Um voo de despedida sobre os céus da Coreia do Sul, em dezembro de 2021, terminou com uma colisão entre dois caças F-15K que a Força Aérea manteve em segredo por mais de quatro anos. Detalhes revelados na quarta-feira pelo Conselho de Auditoria Estadual indicam que o acidente ocorreu porque um dos pilotos realizou manobras não planeadas para tirar uma selfie dentro da cabine de comando.
A exposição pública do caso surge agora, noticiado pela imprensa local, após o órgão de inspeção responsabilizar formalmente os oficiais por utilizarem, sem autorização prévia, telemóveis para captar imagens pessoais durante a missão.
Esta quinta-feira, um dia após a divulgação do relatório que responsabilizou diretamente os envolvidos, a Força Aérea sul-coreana quebrou o silêncio. Em conferência de imprensa, um porta-voz apresentou um pedido de desculpas formal pela “preocupação causada” e confirmou que o principal responsável — um major à data do incidente — foi alvo de medidas disciplinares, tendo já abandonado as Forças Armadas.
O acidente ocorreu perto da cidade de Daegu, no sudeste do país. Segundo o relatório, o piloto realizava o seu último voo antes de uma transferência de posto e decidiu registar o momento. Embora o líder da formação tivesse autorizado o uso de câmaras no banco de trás, o militar executou uma manobra brusca e não planeada para conseguir um melhor ângulo de si mesmo com o telemóvel. Ao aumentar a altitude e inclinar a aeronave sem aviso, acabou por colidir com outro caça da formação. Apesar de ambos os aviões terem conseguido aterrar em segurança, os danos em aeronaves que estão avaliadas, cada uma, em cerca de 100 mil milhões de won (57,6 milhões de euros), foram consideráveis.
Inicialmente, o Ministério da Defesa Nacional exigiu que o piloto reembolsasse o valor total da reparação, estimado em 878,7 milhões de won (mais de 500 mil euros). O oficial, que agora exerce funções na aviação comercial, recorreu da decisão e viu, na quarta-feira, a sua sanção ser drasticamente reduzida.
O Conselho de Auditoria decidiu diminuir a indemnização em 90%, fixando o valor a pagar em cerca de 88 milhões de won (perto de 50 mil euros), justificando a decisão com as falhas da própria instituição. Segundo o The Korea Times, os auditores apontaram uma cultura permissiva onde a captação de fotografias e vídeos comemorativos era uma prática habitual e generalizada entre os pilotos. A prática era, de resto, documentada pela própria instituição: várias publicações da Força Aérea nas redes sociais creditam as fotografias aos próprios pilotos.
O conselho apontou também a responsabilidade da Força Aérea, que falhou ao não criar regras claras para proibir estas práticas. Para os auditores, a falta de normas tornou a instituição corresponsável pela colisão.
A favor do oficial, pesou ainda o seu currículo exemplar desde 2010 e a perícia demonstrada após o embate. Apesar da falha inicial, o piloto conseguiu conter danos maiores através de manobras descritas como “habilidosas”. O incidente saldou-se, finalmente, no regresso seguro dos dois F-15H à pista.