É português, tem 26 anos e é o principal jogador do Campeonato da Escócia logo no ano de estreia. Com um percurso fora do comum, Cláudio Braga não desistiu do futebol e está agora a colher frutos do trabalho que desenvolveu nas divisões inferiores ao longo da sua carreira. Esta segunda-feira, o português foi eleito o jogador do ano do Premiership escocês, superando a concorrência de Lawrence Shankland, com quem partilha o balneário do Hearts, e de Elijah Just e Tawanda Maswanhise, que jogam juntos no Motherwell. Pela primeira vez desde 2013, ganhou um futebolista que não pertence a Celtic ou Rangers, os grandes dominadores do futebol escocês — não perdem o título desde 1985. Para lá de ser ponta de lança, Braga pode jogar no lado esquerdo do ataque, perfilando-se como um avançado versátil que gosta de pisar zonas interiores.
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Claudio Braga (@JamTarts)
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— PFA Scotland (@PFAScotland) May 3, 2026
E é precisamente o Hearts — oficialmente Heart of Midlothian Football Club — que tenta interromper a hegemonia de católicas e protestantes. Por esta altura, a quatro jornadas do fim do campeonato, os jambos lideram com os mesmos 73 pontos do Celtic, mas com um jogo a menos, que vai acontecer esta segunda-feira frente ao Rangers (casa), que tem menos quatro pontos. Nesse sentido, Cláudio Braga tem contribuído com 17 golos e três assistências que lhe permitiram interromper a supremacia dos rivais no que concerne aos prémios individuais. Curiosamente, esta é a primeira temporada do português no Hearts, depois de ter sido contratado aos noruegueses do Aalesund por 520 mil euros em julho do ano passado. Assim que chegou, o impacto de Braga foi imediato, algo que lhe valeu a criação de um cântico por parte dos adeptos.
Sento-me sozinho, observo a tua luz e sonho com as noites europeias e com tudo o que precisamos de saber. O nosso número 10 é o Cláudio. Fazes-nos lembrar das grandes estrelas de sempre e de todos os heróis que jogaram pelo Hearts. Fazes-nos rir, fazes-nos chorar, fazes-nos sentir que podemos voar! E enches-nos de tanta alegria quando marcas golos para os rapazes de Gorgie, por isso sabes que vamos sempre preocupar-nos e vamos queixar-nos quando não estiveres cá. Tens a velocidade, tens a força, ainda vais ter o teu momento de glória… Cláudio! Tudo o que precisamos é do Cláudio Braga, Cláudio Braga. Cláudio é verdade, Gorgie ainda te ama”, escuta-se nas bancadas do Tynecastle Park, em Edimburgo. O cântico é uma adaptação de Radio Ga Ga, dos Queen.
Recentemente, Cláudio Braga tem sido apontado à Seleção Nacional, depois de o selecionador Roberto Martínez ter admitido convocar um terceiro ponta de lança para o Campeonato do Mundo. Nesse sentido, Braga chegou a ser cogitado para o estágio de março depois de Cristiano Ronaldo se ter lesionado, mas acabou por não ser convocado, apesar de se encontrar na lista do espanhol, que preferiu chamar Paulinho. “O meu nome tem sido mencionado, mas isso é com os meus agentes. Estou a tentar concentrar-me apenas no que está a acontecer aqui [no Hearts]. É bom saber que o selecionador pelo menos sabe quem és. É algo que nunca imaginei. Estava a ver o anúncio da convocatória, e só por ser mencionado pelos jornalistas, de ouvir o meu nome a ser dito… é algo que provavelmente nunca pensei que pudesse acontecer, especialmente com a Seleção que temos agora”, contou ao The Scottish Sun.
