Em julho de 2021, Kimberlee Williams e a sua filha visitaram uma base militar no estado de Oklahoma, nos Estados Unidos, para entregar uma encomenda. Após a verificação das identidades à entrada, o sistema emitiu um alerta relativo a um mandado de detenção contra a mulher, levando à chegada quase imediata de viaturas da polícia ao local. Williams enfrentava um total de 16 acusações, a maior parte por crimes graves, distribuídas por três condados de Maryland — estado que afirmou nunca ter visitado —, acabando por ser detida e permanecendo cerca de seis meses em diferentes estabelecimentos prisionais injustamente. Só anos mais tarde descobriria a origem da acusação: tinha sido identificada como suspeita em casos de fraude através de uma ferramenta de reconhecimento facial.

“Pensei que estivessem a brincar”, relatou Kimberlee Williams, mãe solteira de sete filhos, ao Washington Post. “Nem sequer tive medo, porque pensei: nunca estive em Maryland. Acreditei que, quando investigassem melhor, perceberiam o erro”, acrescentou. Após a detenção na base militar, a mulher, agora com 57 anos, passou as três semanas seguintes numa prisão no estado de Oklahoma. Mais tarde, foi transferida para o condado de Montgomery e, posteriormente, para uma unidade prisional no condado de Prince George, ambos no estado de Maryland. Segundo a própria, em nenhum momento lhe foi explicado de forma clara de que estava a ser acusada.

De acordo com o The Washington Post, em 2019 uma mulher foi vista a entrar em vários bancos em Maryland, onde realizou múltiplos levantamentos em dinheiro com cheques falsos, conseguindo obter cerca de 17 mil dólares no total (aproximadamente 14,5 mil euros). Um investigador contratado por um dos bancos lesados recolheu as imagens de videovigilância e, em março de 2020, escreveu um e-mail à polícia do condado de Montgomery, indicando uma possível autora dos crimes: Kimberlee Williams. Segundo o investigador, uma análise com recurso a uma ferramenta de reconhecimento facial sugeriu que Williams poderia corresponder à suspeita. “A comparação das fotografias da detenção com as imagens de vigilância do banco resultou na identificação de Williams”, disse o homem às autoridades.

Uma semana depois de ter enviado a carta à polícia de Montgomery, o investigador contratado por um dos bancos também denunciou Williams às autoridades dos condados de Prince George’s e Anne Arundel.  Afirmou, através de e-mails, que a mulher responsável pelos levantamentos nessas jurisdições tinha sido “reconhecida” só que, desta vez, não mencionou o recurso a tecnologia de reconhecimento facial na identificação.

Com base nas denúncias, os três departamentos policiais abriram investigações contra Kimberlee Williams. No entanto, os relatórios e documentos de acusação não indicam que tenha sido verificado o seu paradeiro à data dos crimes, nem apurada qualquer ligação ao estado de Maryland, revela o The Washington Post. As acusações assentaram sobretudo na identificação avançada pelo investigador do banco e numa comparação visual entre Williams e a mulher captada nas imagens de videovigilância. De acordo com os registos policiais, a polícia do condado de Montgomery também não revelou que a identificação de Williams resultou do uso de tecnologia de reconhecimento facial quando solicitou as acusações contra a mulher.

Para os investigadores, o caso contra Williams parecia simples. “É óbvio que és tu”, terá dito um agente do condado de Montgomery, citado pelo jornal norte-americano, enquanto a mulher permanecia algemada a uma mesa na esquadra, após ter sido transportada de avião para interrogatório. O entendimento das autoridades foi ainda reforçado por vários fatores: a mulher tinha antecedentes criminais por emissão de cheques sem cobertura em Oklahoma e, nas imagens de videovigilância associadas aos levantamentos fraudulentos em Maryland, a suspeita apresentava várias semelhanças físicas a Williams. 

Na altura em que ocorreram os crimes, Williams estava, de acordo com as declarações de três filhas à polícia, a ajudar a cuidar dos sobrinhos no Oklahoma. Além disso, a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, sigla em inglês), uma organização não governamental que procura proteger direitos e liberdades constitucionais aos norte-americanos, enviou várias cartas e e-mails aos departamentos da polícia, onde partilhou publicações e vídeos nas redes sociais que comprovavam a presença de Williams em Oklahoma na altura dos crimes. Os procuradores dos três condados de Maryland acabaram por retirar as acusações contra Kimberlee Williams, mas não de uma só vez, o que prolongou o seu tempo na prisão, relata o jornal norte-americano. Só em dezembro de 2021 é que foi libertada da última unidade prisional em que permaneceu durante meses, no condado de Prince George.

Esta semana, a ACLU enviou queixas aos três departamentos da polícia, exigindo um pedido de desculpas à mulher, alegando que as autoridades de Montgomery — as únicas que tinham sido informadas sobre a utilização da ferramenta de reconhecimento facial – acusaram Williams injustamente, relata o Washington Post. De acordo com a organização, os registos do caso foram apagados e, em 2024, Maryland aprovou uma lei que proíbe a polícia de utilizar o reconhecimento facial como única base para uma detenção, restringindo os casos em podem investigar com base nesta ferramenta.

“Quando o reconhecimento facial é utilizado numa investigação, os agentes da polícia não devem apenas procurar provas que sustentem a causa provável; devem também procurar ativamente provas de que a pessoa identificada não é a suspeita correta”, Michael King, professor de engenharia elétrica e ciência da computação no Instituto de Tecnologia da Flórida, ao jornal norte-americano. “Esta obrigação é essencial”, acrescentou.

“Ela perdeu uma parte de si própria”

Jordyn Wasko, filha de Kimberlee Williams que a acompanhava no momento da detenção na base militar, relatou ao The Washington Post que a mãe ficou deprimida depois de sair da prisão e que teve dificuldades em readaptar-se ao quotidiano. “Ela perdeu uma parte de si própria“, contou.

Entretanto, a mulher encontra-se numa clínica de reabilitação na Pensilvânia, a recuperar de uma doença autoimune que lhe enfraqueceu as pernas. Segundo declarações ao jornal norte-americano, acredita que as doenças contraídas durante a prisão possam ter agravado o seu estado de saúde. Quando soube que a ferramenta de reconhecimento facial foi utilizado para a acusar de crimes que nunca cometeu, Kimberlee Williams admitiu ficar surpreendida. “Gostava de saber quem ela era”, disse.

Esta não é a primeira vez que uma pessoa inocente é condenada nos Estados Unidos devido a uma falha na utilização da ferramenta de reconhecimento facial. No final de março, Angela Lipps foi acusada de roubos de contas bancárias com o uso de documentos falsos na Dakota do Norte, mas a mulher vivia no Tennessee nunca esteve na cidade em que o crime ocorreu.

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