Tinham deixado o grupo B3 há cerca de dois meses em “ponto de rebuçado”. Quatro vitórias em quatro jogos era o registo da Seleção Nacional de futebol feminino na caminhada para o próximo Campeonato do Mundo. Onze golos marcados e apenas um sofrido, no último jogo, diante da Eslováquia (1-2). Era nesse embalo de triunfos que as Navegadoras queriam, dois meses depois, continuar a passada larga para entrarem no Mundial de 2027. Depois do jogo desta sexta-feira, os golos sofridos mantiveram-se e os marcados aumentaram para 16, após o triunfo sobre a Letónia por 5-0. Em jogo já não estava a presença no playoff de acesso, garantida depois do triunfo diante das eslovacas. Agora era o primeiro lugar de um grupo que tem como grandes candidatas a vencê-lo as seleções portuguesa e a finlandesa, com ambas a quererem estar entre as melhores seleções da Liga das Nações.
Numa altura em que a Cidade do Futebol é ocupada por ambas as seleções A — masculina e feminina — Diogo Costa e Francisco Conceição foram apanhados a seguir de perto os treinos comandados por Francisco Neto, na antevisão deste jogo. A presença da seleção masculina no Mundial-2026 poderá servir de inspiração à seleção feminina para marcar presença no Brasil dentro de cerca de um ano. Mas, pelos vistos, há algo nas Navegadoras que também deve inspirar as Quinas, a cerca de duas semanas de se estrearem no Mundial dos EUA, México e Canadá. A resposta a essa questão poderia estar em campo, frente à seleção da Letónia.
A assertividade estava lá, desde o primeiro minuto, com Portugal a dominar em quase todos os setores do relvado do Coimbra da Mota, no Estoril. Aos quatro minutos, Ana Capeta avisou com um remate ao lado da baliza de Sofija Nesterova. Depois, a n.º 21 obrigou a letã a aplicar-se, com uma mancha que evitou o primeiro das portuguesas. À falta de acerto na zona central, Catarina Amado tentou pegar no marcador com os seus próprios pés, numa jogada individual que começou na direita, passou pelo meio e, depois de um remate com o pé direito ainda fora da área, parou nas mãos de Nesterova.
Até ali, só se tinham passado 15 minutos e Portugal não adormecia no facto de a Letónia só ter perdido no grupo B3 até àquele momento. As navegadoras não queriam jogar com a teoria. Queriam fazê-lo com ações em campo. Carolina Santiago tentou, aos 16 minutos, transformar a teoria em prática, mas, depois de ficar isolada com um passe de Kika Nazareth, encontrou o poste direito da baliza da Letónia. Era ali que a vantagem esbarrava, mas a toada ofensiva das portuguesas não.
As Navegadoras continuavam a remar contra a sua infelicidade e, mais pela direita do que pela esquerda, iam procurando ser felizes nas subidas de Catarina Amado — muito mais intrometida na zona central do relvado do que no corredor direito, de onde partia inicialmente. Do lado oposto, Nelly Rodrigues dava a largura de que Portugal abdicava à direita. No meio, Kika Nazareth e Dolores Silva tentavam inventar espaços que muitas vezes não existiam, diante de uma Letónia que se apresentava com 11 unidades atrás da linha da bola, em muitas ocasiões.
Foi, uma vez mais, pela direita que à meia hora de jogo quase se voltou a gritar golo no Coimbra da Mota. Catarina Amado, desta vez não apostou em cortar para o meio e rematar — procurou a linha de fundo e encontrou Ana Capeta. A atleta da Juventus, na cara de Nesterova, voltou a vacilar em frente à letã. Na recarga, Carolina Santiago ainda tentou o desvio, mas a surpresa do ressalto apanhou a jogadora desprevenida. A dois tempos, a Letónia voltava a resolver um problema que Portugal tentava matar de vez.