Depois de catalogar a atual versão da equipa das quinas como tendo “elevadíssima qualidade”, o que “prova que não há impossíveis”, Braga falou outra curiosidade que o norteia: o seu festejo, em que replica o famoso “siu” de Cristiano Ronaldo. “Precisaria de falar com o Ronaldo sobre isso. Mas provavelmente não celebraria assim. Ele é o homem! É alguém que todas as crianças em Portugal admiravam e acho que ainda admiram muito o Ronaldo porque ele é simplesmente uma inspiração. Sinto que, para mim, foi bom, de certa forma, não ter nenhum nome em Portugal antes de vir para o Hearts. Aqui eu era um pouco reconhecido, mas em Portugal ninguém sabia muito sobre o meu nome. Graças a Deus agora falam de mim e a Seleção Nacional também tem sido assunto. Estou muito feliz com isso”, concluiu.
SIUUU de Cláudio Braga ????#sporttvportugal #FUTEBOLnaSPORTTV #ScottishPremierLeague #DundeeFC #Hearts pic.twitter.com/wASUgH25S5
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Nascido em Mafamude, em Vila Nova de Gaia, Cláudio Braga começou a carreira no Candal e, durante a formação, passou por Boavista, Paços de Ferreira e Rio Ave. Foi ao serviço dos vilacondenses que se profissionalizou, mas acabou por não passar da equipa B, rumando ao Valadares Gaia, do Campeonato de Portugal, em 2019. A meio da época transferiu-se para o Fátima, seguindo-se o Sp. Ideal e o Vila Meã, da mesma divisão. Em 2022 passou da quarta divisão portuguesa para a Terceira Liga da Noruega, assinando com o Moss. Na primeira passagem pelo futebol nórdico disputou 52 jogos e marcou 21 golos, ajudando o clube a chegar à primeira divisão. Em 2024 rumou ao Aalesunds a troco de 220 mil euros, tendo feito 41 jogos, 14 golos e cinco assistências em duas épocas, antes de sair para a Escócia, devido à… inteligência artificial. Afinal, Tony Bloom, dono do clube, desenvolveu um programa para scouting, capaz de detetar os jogadores que melhor se adequam às características do clube.
“Agora que estou cá, é fácil olhar para trás e sentir que tudo aconteceu rapidamente e que correu tudo de forma incrível. Mas, na verdade, foram três anos e meio na Noruega, com um início de muitas dúvidas e decisões difíceis. No início cheguei a pensar que sair do Campeonato de Portugal, que tem muita qualidade, para jogar na terceira divisão norueguesa podia ser um erro. Arrisquei porque senti que era a melhor decisão para a minha carreira. Felizmente acabou por correr bem. Não foi um caminho fácil, houve altos e baixos, mas dou graças a Deus por ter tomado essa decisão e por estar onde estou. Escócia? Foi tudo muito rápido e, ao mesmo tempo, difícil de acreditar. Olhando para trás, é chocante: há poucos anos estava no Campeonato de Portugal e, de repente, tinha a hipótese de jogar na Primeira Liga da Escócia“, contou em entrevista ao Flashscore Portugal.
"You know those movies where they all hug? It was a good moment." ♥️
Claudio tells the story of his family's first visit to Tynecastle Park ????
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— Heart of Midlothian FC (@JamTarts) August 15, 2025
“Soube do interesse do Hearts em dezembro e, a partir daí, vivi meses de ansiedade, pois fiquei muito entusiasmado com o projeto. Queria muito dar o salto e sentia que estava preparado. Já tinha feito duas boas épocas consecutivas na Noruega. Queria, no mínimo, jogar numa primeira liga. Foram seis meses de negociações intensas entre os clubes, mas mantive sempre a motivação. Falei com o treinador, vi jogos do Hearts, estudei a equipa… e quando percebi que havia real interesse, não pensei duas vezes. Foi um passo enorme na minha carreira. Confesso que no início pensei: ‘Aqui vou ter de correr muito e dar tudo, porque estes gajos são muito bons’. O plantel tem 30 jogadores e todos têm nível muito alto. Nos treinos, a intensidade é enorme. Cheguei como um jogador criativo e rapidamente percebi que tinha de ser o jogador raçudo. Há muitos adeptos com a minha camisola, o que me deixa orgulhoso e chocado. Os estádios estão sempre cheios, há lista de espera para bilhetes e a atmosfera é incrível”, disse ainda.