo mais reservado que os portugueses. “No início, mandavam-me calar nos transportes públicos, porque eu falava muito alto”, descreveu, entre risos.
Mais de 25 anos depois de ter chegado, disse observar grandes alterações: “Hoje é super internacional, cosmopolita, antes muito pouca gente falava inglês”.
A portuguesa destacou também que os húngaros dão uma grande importância à vida social e cultural. Budapeste, a capital, “é uma cidade onde se tem acesso a qualquer tipo de cultura”, além de ser “muito segura”, comentou.
Uma curiosidade dos húngaros é o facto de terem um grande interesse pela língua e cultura portuguesas.
“Hungria para mim é a casa, é o sítio onde eu passei a maior parte da minha vida adulta”, resumiu.
Rui Silvestre também se apaixonou pelo país depois de uma experiência de voluntariado em 2009.
“Gostei bastante da vida aqui e disse para mim mesmo que um dia, se calhar, se tiver possibilidade, regresso, e regressei passados cinco anos”, contou à Lusa.
O emigrante, 45 anos, destacou sobretudo as oportunidades e boas condições profissionais que o país oferece e a qualidade de vida na capital.
“A nível de segurança, nunca tive qualquer problema, e a nível de transportes está a léguas de Lisboa”, relatou, completando: “Neste momento não penso voltar [para Portugal] nos próximos anos”.
De Portugal, disse sentir falta da comida. “Às vezes encontram-se vinhos portugueses nos supermercados, mas por exemplo, bacalhau não chega cá”.
Foram também motivos pessoais que levaram João Henriques para a Hungria, em 2011.
“Encontrei um país de pessoas reservadas, pouco habituadas a conviver com os estrangeiros, mas ao mesmo tempo uma cultura muito rica, uma história muito rica e uma geografia que, para nós portugueses, é uma geografia diferente, no coração da Europa”, disse à Lusa o diretor do Centro de Língua Portuguesa do instituto Camões.
A adaptação foi fácil, recordou o português, de 48 anos, “talvez por esta capacidade quase natural dos portugueses para se adaptarem a qualquer lado, ou também pelo facto de ser um país europeu, com algumas cicatrizes do tempo passado no bloco soviético, mas em todo o caso de um país cristão, de hábitos e costumes próprios”.
Tiago Hipólito, 37 anos, chegou à Hungria para um estágio de um ano e entretanto passaram mais 12 anos.
“Budapeste é uma cidade desenvolvida e tem-me oferecido a realização profissional que eu procurava”, afirmou o português, que trabalha como auditor interno num banco norte-americano.
Em termos culturais, Hungria e Portugal “são diametralmente opostos”, considerou.
“Aqui encontramos uma mentalidade mais fechada, as pessoas não são tão afáveis nem abertas a desenvolver relações de amizade. Portanto, é muito difícil fazer amizades com húngaros”, comentou, notando também “uma grande rigidez”, por exemplo nos horários.
Ricardo Costa Ramalho, 56 anos, foi para a Hungria por causa da mulher, húngara. Como realizador, viaja pelo país todo e para países vizinhos com frequência e sente que a adaptação foi fácil.
Se Hungria e Portugal são semelhantes em termos de dimensão geográfica e população, o português destacou uma diferença, a educação: “Toda a gente, quando chega a algum sítio, diz bom dia, boa tarde, coisa que não acontece em Portugal”.