Um erro na utilização de uma ferramenta de reconhecimento facial pela polícia do Dakota do Norte, nos Estados Unidos, levou uma mulher inocente a ser acusada de oito crimes graves em julho de 2025 e passar cinco meses presa. Angela Lipps foi detida por suspeita de integrar uma grande organização criminosa que comete fraudes bancárias naquele estado norte-americano. A mulher que vive na cidade de Elizabethton, no Tennessee, garantia que nunca tinha sequer visitado a Dakota do Norte, a quase dois mil quilómetros de distância, mas acabou mesmo atrás das grades.
A polícia, avança o The New York Times, investigava o uso de documentos de identificação militar falsos para o levantamento de dinheiro em abril e maio de 2025 quando concluiu que uma mulher, até àquele momento não identificada, era a responsável pela prática da fraude em quatro ocasiões. Na cidade vizinha de West Fargo, as autoridades já haviam identificado criminosos que praticaram crimes semelhantes. Imagens de câmaras de vigilância foram carregadas na ferramenta de reconhecimento facial Clearview, que se apresenta como uma tecnologia de Inteligência Artificial (IA) “para que as forças policiais investiguem crimes, aumentem a segurança pública e façam justiça às vítimas“. A aplicação, segundo o mesmo jornal, terá recolhido biliões de fotos de perfis em redes sociais, como Facebook, LinkedIn e Instagram, para formar o seu banco de dados que compara as informações da internet com aquelas procuradas pelas autoridades.
As autoridades das cidades de Fargo e West Fargo começaram a realizar a investigação de forma conjunta e, a pedido da primeira, foi utilizada a ferramenta que “identificou uma potencial suspeita com características semelhantes às de Angela Lipps”. A seguir, as autoridades contrataram um detetive para que este localizasse a suposta criminosa. O investigador encontrou as redes sociais de Lipps e terá afirmado encontrar semelhanças entre as suas fotos e as características descritas pela ferramenta de IA. Com esta conclusão, o Ministério Público determinou que as provas eram suficientes para que Angela Lipps fosse acusada pelos crimes de uso não autorizado de informações pessoais e quatro acusações de furto qualificado.
Em 14 de julho, com o mandado de prisão emitido, agentes do Tennessee localizaram Angela na sua casa, enquanto a mulher cuidava de quatro crianças. “Prenderam-me sob a mira de armas enquanto as crianças viam tudo”, disse a mulher à estação local de televisão WDAY, onde lamentou o susto causado aos menores. “Ainda consigo ver a cena na minha cabeça, repetidamente”. E mesmo que afirmasse nunca ter estado no Dakota do Norte nem conhecer ninguém que lá vivia, foi presa enquanto a investigação decorria.
Durante os cinco meses em que esteve detida, o seu advogado Jay Greenwood reuniu comprovativos —como talões de compras e depósitos bancários — de que enquanto a fraude ocorria em Fargo, a sua cliente estava em Elizabethton, no Tennessee. O material apresentado convenceu o juiz, que na véspera de Natal, em 24 de dezembro, reconheceu que Angela Lipps não havia praticado os crimes e decidiu então por libertá-la.
“Eu estava vestida com as minhas roupas de verão, sem casaco, enquanto nevava. Queria sair da prisão, mas não sabia o que ia fazer ou como ia voltar para casa”, disse Angela na entrevista à WDAY. O encontro entre a mulher e a sua família ocorreu apenas alguns dias depois, com o apoio de advogados de defesa que organizaram o seu alojamento e alimentação fora da prisão, além da doação de dinheiro para que conseguisse reorganizar a sua vida.
Os agentes federais recolheram a prótese dentária que Angela usava pouco antes de tirarem a foto da sua detenção. “Implorei para que entregassem a minha dentadura e a levassem comigo para a prisão, mas eles recusaram-se”, explica a mulher no texto da campanha de angariação de fundos online que foi criada após a sua libertação. “Fiquei meses sem dentadura. Esta foto tirada pela polícia no pior momento da minha vida foi publicada nos noticiários locais”. Na página, Angela revela ainda que nenhuma pergunta foi feita antes da sua detenção, que foi dividida por duas prisões. “Não houve um interrogatório. Disseram-me que eu era uma fugitiva da justiça e que não tinha direito à fiança“.
O chefe de polícia da cidade de Fargo afirmou que um pedido de desculpas poderia vir “no momento certo”.
Primeiro, foi presa por 108 dias no Tennessee. Depois, foi transferida num voo comercial, em 30 de outubro, para uma unidade prisional no Dakota do Norte. “Era a primeira vez em que eu entrava num avião. Estava apavorada. Colocaram um dispositivo de contenção na minha cintura, algemaram-me e levaram pelo aeroporto na frente de outras pessoas, que estavam a olhar a situação. Eu estava com medo, exausta e humilhada“.
Enquanto esteve presa, Lipps afirma ter perdido “tudo o que tinha”. “A minha família guardou os meus pertences num depósito, mas não conseguiram pagar a conta para mantê-los no espaço. Perdi a minha casa alugada. Perdi os meus rendimentos da Segurança Social. Perdi o meu seguro de saúde. Perdi o meu cão. Perdi o meu carro e tudo o que estava dentro dele”, revela. Além das perdas financeiras, a mulher lamenta ter também sido impedida de celebrar momentos importantes da sua vida, como o seu aniversário de 50 anos, o Dia de Ação de Graças e o Halloween com os netos.
Angela Lipps está a considerar processar a polícia, pois o seu advogado afirma que “não foi feito nenhum esforço para confirmar a identificação [realizada pela IA]” de que seria a sua cliente a pessoa que realmente realizou os roubos. Numa conferência de imprensa realizada a 24 de março com jornalistas locais, o então chefe de polícia de Fargo, David Zibolski, reconheceu que a prisão da mulher e a forma como esta foi conduzida foram um erro. “Pedimos sinceras desculpas por qualquer efeito que isso tenha causado na confiança da comunidade”, disse Zibolski, que admitiu, sem revelar detalhes, que o departamento de polícia proibiu o uso de Inteligência Artificial para a identificação de pessoas suspeitas de terem cometido crimes. No entanto, não foi feito um pedido de desculpas direto a Angela Lipps. Ao ser questionado pelos jornalistas, Zibolski disse que “neste momento, não se sabe ao certo quem está envolvido e quem não está”, e que um pedido poderia vir “no momento certo”.