A Universidade Técnica Estadual de Moscovo Bauman é uma das mais conceituadas instituições de ensino superior da Rússia e atrai alguns dos melhores alunos de ciências e tecnologias de todo o país. Em abril, Vladimir Putin esteve neste campus universitário, localizado nas margens do rio Yauza, tendo aproveitado a visita para falar sobre os planos do Kremlin para uma nova ida à Lua ou mesmo uma viagem a Marte. Aos estudantes universitários presentes, o Presidente da Rússia disse que na Bauman teriam “todas as condições para ser competitivos” a concretizar essas e outras ambições.
No entanto, Putin não abordou plano de “formação especializada” que Moscovo tem secretamente em marcha no Departamento 4 daquela universidade. Na Bauman, são formados jovens para carreiras na GRU, a agência federal que dirige os serviços secretos russos e cujos agentes têm realizado missões contra as democracias do Ocidente: realizaram ataques informáticos a instituições governativas, envenenaram opositores russos exilados e interferiram em eleições.
A existência desta incubadora de futuros agentes secretos russos nesta universidade de Moscovo foi revelada publicamente por um consórcio de seis jornais: The Guardian, Der Spiegel, Le Monde, the Insider, Delfi e VSquare. “Às vezes, são recrutados pela primeira vez ainda na escola, depois vão para a Bauman e alistam-se nas Forças Armadas. Faz parte de um circuito“, explicou um antigo alto responsável pela defesa russa ao The Guardian.
Na verdade, a ligação às Forças Armadas da Rússia está nas raízes da Bauman, onde se formaram vários engenheiros e cientistas que construiram armamento e equipamento espacial para a URSS. E essa relação mantém-se sob a atual liderança da Federação Russa. O jornal britânico revelou que, em 2013, a Bauman era a universidade que mais investigação científica realizava em toda a Rússia, sendo que 40% da pesquisa obedecia aos interesses do ministério da Defesa.
Segundo a investigação do consórcio, os agentes da GRU influenciam diretamente o recrutamento e avaliação dos alunos do Departamento 4. Um dos professores deste departamento, Viktor Netyksho, é um major-general que comandou um grupo de hackers conhecido como Fancy Bear. Os responsáveis por esta equipa foram acusados pelo Departamento de Justiça norte-americanos por interferências nas presidenciais que valeram a primeira eleição a Donald Trump, em 2016.
Um dos 69 estudantes que completaram em 2024 o curso no Departamento 4 foi recrutado para os Fancy Bear. Entre os restantes, houve outros 14 que foram colocados noutras agências da GRU. Os documentos obtidos pelo consórcio de jornalistas mostram que um desses alunos passou a integrar uma outra equipa de hackers conhecida no Ocidente como Sandworm. Este grupo foi acusado pelos serviços de informação de vários países de ser responsável por alguns dos maiores ataques cibernéticos dos últimos anos: contra a rede elétrica ucraniana em 2015, contra a campanha de Emmanuel Macron em 2017 ou nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, na Coreia do Sul.
Entre as matérias obrigatórias para os alunos do Departamento 4 está, por exemplo, uma disciplina chamada “Defesa contra o reconhecimento técnico”. São 144 horas de aulas teóricas e práticas, ao longo de dois semestres, durante as quais é ensinada uma míriade de técnicas de hacking, nomeadamente para o roubo de palavras passe, procura de vulnerabilidades em softwares e desenvolvimento de trojans — softwares aparentemente inofensivos que são utilizados para fins maliciosos.
Noutras disciplinas, os alunos aprendem sobre a organização das agências militares de informação norte-americanas e britânicas ou sobre os avanços tecnológicos e militares que os países do Ocidente estão a mobilizar para a guerra na Ucrânia. Em relação a este conflito, também se discutem as estratégias militares utilizadas contra o Exército ucraniano, nomeadamente o papel dos drones no reconhecimento e ataque aos inimigos.
O currículo do curso prevê ainda um seminário sobre como desenvolver uma campanha de desinformação. Os alunos do Departamento 4 têm como tarefa criar um vídeo falso para as redes sociais de forma a impor determinadas informações à opinião pública, através de métodos de manipulação psicológica.