A pouco e pouco, a jogar na transição rápida, a Letónia ia acreditando. Portugal, muito balanceado na frente, deixava a baliza de Patrícia Morais, mas a pronta reação à perda da bola, por parte das navegadoras, ia resolvendo as saídas rápidas das adversárias. Foi num desses momentos que a Letónia foi apanhada em contrapé, numa tentativa de saída. As visitantes perderam a bola muito mais rápido do que a recuperaram e Portugal, depois de ver Nesterova largar uma bola aparentemente fácil, não aproveitou o brinde da guarda-redes.
Aos 40′, o marcador não sofria qualquer alteração. Nem com a mudança das investidas para esquerda, nem com uma tentativa de canto direto de Kika Nazareth, que viu, outra vez, Nesterova negar a vantagem de Portugal.
Ao intervalo, nenhuma das 15 tentativas da seleção portuguesa tinha resultado. 81% de posse de bola diante dos 19% da Letónia, não eram suficientes para uma chegada ao intervalo com a vantagem. Nem os seis remates à baliza da Letónia contra nenhum à baliza lusa. Um nulo sem golos era o resultado que levava as equipas para os balneários.
O cansaço, o frio e o segundo tempo não faziam abrandar as Navegadoras. Na segunda metade da partida, ainda nem sequer dois minutos tinham corrido no relógio do Coimbra da Mota e já Portugal resolvia de vez o problema da infelicidade na finalização. Kika Nazareth percorreu quase todo o meio-campo defensivo da Letónia antes de entregar a bola a Carolina Santiago, solta junto da área. A avançada do Sporting, no centro esquerda, fletiu para o centro da área e, sem as contemplações da primeira parte, adiantou aos 47′ a Seleção Nacional com um remate rasteiro, suave, mas preciso: um ‘passe’ à malha lateral da baliza letã resolvia o impasse que durou uma metade de jogo a desatar.
O problema, que não se tinha resolvido em 45 minutos, em dois estava solucionado. A dúvida que ainda pairou na primeira parte parecia estar totalmente resolvida, quando, cerca de sete minutos depois, Ana Capeta respondeu afirmativamente a um cruzamento de Nelly Rodrigues: estava feito o segundo de Portugal e um passo de gigante para o grande jogo decisivo diante da Finlândia, contra quem Portugal pode empatar para garantir o primeiro lugar do grupo B3.
Na segunda parte, em vez de pairar a dúvida, pairava a teoria do ketchup. Em 14 minutos, Portugal tinha marcado dois golos. O que se seguia? A confirmação da teoria que Ronaldo lançou durante a fase final do Mundial 2010. Kika Nazareth protagonizou o momento da noite com um golaço. Aos 62′, a número 7 teve espaço e a cerca de 30 metros da baliza fez o 3-0, depois de a bola encontrar o ângulo superior esquerdo. Ainda se festejava o terceiro, quando o quarto golo surgiu dois minutos depois, após um erro da Letónia. Kika Nazareth agradeceu o brinde recusado na primeira parte e apontou mais um grande golo, desta vez de pé esquerdo. Agora, na segunda, transformava os números em goleada.
Com um ritmo mais baixo, depois de ter marcado quatro golos, notava-se uma seleção mais confiante, mas não com menos vontade. As oportunidades repetiam-se e a bola, que já tinha entrado por quatro ocasiões, voltava a não entrar. Parecia estar apenas destinada a entrar com grandes execuções. Foi isso que Dolores Silva fez já perto do fim, aos 85′. A cerca de 25 metros da baliza contrária, converteu um pontapé livre em mais um grande momento na tarde/noite vivida no Estoril.
Era com muita resiliência que as Navegadoras transformavam uma primeira parte perdulária numa segunda, não só eficaz, como com apenas golos de alta nota técnica. Agora, segue-se a grande adversária de Portugal no grupo B3, a Finlândia, contra quem a Seleção Nacional jogará na próxima terça-feira, em Tampere, para decidir quem sobe ao grupo A da Liga das Nações. Nas contas de acesso ao Mundial, uma vitória na Finlândia não só carimba a subida à elite europeia, como assegura o estatuto de cabeça-de-série na Ronda 1 dos play-offs. Isto garante que as Navegadoras evitam os tubarões que descem da Liga A e decidem a primeira eliminatória decisiva em solo nacional, dando o primeiro passo firme rumo ao sonho do Mundial de 2027.