Os edifícios inteligentes têm um papel central na transformação das cidades, já que contribuem para uma maior eficiência energética, sustentabilidade e melhoria da qualidade de vida. Num contexto de crescente urbanização e exigência ambiental, os smart buildings afirmam-se como elementos essenciais para cidades mais resilientes e eficientes.
Foi precisamente nestas questões que os intervenientes da talk promovida pelo Observador no Portugal Smart Cities Summit, que aconteceu no passado dia 13 de maio na FIL – Feira Internacional de Lisboa, se focaram.
Construção inteligente: moda ou necessidade?
O primeiro painel, que se centrou na importância da construção inteligente, contou com as participações de Maria da Cunha e Menezes, Head of Project & Development Services and Sustainability da JLL Portugal, João Moura, Partner e Head of Real Estate, Hospitality, Construction & Infrastructure da EY – Parthenon, Tiago Tavares, Senior Partner e Arquiteto da Saraiva+Associados, e Rui Nunes, Head of Energy Efficiency, Decarbonization and Digitalization da Veolia Portugal.
Para Maria da Cunha e Menezes, os smart buildings são uma necessidade não só de um ponto de vista de eficiência económica, mas também ambiental. “É urgente a descarbonização. Se não tivermos edifícios eficientes que consigam atuar neste sentido, não vamos lá chegar”. No entanto, a Diretora de Projetos da JLL Portugal considera que só a tecnologia pela tecnologia não é suficiente. É necessário aproveitar os insights obtidos: “a recolha de dados que estas plataformas permitem é muitíssimo útil em reporting, ESG, certificações”, já que possibilitam tomar decisões estratégicas e financeiras.
Os edifícios são responsáveis por cerca de 30% a 40% do consumo energético de uma cidade e por 36% das emissões de CO2. No entanto, a sua ineficiência ronda os 20% a 30%. João Moura considera que a inteligência e os dados “podem ajudar a melhorar este rácio, quer do ponto de vista do consumo, quer da própria eficiência”. Contudo, para o Partner da EY – Parthenon, é necessário distinguir entre quatro grupos distintos: “a inteligência na construção, que é a forma como se projeta ou localiza um edifício, e que Portugal tem; a construção inteligente, ou seja, como é que se consegue melhorar o processo de construção, ser mais eficiente e adicionar tecnologias mais modernas; o edifício inteligente, mais relacionado com o consumo e com a experiência do utilizador final; e tudo isto tem um objetivo que são as smart cities, ou seja, como é que toda a infraestrutura que é projetada para uma determinada cidade ou região funciona sem estar em stress e a pensar na eficiência”.
Já para Tiago Tavares, a construção inteligente é uma das grandes narrativas atuais ao nível do discurso da arquitetura, do imobiliário e das próprias cidades, sendo que o mercado apropriou-se desta linguagem smart para criar um conceito de inovação e eficiência e para integrar valor acrescentado. Para o arquiteto isto não é, contudo, apenas uma moda. “Enfrentamos uma crise no setor da construção e da habitação e não considerarmos estes tópicos da construção inteligente como uma resposta mandatória para resolvermos estas questões é claramente um erro. A construção tem de ser inteligente, mas também temos de perceber que isto leva-nos a outros desafios, nomeadamente da capacidade que temos de recolha de dados, de uniformização e de integração de modelos entre si”.
Por fim, Rui Nunes afirma que não é eficiente nem viável ter um edifício totalmente adaptado com inteligência artificial, IoT e machine learning apenas para cumprir determinados requisitos, para obter determinados certificados ou para valorizar os edifícios. “Temos de adaptar a operacionalidade do edifício a uma metodologia BIM, com um digital twin associado que permita a condução desse edifício de uma forma muito mais eficiente”.
Soluções inteligentes para a casa e o escritório
No segundo debate do dia, Lara Noivo Fernandes, Senior Sales GTM Leader for Future-Proofed Workplaces Smart and Sustainable Buildings da Cisco EMEA South and Central, Pedro Chorão, Gestor de Produto da Bright e Hugo Santos Ferreira, CEO da Corcoran Atlantic discutiram o desenvolvimento de soluções tecnológicas para edifícios inteligentes.
Relativamente à área de atuação da Cisco no contexto da transformação digital dos edifícios, Lara Noivo Fernandes destaca o “network as a sensor”. “Acreditamos que a rede é a base de um edifício que conecta tudo. E, portanto, conectamos o mundo da IT com o mundo da OT. Este network as a sensor é, de facto, hoje em dia, a 4th utility que existe nos edifícios, depois da água, da eletricidade e do gás. É aqui que tudo converge e o nosso posicionamento é exatamente isso”.
Quando se fala de edifícios inteligentes, Hugo Santos Ferreira considera que é necessário separá-los em três segmentos: o comercial, que é um setor já bastante avançado devido às obrigações e diretivas europeias em matéria de sustentabilidade; o segmento residencial de luxo, em que as exigências relacionadas com domótica, sustentabilidade e eficiência energética já começam a imperar; e, por fim, a habitação acessível, onde ainda há um grande caminho a percorrer. Para o CEO da Corcoran Atlantic, a sustentabilidade no imobiliário ainda é um custo, que terá de ser pago, mas que a classe média não tem como assumir.
Já no que diz respeito ao futuro, para Pedro Chorão, o caminho dos edifícios inteligentes é ter todos os sistemas integrados e interoperáveis para que se possam tomar decisões preventivas e de forma autónoma. Além disso, o Gestor de Produto da Bright considera que o objetivo é que os edifícios sejam net zero. “Tem de ser essa a nossa ambição como grandes consumidores a trabalhar no sentido da inteligência integrada com a componente energética”.